logo
rss  Vol. XX - Nº 351         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Para quando um Museu da Imprensa Açoriana?

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Os movimentos autonómicos que se registaram ao longo da história dos Açores dificilmente teriam nascido se não existisse a imprensa regional.

Foram os jornais da altura e os seus mentores que criaram o espírito de Autonomia nos Açores, com os consequentes movimentos em defesa da causa açoriana.

Então porque é que se vai criar uma Casa da Autonomia, tipo museu, e não temos um Museu da Imprensa Açoriana, onde tudo começou?

Desde 1829 que existem jornais nos Açores.

Foram milhares de títulos que se publicaram ao longo destes 187 anos, deixando um rasto de história e de conhecimento que a nossa região, infelizmente, não soube preservar.

Muitos já morreram na voracidade dos arquivos perdidos, sem registo dos seus vestígios, mas há ainda muitos outros que estão espalhados por aí, das mais diversas formas – exemplares guardados por colecionadores ou por instituições de arquivo regional – que deveriam ser recuperados e mantidos numa instituição representativa de toda a rica época do jornalismo açoriano.

Há equipamentos centenários, pertencentes a essa época, que se estão a perder por estas ilhas fora, para não falar dos mais recentes, ligados à rádio e à televisão açorianas.

Açores são pioneiros em vários títulos

Os Açores possuem uma das mais ricas histórias da imprensa regional do nosso país, sendo mesmo pioneiros nalgumas publicações de temáticas, nomeadamente a agrícola, como é exemplo «O Agricultor Micaelense», editado pela Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense em 20 de outubro de 1843.

Temos o jornal mais antigo de Portugal e um dos mais antigos da Europa, o «Açoriano Oriental», que nasceu a 18 de abril de 1835, seis anos depois do primeiro título que se publicou neste arquipélago, a «Folhinha da Terceira», o pioneiro do jornalismo açoriano.

Da imprensa política nem se fala. São centenas e centenas de títulos, muitos deles com publicação efémera, mas que fizeram a sua época naquele tempo, alguns deles de tal modo conflituosos, refletindo as profundas divergências políticas das suas épocas, que até levaram ao assassinato, em 1836, de um redator da «Sentinela Constitucional dos Açores».

Todas estas histórias, todo este levantamento histórico, está feito.

Devemo-lo ao saudoso Professor Manuel Jacinto de Andrade, um dos mais cultos e experientes jornalistas que os Açores tiveram, Chefe de Redação do «Açoriano Oriental» na década de 70 e que dedicou grande parte do seu profundo conhecimento e investigação à História da imprensa açoriana, trabalho depois prosseguido pelo seu filho José Andrade, também jornalista e hoje deputado regional.

Os jornalistas autonomistas

Autonomistas como Gil Mont» Alverne de Sequeira, Aristides Moreira da Mota, Manuel António de Vasconcelos, Bruno Tavares Carreiro e muitos, muitos outros, fundaram muitos dos jornais que refletiam as reivindicações autonómicas e as causas da população açoriana ao longo dos séculos.

Foi um deles que fundou o famoso «Autonomia dos Açores», cujo lema já era «a livre administração dos Açores pelos açorianos».

Perdeu-se quase tudo, até mesmo recentemente alguns jornais centenários (como o jornal «A União»), mantendo-se apenas os títulos de hoje, que vão lutando estoicamente ao lado da nova revolução do jornalismo digital e das novas plataformas. 

Os únicos sem museu da imprensa

Custaria pouco – nada comparado com os vários milhões que se vão gastar noutros museus – instalar numa instituição já existente, como no Centro de Artes Contemporâneas, no Museu Carlos Machado ou noutra instituição com espaços por preencher, toda esta história riquíssima, quase duas vezes centenária, recolhendo todo o material existente e espalhado por aí.

No continente existe o Museu Nacional da Imprensa, considerado um dos melhores do mundo, fundado em 1997, no Porto, com mais de 600 peças expostas, sem nenhuma peça histórica relativa aos Açores; a Madeira também já possui o seu Museu da Imprensa; há poucos dias foi inaugurado o News Museum em Sintra, um conceito mais moderno dos media e representando uma fase mais recente da nossa história; só os Açores, a região mais rica em história de títulos, não possui nada...

O Museu Nacional e o da Madeira

Há poucos dias, falando com o Diretor do Museu Nacional da Imprensa, o jornalista Luís Humberto Marcos, que esteve nos Açores, ficamos a saber que ele foi autor de uma proposta, há alguns anos, para a instalação de um museu nos Açores, à semelhança do que se veio a criar na Madeira, mas a papelada deve estar no fundo de alguma gaveta dos palácios da nossa governação.

O Museu da Imprensa da Madeira foi criado em agosto de 2013, reunindo o seu rico património histórico, tipográfico, litográfico e cinematográfico da imprensa e comunicação madeirense, integrado no edifício da Biblioteca Municipal de Câmara de Lobos, com um variado espólio de equipamentos tipográficos e outros que pertencem à história da imprensa madeirense (está aberto de segunda a sábado).

A História da imprensa prolonga-se na diáspora

Mas a História da nossa imprensa não se fica apenas pelas nove ilhas.                 

Na diáspora temos uma história, também rica, que reflete toda a epopeia da emigração açoriana naquelas paragens e que merecia também o nosso cuidado na respetiva preservação, até porque ela representa uma tradição jornalística que foi levada das ilhas pelos que emigraram no século XIX.

Neste especto, refira-se que os açorianos da diáspora vão mais à frente do que nós.

Nos EUA, por exemplo, o investigador Miguel Côrte-Real fez uma recolha exaustiva dos jornais lusos publicados na Nova Inglaterra no século XIX e princípio do século XX, enquanto que a cobertura da Califórnia ficou a cargo de Geoffrey Gomes, que publicou um interessante ensaio de 90 páginas na «Gávea Brown» (Geoffrey Gomes, «The Portuguese-Language Press in California: The response to American politics 1880-1928», Gávea-Brown, Vols. XV-XVI (1994-95), pp. 5-94).

Na costa leste, em New Bedford, houve um jornal português que se publicou durante mais de cinquenta anos (1919-1973), chamado «Diário de Notícias», cujos exemplares foram há pouco tempo preservados pelo Centro de Dartmouth para Estudos e Cultura Portuguesa, da Universidade de Massachusetts, digitalizando mais de 84 mil páginas deste título, um feito inédito na imprensa ética.

Uma questão de justiça

Como se vê, não faltam motivos, mais do que justos, para que os Açores façam honra à sua história.

Temos o levantamento histórico todo feito, temos peças guardadas por particulares e pelos media dos Açores que são autênticas relíquias da nossa história, temos gente qualificada para colocar este projeto de pé. 

Só falta a vontade do nosso parlamento e do nosso governo para a criação efetiva do museu.

Esperemos que as forças políticas inscrevam este projeto nos seus programas para a próxima contenda eleitoral.

É uma questão de justiça.

Para com os Açores e para com a História.

Crónica
Os movimentos autonómicos que se registaram ao longo da história dos Açores dificilmente teriam nascido se não existisse a imprensa regional.
Para quando um museu.doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2021