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rss  Vol. XX - Nº 353         Montreal, QC, Canadá - sábado, 24 de Agosto de 2019
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Armando Arruda, a saudade das refeições em família

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

Quando Armando Arruda evoca os anos da sua juventude em Água de Pau, a recordação mais profunda, «inesquecível» mesmo, são as festas de família ao fim do dia na cozinha. O calor humano duma família numerosa de oito filhos que gozavam também do amor dos avós maternos – privados dos seus próprios filhos já a viverem no estrangeiro. Por outro lado, a recordação mais penosa na terra da emigração, é o facto de ver partir dum dia para o outro os amigos e os vizinhos para as Bermudas, o Canadá e os Estados Unidos. As ruas despejavam-se nos anos 60.

Nos Açores era o trabalho nas terras do avô onde se cultivavam as vinhas. Ia-se de burro. Na natureza, as refeições de peixe ainda quente preparado e trazido pela avó – e para sobremesa, laranjas ou melões colhidos à mão. Igualmente, era o lugar onde as casas não se fechavam à chave e onde se ia comer sem convite a casa dos vizinhos. Mais tarde, para o jovem Arruda, foram três anos bons no seminário e outros no liceu.

Quase meio século

Duma certa maneira, Armando Arruda não é fiel só aos seus concidadãos de Água de Pau. Ele é-o também ao seu patrão. «Cheguei a Montreal a 25 de agosto de 1969, e dez dias depois comecei a trabalhar como bus boy no Reine-Elizabeth na Dorchester. E 46 anos mais tarde, ainda aí estou», diz-me a rir o Açor-Quebequense no Bistro Montréalais do venerável hotel do boulevard que agora comemora René Lévesque. O empregado modelo ocupa aí um posto elevado. Não foi fácil para o jovem que chegou ao Quebeque com 15 anos.

«Tenho particularmente orgulho de chefiar o departamento do Serviço de Traiteur do Reine-Elizabeth que criei em 1992 e que serve agora mais de 130 000 refeições por ano, para eventos prestigiosos como o Grand Prix du Canada desde há 15 anos. Ou seja, mais de 6 000 refeições por dia», acrescenta ele para o LusoPresse.

Armando Arruda conhece o sentido profundo do termo emigration, pois a família completa mudou as raízes. A partir de 1953, primeiro foi um dos tios no primeiro barco de pioneiros para Halifax. Para evitar o serviço militar ao seu irmão José que se aproximava dos 16 anos, o papá Carlos Arruda (cobrador de bilhetes para a companhia de autocarros Varela) mandou-o estudar para o Quebeque. Depois, quatro anos mais tarde, os pais e os outros sete filhos também fizeram as malas. Em 1969, no pequeno avião da Sata, havia suficientes Arrudas para encher o aparelho. No primeiro voo efetuado do aeroporto da Portela, de Ponta Delgada, uma hora antes da inauguração oficial. Parentes próximos tinham-lhe desaconselhado de tentar a aventura na América por causa do desafio de fazer viver uma família tão numerosa.

Entre outras boas recordações, Armando Arruda fala com afeição duma personalidade marcante, o Padre João Caetano Flores, um homem de ideia largas. Uma vez que o estudante de 14 anos precisou da sala paroquial para uma representação teatral, este vigário disse-lhe «sim» (contrariamente ao «não» de um outro padre) e toda a população se deslocou para assegurar o sucesso da festa. Originário de Ribeira Chã, este promotor da educação, insistiu para que as famílias rurais fornecessem engenheiros, advogados e médicos à sociedade. O padre Flores fez construir a partir de nada a igreja supermoderna de Ribeira Chã. Para o financiamento, ele distribuía pequenos mealheiros de loiça às famílias e depois recuperava-os com os seus dons em escudos.

Pessoas e coisas

A saudade das pessoas, mas também a nostalgia das coisas. O homem do Reine-Elizabeth não voltou ao berço senão três vezes. «Gosto de me fazer desejar!» diz-me ele a rir. A última vez, em 2014, com a família de onze pessoas ao todo, incluindo três filhos, dois genros e quatro netos, sobretudo para mostrar o mais possível aos mais novos. Especialmente, ele queria «comer verdadeiramente português».

A ocasião de rever a casa do avô que se tornou o restaurante Paraíso de Milénio, vizinho da igreja (onde eu próprio comi uma deliciosa feijoada). Depois, saboreou o melhor do Bar-Esplanada Caloura, propriedade de um antigo pescador, regressado das Bermudas. «Eu adoro o polvo. Quando era criança, depois do meu pai ter retirado a tinta, era eu que o batia com um pau em cima da tábua de lavar do tanque em cimento para o amaciar», confia-me o pauense.

Durante a nossa curta conversa bem regada de café, o jovem sexagenário cita frequentemente o nome do seu cúmplice e colega Roberto Medeiros. Seu companheiro de escola primária (que foram quatro anos simpáticos) é a sua enciclopédia para a terra açoriana. «Roberto tem uma verdadeira paixão por Água de Pau. É o seu guia turístico. Viaja regularmente para os Estados Unidos e aqui também para trocas culturais. Um especialista da cerâmica da Casa Vieira.» Armando não é o único a fazer referência ao sr. Medeiros. A presidente da câmara Sylvie Surprenant também nos fala com frequência da «ponte viva» entre Sainte-Thérèse e Lagoa.

Comunidade
Quando Armando Arruda evoca os anos da sua juventude em Água de Pau, a recordação mais profunda, «inesquecível» mesmo, são as festas de família ao fim do dia na cozinha. O calor humano duma família numerosa de oito filhos que gozavam também do amor dos avós maternos – privados dos seus próprios filhos já a viverem no estrangeiro. Por outro lado, a recordação mais penosa na terra da emigração, é o facto de ver partir dum dia para o outro os amigos e os vizinhos para as Bermudas, o Canadá e os Estados Unidos. As ruas despejavam-se nos anos 60.
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