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rss  Vol. XX - Nº 350         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2020
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Porque se morre mais cedo nos Açores?

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

A notícia que foi manchete esta semana em toda a comunicação social dos Açores deixou muita gente preocupada e com uma interrogação natural na mente de cada um: porque se morre mais cedo nos Açores?

A resposta que obtive de vários profissionais da saúde foi unânime e já tinha sido respondida, em grande parte, há poucas semanas, pelo Presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, Manuel Luís Capelas, quando disse que muitos doentes neste país «acabam por morrer sem ter acesso aos cuidados mais adequados».

E deu o exemplo dos cuidados paliativos, em que existem apenas 359 camas em Portugal para cerca de 80 mil doentes que precisam destes cuidados, ou seja, um terço da metade do que seria desejável.

E nos Açores?

Bem, a situação é muito mais grave e isto responde um pouco à preocupante estatística que o INE publicou esta semana (nos Açores a idade média ao óbito é de 74,7 anos, quando no total do país é de 77,6 anos).

O Presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos deu a notícia: «há regiões no país, como os Açores, onde não existe nenhuma cama de cuidados paliativos»!

Esta declaração trouxe-me à memória uma célebre conferência de imprensa em conjunto dos Secretários Regionais da Saúde e da Solidariedade Social, em janeiro do ano passado, em que anunciaram «as linhas mestras para o funcionamento da Rede Regional de Cuidados Continuados Integrados (RRCCI) que abrangerá este ano todas as ilhas dos Açores e funcionará todos os dias do ano».

O compromisso rezava assim: «A rede passará a estar presente em todas as ilhas, de Santa Maria ao Corvo, terá 15 unidades de internamento de cuidados continuados, num total de 210 camas, e três unidades de internamento hospitalar, com mais 20 camas para internamento em cuidados paliativos (...). Serão ainda constituídas 17 equipas de apoio domiciliário integrado, a funcionar em todas as ilhas, todos os dias do ano, e 17 equipas comunitárias de suporte em cuidados paliativos, que também funcionarão todos os dias do ano".

Onde é que elas estão?

A coisa é ainda mais grave.

Vai fazer agora em junho oito anos que foi criada, por Despacho Regional, a Rede Regional de Cuidados Continuados, que seria assegurada por unidades de internamento, equipas hospitalares e equipas domiciliárias. Nestas três tipologias estava prevista a prestação de Cuidados Paliativos através de unidades de cuidados paliativos, equipas hospitalares de suporte em cuidados paliativos e equipas comunitárias de suporte em cuidados paliativos.

As unidades de internamento nas unidades de cuidados paliativos estavam previstas para os três hospitais da região.

Onde é que elas estão?

Quanto às equipas comunitárias de suporte em cuidados paliativos, que deviam estar em todas as ilhas, dizem-me que estão resumidas à »continuação" de uma equipa da Terceira que já trabalhava há algum tempo e uma outra que surgiu na Povoação.

Onde estão as outras?

Há cerca de um ano dois profissionais alertaram para esta necessidade nos Açores.

Sandra Martins Pereira (enfermeira, licenciada em Ciências da Educação, Mestre e Doutora em Bioética, Pós-doutoramento em Investigação em Cuidados Paliativos e Cocoordenadora do Grupo de Trabalho sobre Formação em Cuidados Paliativos em Enfermagem da European Association for Palliative Care) e Pablo Hernández Marrero (enfermeiro, Mestre em Saúde Pública, Mestre e Doutor em Investigação em Serviços de Saúde, especialidade de Organização e Gestão de Serviços de Saúde, Professor na Universidade de Las Palmas de Gran Canaria e Membro do Grupo de Trabalho sobre Formação em Cuidados Paliativos em Enfermagem da European Association for Palliative Care), escreviam um documento de alerta sobre a implementação de cuidados paliativos nos Açores, onde se afirmava o seguinte:

»Estima-se que cerca de 60% das pessoas falecidas em determinada região, por ano, teriam necessitado, em algum momento, de cuidados paliativos? esta percentagem aumenta para 80% nas situações de doença oncológica. Mais, é recomendado que, por cada 100 000 habitantes, deveria haver 10 camas de cuidados paliativos (nível especializado), em termos de assistência domiciliária deveria haver, em média, 11,5 equipas, e todos os hospitais deveriam ter uma equipa intra-hospitalar de suporte".

Com base nestas estimativas e transpondo para a nossa realidade demográfica, os dois profissionais concluíram que »haveria, nos Açores e em 2011, uma necessidade de, pelo menos, 24 camas de cuidados paliativos. Acresce ainda que, em 2012, 76,1% das pessoas que morrem na Região Autónoma dos Açores tiveram, como causa de morte, uma situação passível de causar necessidades múltiplas e complexas, suscetíveis de beneficiar de cuidados paliativos (i.e., 32,7% dos óbitos foram devidos a doenças do aparelho circulatório, 25,2% por tumores malignos, 13,4% por doenças do aparelho respiratório, e 4,8% por diabetes)".

Pelos vistos, mesmo com tantos alertas, ninguém quis saber.

Este é apenas um dos exemplos do descarrilamento em que entrou a Saúde na nossa região, a que se devem juntar os outros já conhecidos, como o permanente aumento, de ano para ano, das listas de espera para cirurgias, a crónica falta de médicos de família e do cada vez mais difícil acesso aos tratamentos, apesar de tantas promessas contrárias.

Tudo isto tinha que dar para o torto e o resultado está aí, escarrapachado no Instituto Nacional de Estatística: continuaremos a bater a bota mais cedo do que os outros cidadãos deste país, porque a Saúde nesta região foi tratada com as botas...

Crónica
A notícia que foi manchete esta semana em toda a comunicação social dos Açores deixou muita gente preocupada e com uma interrogação natural na mente de cada um: porque se morre mais cedo nos Açores?
Porque se morre mais cedo nos Acores.doc
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