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rss  Vol. XX - Nº 353         Montreal, QC, Canadá - domingo, 17 de Novembro de 2019
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Guarda-redes Isaías da Ponte...

Se hoje, sem dúvida que jogaria numa qualquer Primeira Liga!

Norberto Aguiar

Entrevista de Norberto Aguiar

Ainda criança habituei-me a assistir aos jogos do Clube Operário Desportivo – onde joguei mais tarde. Muitas vezes acompanhado de amigos já adultos. Porque naquela época, não sendo o futebol, como divertimento só podia ser o cinema. Mas havia o problema da idade...

Agora, recuando no tempo, lembro-me da equipa do Operário com o guarda-redes Eduíno – vive curiosamente nesta província, em Nicolet! – porque é de um guarda-redes que vamos hoje aqui tratar. Mais tarde vimos e gostámos de outros, como por exemplo do Gilberto, antecessor, precisamente, de Isaías da Ponte, de quem vamos falar, na defesa das redes do «Pica-Ferrugem», nome por que era também conhecida a equipa e que só por si mereceria um escrito.

Quem é este grandalhão...

Nasceu em Água de Pau em 14 de maio de 1949, de gente simples, por isso com necessidade de trabalhar muito jovem, no campo, cujo maior salário que recebeu foi de 15 escudos por dia... Trata-se de Isaías da Ponte, o desalmado extremo esquerdo que Francisco Laranja, conhecido por «Pelica», descobriu em Água de Pau, freguesia onde namorava. Tinha ele na altura 17 anos, jogava naturalmente na rua, pois a freguesia não tinha equipa de futebol e vir até ao Rosário – sensivelmente 10 quilómetros de distância – para jogar nos juniores da única equipa do concelho (Operário) era deveras difícil, por falta de transportes e pelo dinheiro que não havia.

«Lenha ao mato»

«A primeira vez que vim aos treinos do Operário foi muito caricato. A minha mãe mandou-te ir buscar lenha ao mato – era assim que os pobres faziam por falta de meios... – e, eu, em vez disso, meti-me à boleia num camião e vim direito ao Rosário. O problema é que nem sabia onde era o campo... Acanhado, lá pedi a alguém que me levasse lá. Não fui para o campo porque, no caminho, como tu sabes, há a Fábrica do Álcool e como o clube pertencia à fábrica, deixaram-me lá. Era para aí uma hora da tarde... Mandaram-me esperar. O primeiro jogador a chegar foi o Guilherme Fragoso – há artigo dele nestas páginas. Trocámos algumas conversas e comecei a equipar-me. Logo aí demonstrei que não tinha sequer a noção em que situação me metia. Ao equipar-me, o Fragoso repara que tenho as joelheiras ao contrário... Fiquei ainda mais nervoso. Depois chegaram outros jogadores e eu passei a ser motivo de surpresa e risota, até pela minha altura, que é de 1,92 cm. Todos ficaram na expetativa do que faria numa baliza...».

É preciso dizer aqui que o Clube Operário Desportivo estava nessa altura bem servido com o Gilberto à baliza. Ele tinha feito uma carreira excecional nos juniores da célebre equipa treinada pelo professor Jorge Amaral e que contava com Viola, Norberto, Ernesto, entre outros belíssimos valores. Não admira que as hipóteses de Isaías fossem praticamente nulas. Houve mesmo chacota, da parte do público adepto e até da maior parte dos jogadores. Refira-se que nessa ocasião o Operário tinha acabado com o departamento júnior, que a haver, podia ter sido um bom trampolim de aprendizagem para o «Grandalhão», como bem me lembro o tratavam pejorativamente.

Emprego garantido

Decidido a jogar futebol a sério, mesmo se a mãe tudo tivesse feito para que isso não acontecesse, acabando por exigir que o filho fosse pago pelos transportes, dias de treinos e em todas as situações em que não pudesse trabalhar por causa do futebol, exemplo lesões... O engenheiro diretor da Fábrica do Álcool e presidente da equipa, acalmou todas as preocupações da mãe, dando-lhe emprego na fábrica, que era o sonho de muitos!

Tornaram-se assim as coisas muito favoráveis ao novel jogador do Operário. Futebolística e profissionalmente, como era seu desejo e da família. «Primeiro, diz de sorriso largo na face, pequena para o seu gabarito, que apesar de muito esforço fui ganhando a confiança do treinador dos guardes-redes, que era o jogador mais respeitado da equipa e também o mais velho e capitão, José Eleutério – treinou (Clube Pimentel), e viveu em Montreal os restantes dias da sua vida. A seguir, ganhei a estima do treinador principal, o Senhor João Gualberto».

Lembro-me das «tareias» que o Isaías, mais o Gilberto, levavam nos treinos, num espaço na parte de fora do terreno de jogo. Era num retângulo assaz importante, cheio de areia, de forma que as quedas sugeridas fossem amortizadas... Nessa altura já se começava a ver que o futuro das redes do Operário iriam parar às mãos do «Grandalhão» de Água de Pau...

