logo
rss  Vol. XX - Nº 353         Montreal, QC, Canadá - sábado, 24 de Agosto de 2019
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Um Quebequense lusófilo «se souvient» de Lagoa

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

«Tu devias escrever as impressões como quebequense que guardas da Lagoa» pede-me o chefe de redação – o nosso valoroso homem de Cabouco.

Uma escala fugaz em Santa Maria em maio de 1974 (de volta duma reportagem memorável sobre a Revolução dos Cravos), depois três estadias recentes em São Miguel, permitiram-me captar uma parte da realidade. Na minha imaginação, reúno tudo o que conheço de algumas cidades do continente. E mesmo de Macau, a portuguesa, onde fui muitas vezes ao longo de várias décadas. A minha portugalidade é assim extensa e plural. Resumindo, não é fácil separar Lagoa do todo.

O conjunto para mim? Primeiro, pessoas acolhedoras, acessíveis e de trato agradável. Uma população consciente da sua história antiga que é visível por todo o lado. As velhas pedras dos monumentos de Macau, por exemplo, enviam-nos diretamente aos séculos XVI e XVII. Quando uma vila como a de Água de Pau celebra o seu aniversário, falamos de nada menos de cinco séculos, 1515-2015. Quando pergunto aos açorianos de me falar dos seus antepassados, recuamos depressa aos navegadores de passagem, depois aos colonos bretões e flamengos, entre outros, que povoaram as ilhas. Portanto, uma identidade insular comum existe realmente. O grande cadinho azul.

Duas autonomias a respeitar

JULES NADEAU Monte Santo DSC_0314.JPG
Jules Nadeau,numa das encostas do Monte Santo, com uma excelente vista para a Vila de Água de Pau.
Foto Anália Narciso - LusoPresse

Descobri o largo Sainte-Thérèse (julho de 1993) antes de ver a praça Lagoa no coração das Baixas Laurentides. Inefável à primeira vista! A vossa casa é a nossa casa. Outra confirmação de proximidade: somente cinco pequenas horas de voo da Sata entre Montreal e Ponta Delgada. Depois, os sinais de familiaridade multiplicam-se. Ver encontrarem-se na rua do 25 de Abril pessoas da mesma família, amigos de infância e antigos vizinhos. O meu tio, a minha cunhada, o meu avô. Até parece que estarmos no boulevard Saint-Laurent.

Em termos de nível de vida, sem ir mexer nas estatísticas, não vejo grande desigualdade. Se devesse reformar-me na «região autónoma» (hum, já pensei nisso, para ir bronzear), não teria certamente a impressão de fazer sacrifícios. Há casas modernas, belas estradas e suficientes lojas grandes para as minhas necessidades. A língua de Antero de Quental? Não é um grande obstáculo, atacava-me enfim a passar do português lido ao português falado. Politicamente, também me sentiria à vontade. O Quebeque é uma «província como as outras», enquanto os Açores constituem uma «região» que não é como as outras. O termo «autonomia» do arquipélago vem constantemente nos jornais locais, reparei, e acomodo-me bem desta realidade. (Esperando que os açorianos se acomodem também das aspirações dos quebequenses.)

Não tendo estado nos Açores como simples turista, tenho dificuldade em falar das suas infraestruturas de colhimento – salvo do paradisíaco hotel Terra Nostra situado no meio do Jardim Botânico. Viajei por três vezes na companhia do cofundador do LusoPresse: mais açoriano que Norberto Aguiar, o «primo» de todos, é impossível. Donde, tive a sorte de me encontrar com pessoas de todos os meios. Para começar, os «presidentes» que têm esse nobre título – em vez de primeiro ministro ou presidente da câmara. Políticos abordáveis, apesar de tudo, em estruturas que qualificaria de pesadas.

