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rss  Vol. XX - Nº 351         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
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Editorial

Dia da Raça?

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Lembram-se do dia raça? Era o dia de Portugal no tempo do Estado Novo. É assim a linguagem. Evolui, segue as tendências sociais, políticas e até científicas. Naqueles anos, a Raça era a Nação. O Dia da Raça era o dia da Raça Portuguesa. Havia ali algo de bovino, como a raça mertolenga, a retinta ou arouquesa… Mas era assim o vocabulário nacionalista da época, mesmo quando a ciência já tinha provado que só havia uma raça, a humana.*

Depois veio o 25 de Abril e passámos então a celebrar Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a mesma celebração que todos os portugueses e seus descendentes celebram pelo mundo fora neste 10 de junho.

Deve dizer-se que esta celebração do 10 de junho foi inicialmente uma iniciativa da propaganda republicana, ainda no tempo da monarquia, quando foram lançadas em 1880 as comemorações camonianas, com o Dia de Camões, como símbolo do génio português. De início esta comemoração era do âmbito municipal. Foi com o regime de Salazar que esta data foi alargada a nível nacional com o nome de «Dia de Camões, de Portugal e da Raça». A partir de 1963, com as guerras coloniais, o 10 de junho passou a ser uma homenagem às forças armadas, numa exaltação da guerra e do poder colonial.

Em 1978 foi quando o novo regime saído do 25 de abril decidiu converter esta data no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, tal com o conhecemos hoje.

Se o Dia da Raça sempre incomodou muita gente como designação, a verdade é que o facto de o nome de Camões sempre ter estado associado a esta data, deve ser para todos um motivo de regozijo. Na maior parte dos países os heróis nacionais são figuras guerreiras, santos, mártires ou homens de poder, que se impuseram no imaginário nacional desses países. Em Portugal, o facto de os seus homens de estado terem preferido a data da morte de um poeta como data nacional deve ser sublinhado pelo que esse simbolismo representa. Portugal não escolheu nem santo, nem mártir, nem herói. Escolheu um poeta. Isto é deveras significativo para bem representar a alma dum povo. O seu romantismo, a sua poesia, o seu pacifismo.

Já o facto de o novo regime republicano em Portugal ter acrescentado o nome das Comunidades Portuguesas a esta celebração é caso para nos perguntarmos se realmente a diáspora está ali a ser devidamente celebrada. Como dizem os franceses «qui trop embrasse mal étreint».

Na verdade esta celebração cá fora, muitas vezes uma iniciativa consular, outras de iniciativa popular ou particular, raramente consegue arregimentar uma concentração tão importante como acontece por exemplo com os irlandeses que fizeram do São Patrício uma festa nacional e internacional onde quer que haja um irlandês. Uma questão de tradição, de cultura, de religião? É verdade que os santos das igrejas são sempre mais apelativos que os poetas mortais como Camões.

Mas, enfim, temos ao menos uma data que pode unir todos os portugueses interessados em celebrar o tronco comum, a cepa original que continua lá enraizada naquele jardim à beira mar plantado e cujos braços e ramagens se espalharam pelos quatro cantos do mundo. Aqui em Montreal os portugueses e lusodescendentes não são exceção. Tal como noticiámos no último número do LusoPresse, pela pena do nosso colega Jules Nadeau, o 30º Festival Internacional de Montreal que vai ter lugar a partir de sexta-feira, dia 10 até ao dia 12, com artistas, gastronomia e um desfile no domingo, no canto da St-Urbain e Rachel, vai ser a forma dos lusomontrealenses festejarem esta data, com o devido orgulho pelas suas origens.

* «Em todos os sistemas genéticos humanos conhecidos, os repertórios de genes são os mesmos.», André Langaney, geneticista.

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Lembram-se do dia raça? Era o dia de Portugal no tempo do Estado Novo. É assim a linguagem. Evolui, segue as tendências sociais, políticas e até científicas. Naqueles anos, a Raça era a Nação. O Dia da Raça era o dia da Raça Portuguesa. Havia ali algo de bovino, como a raça mertolenga, a retinta ou arouquesa… Mas era assim o vocabulário nacionalista da época, mesmo quando a ciência já tinha provado que só havia uma raça, a humana.*
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