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rss  Vol. XX - Nº 351         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
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Vacas que sorriem e outras que voam

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Se os responsáveis do turismo dos Açores quiserem uma promoção fantástica da região, sem pagar nada por isso, é só irem buscar as imagens da célebre visita de Cavaco Silva, em setembro de 2011, à Graciosa, quando disse que as vacas sorriem na pastagem, e juntá-las à mais recente ficção de António Costa, na apresentação do Simplex +, quando mostrou uma vaca que voa.

Com um texto tão criativo como a imaginação deles, ambos davam um spot publicitário de gritos.

São duas imagens felizes para o turismo de natureza dos Açores, mas infelizmente representam o pior que se está a viver no setor das vacas.

Encurralados pela União Europeia, que não soube lidar com os excedentes de leite nalguns países, e pelos governos nacional e regional, que não souberam preparar o setor para o embate, os produtores açorianos correm agora o risco de pastar para sobreviver, enquanto veem as vacas voarem...

Mais: enquanto que, por cá, se empurra os produtores para fora da catividade, com um resgate fracassado, no Reino Unido o governo distribui um pacote de 30 milhões de euros com várias medidas agroambientais, com vista à conversão de algumas explorações do país em explorações ecológicas e biológicas e ainda apoios a explorações com custos de produção acima dos 35 cêntimos por litro de leite, para além de apoiar os jovens a dedicarem-se à produção de carne de bovino.

A desregulação do leite na União Europeia faz com que entrem no nosso país, por ano, centenas de milhões de euros em leite e produtos lácteos excedentes noutros países.

Isto é apenas um exemplo do que poderá acontecer, com consequências ainda mais catastróficas, se Portugal e os Açores não souberem negociar – como não souberam nesta questão das quotas leiteiras – o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, mais conhecido como TTIP, que está a ser negociado entre técnicos e burocratas dos EUA e União Europeia e que não conhecem a realidade de regiões sensíveis como a nossa.

No que toca às vacas e aos produtos agroalimentares, o TTIP poderá trazer-nos mais dissabores ainda, arrasando de vez com o setor.

As negociações ainda não terminaram (vão para a 14ª ronda, neste mês de junho, em Bruxelas), mas já é sabido, por exemplo, que EUA e UE irão respeitar os modelos de produção agrícola dos dois lados, o que quer dizer que poderá ser permitida a entrada na UE de animais criados com fatores de crescimento proibidos na Europa.

Por miúdos: todos nós teremos acesso a produtos americanos cuja produção não é permitida aos agricultores e produtores pecuários europeus.

Por outro lado, também se sabe que Portugal apresentou uma lista de produtos DOP (Denominação de Origem Protegida), entre os quais o queijo de S. Jorge e o ananás, para serem reconhecidos como tal no Tratado.

Só que os EUA não aceitam e alguns países europeus já ameaçaram vetar o Tratado, numa «guerra» de queijos muito falada por esta Europa fora, mas completamente ignorada entre nós.

É o caso dos produtos do queijo Feta, na Grécia, os de Parmesão, em Itália, ou ainda os de Brie, em França.

Em terras do Tio Sam os queijos são considerados como «denominações genéricas», pelo que são vistos num conceito tão alargado que não cabem na categoria de alimentos com origem protegida.

É isso que faz com que possam imitar os nossos produtos, como o queijo de S. Jorge ou o vinho do Porto.

Estão a imaginar importarmos, a metade do preço, queijo de S. Jorge, que não o é?

Ou o Port Wine da Califórnia?

Os Açores e os produtores açorianos deviam promover um estudo rigoroso sobre o que está a ser negociado, protegido e qual o impacto da aplicação do Tratado na nossa economia e no nosso mercado.

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) publicou um estudo que diz que o setor agrícola americano sairá mais beneficiado do que o da UE.

A Comissão Europeia já veio dizer que não é verdade.

Mas também disse o mesmo quando se falou do impacto negativo do fim das quotas leiteiras.

Por isso, o melhor é pormos as barbas de molho.

É que já vimos de tudo.

Até vacas a sorrir e vacas a voar.

Crónica
Se os responsáveis do turismo dos Açores quiserem uma promoção fantástica da região, sem pagar nada por isso, é só irem buscar as imagens da célebre visita de Cavaco Silva, em setembro de 2011, à Graciosa, quando disse que as vacas sorriem na pastagem, e juntá-las à mais recente ficção de António Costa, na apresentação do Simplex +, quando mostrou uma vaca que voa.
Vacas que sorriem e outras que voam.doc
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