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rss  Vol. XX - Nº 349         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 25 de Fevereiro de 2020
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O país da mentira

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Conhecem o conto «Alice no outro lado do espelho»?

É a continuação de «Alice no país das maravilhas», celebrizado desde 1871, da autoria de Charles Dogson, que faz sonhar gerações de crianças e adultos há mais de um século.

Quando Alice segue o Coelho Branco e cai no buraco do país das maravilhas, encontra os personagens mais incríveis e enigmáticos da história, enfrentando a «chico-esperteza» de muitos deles, vivendo num mundo, do outro lado do espelho, completamente surrealista, rodeado de mentiras e exaltações de egos que julgávamos só possível no reino do fantástico.

Ora, em pleno século XXI, mesmo aqui neste cantinho do Atlântico, não é preciso cair no buraco ficcionista para encontrarmos um país de gente semelhante.

É verdadeiramente impressionante assistir ao surto de amnésia que, repentinamente, assolou uma série de cabeças coroadas deste país.

Da política às finanças, passando pelo mundo empresarial, temos assistido de tudo e o padrão é sempre o mesmo: «Não me lembro»!

Como é que o seu nome aparece nos «Papéis do Panamá» e em que negócios esteve envolvido?

– «Não me lembro»!

Mas o seu nome e a sua assinatura figuram lá, na abertura de várias empresas offshore...

– «Não me lembro, deve ser uma infâmia».

A Comissão de Inquérito ao Banif é outro desfile de um guião repetido, que já vinha do caso BES.

Ninguém se lembra de nada, ninguém faz ideia como se chegou até aqui, ninguém se lembra de quem negociou com quem e quem deu ordens a quem, enfim, uma autêntica manifestação de enfermidade degenerativa cerebral, fazendo lembrar a Alice que se esqueceu do mundo real.

O pior de tudo é que estamos perante gente que administra e governa o setor financeiro do país, ganhando salários e dividendos à razão inversa da memória.

Como no país da Alice, toda a gente finge que acredita naquilo que diz e naquilo que acreditamos.

E quando acordamos desta aventura e olhamos para o lado real do espelho, é que tomamos consciência do país em que vivemos.

O país da mentira.

****

VENDO NAVIOS – Finalmente o Governo dos Açores, a seis meses de terminar o mandato, descobriu que a região precisa de exportar mais.

Aquilo para que os empresários vêm alertando há tanto tempo, parece ter chegado ao mundo real dos nossos governantes.

Se queremos criar riqueza temos que apostar nas mais valias dos nossos produtos e levá-los para outros mercados.

E nisto temos falhado redondamente.

Nos últimos anos as empresas portuguesas exportavam, em média, mais de 20% do seu volume de negócio.

No entanto, nem todas vendem a mesma proporção ao exterior.

Basta consultar os dados do Instituto Nacional de Estatística para constatar que o Norte do país é mais ativo, com destaque para o Ave e o Alto Minho.

Nessas duas regiões, as empresas exportam em média mais de 35% do seu volume de negócio.

Do lado oposto surgem as regiões com um ímpeto exportador muito inferior, como os Açores, a Madeira, o Algarve e o Douro, onde as exportações têm um peso pouco acima dos 5% do volume de negócio das empresas.

O caso dos Açores é mesmo confrangedor, porquanto, também aqui, atingimos os piores indicadores nacionais.

De acordo com o INE, também diminuímos na «intensidade tecnológica» das exportações, onde somos tão maus como os algarvios.

O nível de incorporação tecnológica nos produtos finais e, nomeadamente, nos produtos exportados «constitui um elemento de análise relevante no âmbito da competitividade internacional», tendo um estudo do INE recorrido à classificação por bens de alta tecnologia para aferir o conteúdo tecnológico das exportações das regiões portuguesas.

E aí, segundo ainda o INE, «a diminuição da proporção de exportações de produtos de alta tecnologia no período considerado (2012 a 2014) verificou-se em todas as regiões portuguesas com exceção da Região Autónoma dos Açores e do Algarve. No período em análise, o Norte foi a região onde se verificou a diminuição mais expressiva neste indicador, condicionando fortemente a evolução nacional».

Face a esta triste realidade, os Açores deveriam estar, há muito tempo, à procura das causas deste desempenho e criando as soluções que se impõem.

Não basta dizer que é preciso aumentar as exportações.

É preciso é criar os instrumentos que favoreçam o setor.

E aqui o governo esteve mal ao recusar o estudo sobre o modelo de transportes marítimos, porque este que existe é um dos fatores do estrangulamento para as nossas exportações, para não falar do tão propalado avião de carga.

Neste aspeto, a Madeira já nos ultrapassou.

Por cá, teimamos em ver os navios a passar...

Crónica
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