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rss  Vol. XX - Nº 351         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
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Esta língua que é um mar

Onde se viaja com esta língua que nos une e separa

Por Carlos Taveira

Quando eu era um pirralho, o dia 10 de junho chamava-se Dia de Camões, de Portugal e da Raça, chama-se hoje Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Para mim, é o dia desta língua que partilhamos, a mesma de quem um poeta se reclamava cidadão: a minha pátria é a língua portuguesa. Será a tua, provavelmente, porque se lês este artigo deves ter crescido na língua de Gil Vicente, Luís de Camões, padre António Vieira, Mariana Alcoforado, Eça de Queirós, Fernando Pessoa (o tal que é dela cidadão), Castro Alves, Machado de Assis, Cecília Meireles, Osvaldo de Andrade, Vitorino Nemésio, António Jacinto, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Alda Lara, José Craveirinha, Amílcar Cabral, Florbela Espanca, Pedro Cardoso, José Saramago… E de quantos outros!

Houve alguém que disse (esqueci-me de quem, acho que foi um brasileiro) que a língua portuguesa se divide em dois períodos: até Eça e depois de Eça. Outros opõem-lhe o padre António Vieira, a língua portuguesa seria coisa obscura até ser iluminada pelo autor do Sermão de Santo António aos Peixes. Contudo, a maioria de nós considera Luís de Camões como o expoente máximo dessa flor do Lácio, inculta e bela nas palavras de Olavo Bilac que, apesar do amor que votava à língua que ilustrou, a feriu na sua susceptibilidade. Porque é bela sim, inculta não.

É língua antiga que desabrochou num ramo comum, o galego-português, nas montanhas do norte peninsular de onde caiu, de acha de armas em punho, sobre sarracenos e castelhanos que expulsou. Cresceu entre cristãos, judeus, burgueses, plebeus e reis, amadureceu, enobreceu-se, popularizou-se e emancipou-se num retângulo de terra talhado a fio de espada. Espartilhada numa cota de malha assaz miúda para lhe conter o ímpeto montanhês, arrancou aos pinhais veleiros, com nomes de santos, que armou e lançou ao mar oceano. Neles embarcou, levantou ferro, içou velas com a cruz templária e, de coração nas mãos e rezas nos lábios, fez-se ao largo para enfrentar adamastores que se escondiam nas brumas medonhas do fim do mundo.

O sopro do lariço de Cascais empurrou-a para a linha do horizonte, as nortadas para o sul e, manobrando entre os ventos camacheiros da Madeira e mata-vacas dos Açores, foi-se instalando em ilhas luxuriantes, desertas de pessoas. Lavrando o mar de vaga em vaga, bolinando ou de vento em popa, chegou aos alísios que sopram aguaceiros sobre o Equador, cintura dividindo o mundo em dois hemisférios. Ouçamos o cidadão da língua portuguesa sintetizar esta aventura numa das mais belas quadras da sua Mensagem:

«E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.» (*)

Nessa orla branca, que foi cartografando, a língua negociou aguadas e géneros frescos, instalou feitorias, misturou-se aos idiomas locais, mestiçou-se e deu à luz línguas francas, sementes de futuros crioulos, deixando alguns padrões na esteira das naus e cruzes por todo o lado. Permutaram-se vocábulos, e se alguns criaram raízes em terra firme, outros embarcaram nos conveses atulhados de cordas e rudes pés descalços. Nas torna-viagens, os marujos portugueses traziam a África nos lábios, não fumavam a pipa ou a pipe como os espanhóis, ingleses ou franceses, era no cachimbo que se viciavam em nicotina, a confusão era um banzé, o charco de água uma cacimba, a soneca um cochilo, as contas eram missangas, o mexerico um zunzum, a desordem uma bagunça, a palhota uma cubata. E sob os gritos de mestres que enviavam nuvens de trinqueiros aos velames, espraiou-se pelo hemisfério sul, onde hoje é a língua mais falada, chegou ao oriente, instalou-se entre indianos, japoneses, malaios, chineses… E inventou a tal palavra que lhe é tão cara: saudade!

