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rss  Vol. XX - Nº 353         Montreal, QC, Canadá - sábado, 24 de Agosto de 2019
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Em Sainte-Thérèse...

As festas do Divino Espírito Santo

Por Joaquim Eusébio

Quando se emigra, leva-se na memória o que achamos de mais característico das nossas raízes. Por isso, não admira que a diáspora açoriana tenha disseminado o culto ao Divino do Espírito Santo, adaptando-o aos novos lugares. Assim ocorreu nos Estados Unidos, no Brasil e igualmente no Canadá. Sainte-Thérèse não escapa à regra. Quem nos explica como tudo aconteceu foi a sra. D. Maria dos Anjos Pereira. Originária da Lagoa, aqui chegou em 1960. Após a morte dos seus pais, a avó tomou conta dela e acompanhou-a quando decidiram trocar a Lagoa pelo Canadá. Em Sainte-Thérèse residia uma tia sua que viera para aqui há muitos anos para se juntar ao marido, um dos pioneiros da emigração portuguesa nos anos 50. Esse seu tio, tal como outra dezena de lagoenses fixara-se aqui, para trabalhar na agricultura. Com o evoluir dos tempos a comunidade portuguesa foi crescendo, uns chamando os outros. Isso criou condições para que em 1978 se organizassem pela primeira vez as festas do Divino Espírito Santo durante as festas de S. Pedro. E daí para cá não pararam esses festejos. Tentou seguir-se o modelo dos festejos, tal como se fazia na Lagoa, mas houve que adaptá-lo à realidade de Sainte-Thérèse. Assim, aqui a festa não tem data fixa, realizando-se no fim de semana mais próximo do S. Pedro.

Divino Espirito Santo 1978.jpg
O primeiro Império registado nesta foto. Foto cedida gentilmente por Maria dos Anjos Pereira.

A organização pertence à Associação Portuguesa. Todos os anos há um responsável, o mordomo. Trata-de um voluntário que se oferece para o cargo no final da festa do ano anterior, muitas vezes por promessa. No caso de haver vários candidatos, é sorteado o nome do contemplado. O mordomo é apoiado por uma Comissão de Festas e todos trabalham em consonância com a direcção da Associação. A angariação de fundos é feita pela Comissão de Festas que, para o efeito, faz peditórios, promove bailes, almoços e jantares e recolhe o apoio de casas comerciais. Os três dias de festa são precedidos por sete domingas, ou seja, nas sete semanas precedentes já há atividades de culto ao Espírito Santo em casa de cada uma das sete famílias voluntárias ou que foram escolhidas por sorteio. Assim, na 1ª dominga, a família que recebe vai buscar a casa do mordomo a bandeira do Espírito Santo e as coroas. A decoração da casa é feita de acordo com o gosto de cada família. Todos os dias é recitado o terço na presença de vizinhos e amigos da família. No final há uma pequena refeição com coisas oferecidas pela família que recebe (café, cerveja, doces), embora frequentemente os convidados tragam um bolo ou um pudim. E no domingo seguinte há um almoço oferecido aos que estiveram presentes ao terço ao longo da semana. Vão depois à igreja coroar crianças ou adultos dessa família. Este ritual vai-se repetir nas cinco semanas seguintes.

A sétima e última dominga terá lugar em casa do mordomo e nos primeiros dias é igual ao que descrevemos anteriormente. Na 6ª feira é feita a benção da carne (de vaca), do pão, do vinho e da massa para as malassadas (filhós). A carne será distribuida no dia seguinte pelas famílias interessadas (residentes em Sainte-Thérèse, em Boisbriand ou mesmo em Laval), que pagam para o efeito uma certa quantia em dinheiro. Trata-se da pensão, conhecida igualmente sob o nome de Flor do Espírito Santo. Antigamente os carros que distribuiam as pensões eram decorados, o que já não acontece atualmente. É igualmente dada, de forma anónima, às famílias mais necessitadas. A nossa entrevistada lamentou que já não haja praticamente foliões, ou seja, um grupo de cantores acompanhado por guitarra e acordeão que improvisam quadras em honra do Espárito Santo. Os foliões foram envelhecendo e a renovação não se tem feito...

No sábado, há o terço e, mais tarde, o arraial com comes e bebes no exterior da Associação e com ranchos, artistas e baile. Faz-se também um leilão das ofertas para a recolha de fundos. Este leilão repete-se no domingo. Há igualmente uma oferta aos presentes de um prato de carne guisada (o picado).

No domingo, por volta das 12h30, sai da Associação o cortejo da coroação em direção à igreja do Coração Imaculado de Maria, no boulevard Desjardins. Nele participam os convidados do mordomo e do encarregado da procissão, bem como as autoridades locais e o cônsul de Portugal. O cortejo é normalmente presidido por um padre português ou pelo menos lusófono (o padre André que é canadiano, mas que aprendeu o português no Brasil). Fitas com as cores das bandeiras de Portugal, dos Açores, do Quebeque e do Canadá ornamentam quatro raparigas. Desfila igualmente a Rainha da Festa com uma grande capa azul (a cor da Associação). A rapariga escolhida é necessáriamente solteira e frequentemente familiar do Mordomo. Segundo a D. Maria dos Anjos, a Rainha da Festa deve ser uma influência da Terceira ou de Santa Maria, pois esse hábito não existia na Lagoa. O cortejo é geralmente abrilhantado pelas bandas filarmónicas portuguesas de Laval e de Montreal. O Hino do Espírito Santo é tocado quando chegam ao recinto da Associação e à Igreja. O percurso é definido com as autoridades policiais procurando afetar no mínimo o trânsito. Depois da missa, faz-se a coroação dos familiares e dos convidados do mordomo enquanto se canta o Magnificat e no final, à saída toca-se o Hino. Regressa-se então à Associação e aí se guardam as coroas e a bandeira no Império (uma modesta estrutura quadrada em madeira decorada na altura das festas com cortinados vermelho e branco, que são as cores das fitas e das bandeiras). Depois é servida na Associação a sopa e o cozido do Espírito Santo (pão seco recoberto com água de cozer a carne, temperada com hortelã e acompanhada de rodelas de chouriço e morcela). Mais tarde, por volta das 9 horas, são sorteadas as domingas e é escolhido o mordomo para o ano seguinte.

Assim terminam as festas que são um momento de fraternidade, de partilha e de convívio entre as gentes portuguesas de Sainte-Thérèse e que atraiem cada vez mais os outros habitantes da cidade.

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Quando se emigra, leva-se na memória o que achamos de mais característico das nossas raízes. Por isso, não admira que a diáspora açoriana tenha disseminado o culto ao Divino do Espírito Santo, adaptando-o aos novos lugares. Assim ocorreu nos Estados Unidos, no Brasil e igualmente no Canadá. Sainte-Thérèse não escapa à regra. Quem nos explica como tudo aconteceu foi a sra. D. Maria dos Anjos Pereira. Originária da Lagoa, aqui chegou em 1960..
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