A titularidade e portentosa exibição diante da CUF

Foi assim que no decorrer da época de 1966/67, a três jogos do fim, um penalty seguido de lesão de Gilberto e eis que Isaías é chamado a defender a baliza. É preciso dizer que nesse momento já todos viam que o Isaías era um predestinado para a posição de guarda-redes. «Estava tão nervoso e só queria que o Gilberto recuperasse e voltasse para a baliza. Felizmente que depois nunca mais deixei o lugar de guardião. Foram três épocas maravilhosas, com grandes jogos, alguns diante da grande equipa do Santa Clara».

Nos três anos de Operário – primeira passagem, pois há uma segunda – curiosamente não se passou de camisola do Operário vestida o seu momento mais determinante como guarda-redes. O seu momento mais fabuloso deu-se diante da CUF, de Capitão-Mor, Arnaldo, Conhé, Manuel Fernandes... quando à baliza da Seleção das Vilas e Freguesias de São Miguel, fez uma exibição espantosa, digna de guardiões internacionais, quando parou o ataque da CUF até 10 minutos do fim, quando saiu para dar lugar ao guarda-redes do Águia dos Arrifes... Na altura da sua substituição, o placard acusava 2-1 para o então quarto classificado da Primeira Divisão de Portugal. O desafio terminou em 4-1...

Campeão Açoriano no Praiense

A tropa levou-o para a ilha Terceira, antes de ser mobilizado para Angola. Logo que a notícia chegou àquela ilha, as equipas locais correram a contratá-lo – e ao ponta de lança Costa Pedro. Foi o Sport Praiense a ganhar a corrida. O homem vindo do Santa Clara acabou por assinar pelo Sport Angrense, pois também nesta ilha ele ia vestir à Benfica.

Teve mais sorte o guardião lagoense, que logo nesse ano ganhou o Campeonato da Terceira, e mais importante ainda, o Campeonato Açoriano. Decorria a época de 1970/71. E para maior gozo, o Sport Praiense foi arrebatar o troféu a Ponta Delgada, diante do favorito Santa Clara. Por acaso vimos o jogo e, como toda a gente – o estádio estava cheio – vimos o Santa Clara dominar claramente a partida. No entanto, foi o Praiense a levar a taça, mercê da grande exibição de Isaías e da dupla de pontas de lança Valentim/Eduardo. Escusado será dizer que o Isaías foi recebido em herói na Praia da Vitória! Ainda hoje o Isaías é reconhecido pelo feito. E passados 46 anos da conquista daquele campeonato, fizeram-lhe uma grande receção.

Em Angola

Veio pouco tempo depois a mobilização para Angola. Nesta antiga colónia portuguesa, acompanhado de Fernando Costa Pedro, Isaías alinhou no Sporting do Negaje. Começou como suplente de um guarda-redes vindo do Famalicão. Mas, certo dia, num jogo em Luanda, contra o ASA, no Estádio dos Coqueiros, um zero quatro ao intervalo fez o treinador enviá-lo para o «inferno...». Depois dessa segunda parte nunca mais o Isaías saiu da baliza do Sporting. Pior estava o Costa Pedro, grande ponta de lança nos Açores, ali metido a central...

Levado pelo calor dos adeptos, Isaías surpreendia tudo e todos. O seu valor não deixava dúvidas a ninguém e isso levou-o para o Benfica de Huambo, onde foi ganhar 25 contos angolanos. O treinador era Filipe Conde. «Fomos campeões de Uíge e, depois, chegámos ao quarto lugar do campeonato provincial logo nesse ano. Um grande feito!»

O regresso a casa

«Joguei ali dois anos e voltei a casa porque a minha comissão terminou. Mas deixei cartaz no futebol angolano, ao ponto de ter recebido proposta de contrato para voltar para Benguela. Mas a família e a possibilidade de emigrar para o Canadá deitaram por terra essa possibilidade. Ainda voltei a jogar no Operário. Mas alguns meses depois estava de abalada para a cidade de Vitória, na Colômbia Britânica. Aqui fui jogador-treinador por carolice. O trabalho na construção era duro e não dava para muito mais. Felizmente que cinco anos depois entrei na Câmara como canalizador, depois cheguei a inspetor das águas. Não me realizei como jogador profissional de futebol, mas realizei-me profissionalmente. Hoje, reformado há oito anos, vivo entre o Canadá e a Lagoa, onde tenho uma boa casa. Os filhos estão orientados. Agora, na minha idade, tenho de gozar o fruto do meu trabalho. Passo quatro meses na ilha e depois volto para a minha casa, em Vitória, para lidar com as minhas três netas e um neto. Quantos filhos tive? Só deu para três raparigas», diz-nos ao mesmo tempo que terminamos a entrevista.

Prometido há muito, este bate-papo acabou por ser longo, precisamente porque levou anos para ser realizado. Mas sempre conseguimos dar à estampa a carreira futebolística daquele que consideramos o melhor guarda-redes que vimos atuar nos Açores enquanto lá vivemos. De resto, diz-nos a experiência e o conhecimento que se Isaías aparecesse hoje no mundo do futebol, com aquelas mesmas características, era certo e sabido que tinha condições para estar entre os postes de qualquer baliza.

Entrevista
Ainda criança habituei-me a assistir aos jogos do Clube Operário Desportivo – onde joguei mais tarde. Muitas vezes acompanhado de amigos já adultos. Porque naquela época, não sendo o futebol, como divertimento só podia ser o cinema. Mas havia o problema da idade...
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