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rss  Vol. XX - Nº 353         Montreal, QC, Canadá - domingo, 17 de Novembro de 2019
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José Cebola, o luso-teresiano de múltiplas facetas

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

O vigoroso octogenário ao grande sorriso, José Cebola, cofundador da Associação Portuguesa de Santa Teresa, é nem mais nem menos o condensado vivo de várias particularidades. Originário do continente, duplo apego, casou-se com uma jovem das ilhas. Outra religião, ele é protestante da Igreja Unida e, por este facto, ligado à minoria anglófona. A sua outra devoção é o futebol. Entre outras coisas, leva-nos a inspecionar a sua igreja que se metamorfoseia em sala de teatro. Igualmente o cemitério da comunidade inglesa. Outra particularidade, José Cebola trabalhou durante 28 anos para a General Motors onde atingiu o grau respeitável de supervisor.

Encontramo-nos num dos restaurantes animados da rua Turgeon. Pontual, direto e convivial sobretudo, o homem que me aperta a mão tem quase a mesma idade que Élie Fallu e parece tão vigoroso como o antigo magistrado. Parece que o ar puro e a qualidade de vida de Sainte-Thérèse fazem com que as pessoas vivam mais tempo. Procuramos dentro um lugar menos barulhento, mas sem sucesso, enquanto José Cebola se diverte como um adolescente tecno com o seu telemóvel.

Montijo e Lagoa

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Continente ou Açores? A eterna questão. Dupla obediência: «Sou originário do Montijo, escreve ele no meu bloco de notas, e a minha mulher, Celeste, vem da Lagoa». José Cebola faz parte dos doze apóstolos que lançaram as bases da Associação Portuguesa no 1º de maio de 1974: como testemunha a fotografia a cores no local histórico do 103b Turgeon. Mas a nossa conversa desliza inevitavelmente para o futebol porque o José Cebola começou por participar na fundação do clube dos Braves nos anos 60. A bola antes de tudo o mais!

«Mandei vir do meu tio em Portugal uma dúzia de pares de botas. Não tínhamos disso aqui para jogar. As bolas? Já não me lembro onde é que as arranjamos. Depois arranjamos um terreno vago que preparávamos cortando as ervas. Corridos daí, fomos à câmara pedir um outro lugar. Eles disseram Ok, mas com a condição de ensinarmos aos jovens para que se torne uma atividade da cidade». Os promotores desportivos estabeleceram as ligações e fizeram uma coleta. Um dos doze apóstolos era francês. René Épinat, depois italianos e um húngaro juntaram-se aos Braves e mais tarde à liga.

Bíblia protestante? Pelo facto do jovem José de 25 anos ter começado por viver em Toronto (1958), onde assimilou a língua de Shakespeare, dois anos mais tarde, ao chegar a Sainte-Thérèse, ele simpatizou mais facilmente com os discípulos da Igreja Unida do Canadá. O seu templo da rua Saint-Charles tinha aberto em 1833 – exatamente um século antes do nascimento de José. (O pai da sua esposa Celeste converteu-se ao protestantismo nas Bermudas e voltou para o Montijo para ocupar um lugar de pastor.) Resumindo, tudo isto fez com que o marido e a mulher se enraizaram bem na pequena cidade quebequense. Além disso, um bom trabalho na General Motors em 1965.

O templo torna-se num teatro

Numa localidade francófona tão católica, uma rara minoria desperta a curiosidade. O reformado diverte-se a guiar-me até ao seu «edifício patrimonial». Sinal dos tempos, numa cidade de cultura, a ex-igreja unida, verdadeiro estaleiro de construção, transforma-se em escola de teatro. O moderno edifício quadrado de tijolos vermelhos com janelas em ogiva tem ao lado uma velha escola e a residência do pastor. Em jeans, o contramestre Michel Therrien conta-nos os trabalhos que devem acrescentar todo o equipamento de uma sala de espetáculos. O interior deste vestígio do século XIX está revestido de lambrins de preciosa madeira escura.

Felizmente que os objetos do culto foram oferecidos em bloco ao Museu Joseph Filion. O conservador Gilles Charron juntou tudo numa pequena sala envidraçada para que a memória da comunidade anglófona subsista: cruz, cálice, livro santo, toga, relógio, atril, tapetes. A Igreja Unida do Canadá testemunha a chegada dos pioneiros escoceses de confissão presbiteriana. Um deles chamava-se John Morris e não longe deste complexo vemos um imponente solar de pedra, o Castel Morris – agora transformada em edifício público.

José Cebola examina o pequeno complexo anglo-saxão onde se sente completamente em casa, como se estivesse na sua própria horta. Depois, o pai de quatro filhos (e avô de seis crianças) reserva-me uma surpresa. A prova que está virado ao mesmo tempo para o seu passado e para o seu futuro. Completamos a visita entrando no pequeno cemitério (muito bem cuidado) onde são vizinhos túmulos com nomes ingleses ou portugueses com casais mistos. Alexander Morrison e Margaret Willing. Carlos de Sousa e Natália de Sousa. George Kemp e Jacqueline Taillefer. A visita da última morada é sempre comovente. A minha última experiência deste género foi em 2015 quando passei longos momentos nas áleas estreitas do cemitério muito evocador de Cabuco (Lagoa) a examinar as fotos dos defuntos usadas pelo tempo.

Mestre Cebola acaba por apontar com o dedo para três placas de madeira, contra a rede da vedação. Todas marcadas com um nome em maiúsculas. Como tutores plantados na terra para suster as plantas dum jardim e indicar a origem. Lado a lado, três nomes em preto escritos simplesmente à mão. Haward, Thompson e ao meio, muito direito, as seis letras verticais de CEBOLA. «É lá que eu vou acabar os meus dias», deixa cair o anfitrião. Seguramente dito com uma piscadela de olho interior.

Especial
O vigoroso octogenário ao grande sorriso, José Cebola, cofundador da Associação Portuguesa de Santa Teresa, é nem mais nem menos o condensado vivo de várias particularidades. Originário do continente, duplo apego, casou-se com uma jovem das ilhas. Outra religião, ele é protestante da Igreja Unida e, por este facto, ligado à minoria anglófona. A sua outra devoção é o futebol. Entre outras coisas, leva-nos a inspecionar a sua igreja que se metamorfoseia em sala de teatro. Igualmente o cemitério da comunidade inglesa. Outra particularidade, José Cebola trabalhou durante 28 anos para a General Motors onde atingiu o grau respeitável de supervisor.
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