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rss  Vol. XX - Nº 352         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 06 de Julho de 2020
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O avesso da pele:

Vida e morte do pintor luso-quebequense Miguel Rebelo

Por Ilda Januário

Faleceu, a 2 de janeiro, Miguel Rebelo aos 58 anos de idade. Teria feito 59 anos no dia 16 de junho. Neto do pintor Domingos Rebelo, criado em Ponta Delgada, Lisboa e Montreal no seio de uma família com veia artística, Miguel deixou-nos inesperadamente quando se preparava para relançar a carreira de pintor abstrato.

À sua família me prendiam laços de amizade que remontam a 1969, data em que chegaram ao Canadá, tinha ele 12 anos de idade. Perdemo-nos de vista durante anos depois de eu ter migrado para Toronto. Retomámos o contacto, mais por telefone e por e-mail do que em pessoa. Num destes, escrito em 18 de outubro de 2015, falava-nos do seu processo criativo e planos para uma nova exposição, de uma trintena de trabalhos monocromáticos em azul que teria como título: Pele Azul (Peau bleue).

Miguel Rebelo pintor carrefour-11-2004.jpg
Miguel Rebelo
Foto Amadeu Moura

Com esse fim, continuava em contacto com Arlete, da Galeria 111 em Lisboa, viúva do conceituado Manuel de Brito. Este homem havia tido um papel importante no desenvolvimento do pintor, tanto do ponto vista profissional como afetivo. Faleceu pouco antes da exposição do Miguel na Galeria Outremont, em 2005, intitulada Le Revers de la Peau que, na altura, noticiei neste jornal.

 

Miguel passa às notícias sobre a saúde com o sentido de humor quase teatral que tanto nos deliciava. Nesse e-mail dá conta das sequelas do problema congénito cardíaco que o tinha levado a ser submetido, alguns meses antes, a uma operação de peito aberto para substituir válvulas. A convalescença havia sido relativamente rápida, apenas complicada pelo facto de o Miguel viver sozinho com a sua gata e poucos meios. Em setembro, dias antes do meu regresso a Toronto, recebi um e-mail seu em Portugal, a participar-me de nova exposição na Galeria 111, em que estava incluído. Não tive tempo de a visitar.

Falei com o Miguel pela última vez na véspera de Natal, data do aniversário da mãe Natália, falecida em 2012. Mostrou-se entusiasmado com o regresso à pintura e sentia grande orgulho de o filho Raphaël ter acabado de receber um doutoramento em física matemática. Raphaël foi fruto do seu casamento, antes de Miguel assumir a sua homossexualidade, orientação com que já se nasce. Era avô de duas meninas encantadoras – Livia e Flore – que conheci em fevereiro.

Dois dias antes de uma importante consulta médica, a morte, que lhe seguia traiçoeiramente a peugada, surpreendeu-o, por fim, em casa, com uma hemorragia cerebral. Chegado ao hospital, graças à intervenção de um vizinho, já o espírito de Miguel se havia ausentado para sempre. O corpo permaneceu ligado a uma máquina respiratória para possibilitar a despedida e a doação dos rins, tendo-se seguido a cremação dos restos mortais.

Foram rezadas missas pela sua alma em Ponta Delgada e em Lisboa, a 8 e a 11 de janeiro, por intermédio do primo Jorge Rebêlo e da família e amigos da Galeria 111. A 14 de fevereiro, em casa do Raphaël e esposa Raphaëlle, em Montreal, fiquei a conhecer outras pessoas da intimidade do Miguel, que se reuniram em sua memória, com as suas cinzas. Neste encontro reconfortante para todos nós, os sentimentos dos presentes falaram mais alto do que as palavras.

Uma vida completa, sofrida, controversa e tempestuosa, cerceada antes de tempo; dirão alguns, como convém a um artista... Mas o artista cria apesar da doença e do sofrimento, não por causa deles. Além de seropositivo, padecia de doença bipolar. Com os sentimentos à flor da pele, Miguel revelou, como poucos, talento, qualidades e defeitos, que deram à sua obra um cariz algo sombrio. Era possível que a vitória recente sobre a doença lhe trouxesse a luminosidade do azul nesta segunda fase promissora da sua pintura.

O rapaz que conheci e se tornou pintor, pai e avô não teve medo de expor, em vida, o avesso da pele. Em vez da sua planeada Pele Azul, restam connosco a transparência do seu espírito, sem pele nem tela, a par das memórias e da obra já reconhecida que nos legou.

Necrologia
Faleceu, a 2 de janeiro, Miguel Rebelo aos 58 anos de idade. Teria feito 59 anos no dia 16 de junho. Neto do pintor Domingos Rebelo, criado em Ponta Delgada, Lisboa e Montreal no seio de uma família com veia artística, Miguel deixou-nos inesperadamente quando se preparava para relançar a carreira de pintor abstrato.
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