Em África e na América do Sul encontrou futuro: a uma arrebatou milhões de escravos vendidos à outra a preço de ouro. Embarcou-os nos fétidos porões dos mesmos navios, com nomes de santos e cruzes templárias, arrancados aos pinhais do reino. Durante séculos, entre as duas margens de dois continentes, ela baptizou, acorrentou, chicoteou, comprou e vendeu milhões de seres humanos, cujos rostos desesperadamente pasmados lhe trouxeram uma palavra mais, a ela já tão rica de adjetivos: banzo! E esses mesmos humanos, banzados, reproduziram-se na terra da sua clausura a quem os mestres chamavam Brasil. Ali, milhares de escravos alforriaram-se eles mesmos, servindo-se da língua do cativeiro para levantarem quilombos de liberdade na República de Palmares. Tinham compreendido uma terrível verdade hoje tão esquecida: a liberdade conquista-se, o rei, o explorador e o governante nunca a oferecem. A língua dividiu-se então em dois campos: o da emancipação, que trazia urros de bravura e futuro; e o da escravidão que, ignorante dos ventos da história e de olhos fitos no lucro imediato, vociferava ódios à liberdade. E quando Zumbi dos Palmares, o imortal, foi decapitado, e sua cabeça salgada e espetada no poste duma praça pública, os executores acreditavam tê-lo silenciado e vencido o mito da sua imortalidade. Contudo, não se decapita uma língua e mesmo se Zumbi não era imortal, ainda não morreu. Há quem hoje se esqueça dessas lições que viajam nas memórias desta língua tão cheia de mundo.

Ela foi testemunha da crueldade de graves autoridades eclesiásticas que, de mitras nas cabeças e rezas em latim nos beiços diabólicos, pegaram fogo a milhares de fogueiras onde ardiam, em vida, archotes humanos, num ritual de purificação bárbaro. Tudo isso em nome duma religião e dum homem que nada daquilo tinham pedido. Porque matar em nome de Deus, como disse o único prémio Nobel de literatura desta língua que mereceu vários: matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino (**).

A língua portuguesa serviu fielmente, durante séculos, um império que se alastrou pelo mundo como uma vaga, construindo fortalezas e abrindo rotas, colonizando, dividindo e unindo. Contribuiu a pavimentar auto-estradas de água por onde circularam as riquezas que os escravos produziam, inspirando outras, semelhantes, invisíveis todavia mais eficazes, electrónicas, na futura época da híper tecnologia. Como todo o império chega ao fim, e quem contesta se serve da língua que o construiu para o derribar, a língua gritou revoltas, guerrilhas e independências. Quando a vaga, enfim, enrolou bandeiras e recolheu à concha onde nascera, deixara pelo mundo pátrias novas, coloridas de amazônias, gorongozas, namibes, pântanos de mangue, cafezais são-tomenses e ilhas de fogo. E em cada uma das pátrias novas, a língua adaptou-se a climas variados e gentes exóticas: no Brasil conta-se com quantos paus se faz uma canoa; em Moçambique se amanhece a cantar ou chorar; em Angola se consegue ou se desconsegue bué; na Guiné fuma-se uma ordem; em São Tomé tudo vai leve-leve; em Cabo Verde tem morabeza. Nesses novos universos por ela criados, ela canta e dança com harmonias e requebros distintos, desde os fados aos sambas, do kuduro às coladeiras, do gumbe à marrabenta.

Ainda hoje nos perguntamos por que razão a língua portuguesa produz quase todos os sons do mundo. Li num magazine francófono que o ão imita o estoirar das vagas na linha da rebentação, e o ch, sh, (ce son chuintant) simula o chiar da espuma espraiando-se areais acima. Sendo assim, quando falamos português é com o mar nos lábios que o fazemos.

A língua portuguesa criou bolsas de emigrantes em vários países do mundo onde luta para se manter viva. E é por isso que a escrevemos aqui, neste país de frios e gelos, nas vésperas deste curto verão que se anuncia. Porque ela não é uma pátria, como queria o poeta, ela são vastos universos pertencentes a muitas pátrias que partilham um paradoxo difícil de resolver: por que razão uma língua tão antiga, tão espalhada e tão rica, é falada por tanta gente tão pobre?

 

(*) PESSOA, Fernando, Mensagem, 1934.

(**) SARAMAGO, José, Outros Cadernos de Saramago, artigo Deus como problema, publicado pela Fundação José Saramago a 16 de outubro de 2008.

 

Este artigo é também publicado no blogue: O Blogue do Beto Piri.

© Carlos Taveira

Crónica
Quando eu era um pirralho, o dia 10 de junho chamava-se Dia de Camões, de Portugal e da Raça, chama-se hoje Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Para mim, é o dia desta língua que partilhamos, a mesma de quem um poeta se reclamava cidadão: a minha pátria é a língua portuguesa.
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