Mais perguntas que respostas

Conduzindo de uma vila ou de uma freguesia para outra, ao nível das personalidades, é também o prazer de ver as casas natais de algumas delas. Exemplo, Onésimo Teotónio Almeida (Pico da Pedra) e Pedro Miguel Pauleta (Ponta Delgada), que aprendi a conhecer deste lado do Atlântico. Dois grandes homens muito reputados e, portanto, tão simples. Gostaria bem de os ver lá num jantar de pampo ou de boca negra. O sentido do humor do professor ultrapassa-me; as brincadeiras do jogador comigo, honram-me.

Para melhor aprofundar, tenho pena de não ter aproveitado bem dos encontros com os especialistas da Universidade dos Açores, como Vamberto Freitas, num colóquio nas Furnas. A mesma coisa com os jornalistas, como Gustavo Moura do Açoriano Oriental, Osvaldo Cabral do Diário dos Açores ou o repórter desportivo medalhado José Silva. Se fosse a recomeçar, dispondo de mais tempo, teria organizado uma série de entrevistas sobre vários assuntos micaelenses. Quais? Quando escrevi sobre o Chá Gorreana, o meu encontro com Margarida Hintze-Mota na companhia das suas filhas Sara e Madalena, fez surgir numerosas interrogações, não somente sobre a cultura do chá, mas igualmente sobre o ananás, o tabaco, as laranjas, assim como a cerâmica Vieira. Gostaria muito de ver como as empresas da influente família Bensaúde puderam chegar à Lagoa.

Edmundo Narciso

Na mesma ordem de ideias, ainda em Lagoa, mais concretamente, o assunto que teria gostado de tratar (em profundidade) é o sucesso da família de Edmundo Narciso no setor das pescas. Visitei a sua fábrica ultramoderna em Rosário. Assisti a desmancharem enormes atuns. E, sobretudo, apreciei os melhores peixes e mariscos da firma Maria de Lurdes na intimidade da família. O hábil homem de negócios Edmundo Narciso é o irmão de Anália Narciso, a esposa de Norberto. O casal de Laval viveu na principesca casa familiar, enquanto eu, igualmente mimado, ocupei (sozinho) a agradável propriedade secundária da família na rua Direita, em Atalhada. Talvez por pudor, por respeito pela intimidade dos Narciso, nós não ousamos fazer um assunto de reportagem. (Nem falar do reputado restaurante grego montrealense onde se podem saborear as frescas importações Narciso.)

Em 2015, Atalhada é a freguesia onde melhor fiz a experiência da vida quotidiana. Na terra de Armando Melo, o restaurante José do Rego tornou-se o meu segundo escritório. Sabia o nome de todo o pessoal. Dinis, Duarte, Carolina, Artur e José ocuparam-se de todas as minhas necessidades: jornais, internet e informação turística. Sem esquecer o vinho verde e as «porções para crianças» (nunca consigo acabar os pratos a transbordar em Portugal). Senão, com Norberto, nós começávamos bem ou acabávamos os nossos dias no café O Carlos, onde encontrávamos sempre amigos. (As minhas saudações ao reformado Manuel Eduardo Avalar com quem bebemos um café divino.)

Enfim, devo dizer que me emocionou ir ao cemitério de Cabouco onde repousam parentes próximos de Norberto. Uma ligação a fazer com os cemitérios de Sainte-Thérèse, donde o da igreja unida. Os que repousam no seu país e os outros em terras de América. As famílias de lagoenses conhecem elas bem a sua genealogia? Em Sainte-Thérèse, fiquei impressionado pela paixão de Gilles Charron e de André Thériault por esta matéria. Não somente a recolha de arquivos datando até da França, mas também todos os artefactos do Museu Joseph-Filion (uma antiga forja) que eles ajudaram a conservar ao longo dos anos. Seguramente que os apaixonados de história dos dois lados do Atlântico poderiam cooperar de modo mais próximo para enriquecer o património de tantas famílias. Uma inspiração para o Museu etnográfico de Cabouco.

 

Especial
«Tu devias escrever as impressões como quebequense que guardas da Lagoa» pede-me o chefe de redação – o nosso valoroso homem de Cabouco.
Lagoa.doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2019