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rss  Vol. XX - Nº 349         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 07 de Abril de 2020
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«Milagres» da geringonça

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

A 17 de maio de 2004 os Açores assistiam a uma das mais fortes polémicas políticas, a propósito da visita do então primeiro-ministro Durão Barroso a Ponta Delgada.

Tudo porque, numa sexta-feira à noite, durante um programa televisivo em direto do Campo de S. Francisco, o então Provedor da Irmandade do Senhor Santo Cristo, eng.º Costa Santos, tinha anunciado que convidara Durão Barroso a integrar a procissão de domingo, com a justificação de que um Presidente da República já teria feito o mesmo, para além de vários secretários de estado, participando no «cortejo cívico, separado da vertente religiosa da procissão».

As reações não se fizeram esperar e os primeiros protestos partiram de dirigentes socialistas, de cá e de lá, acusando o eng.º Costa Santos de «extravasar» as suas funções, porque era «militante do PSD», e o primeiro-ministro de «aproveitamento político-partidário», porque estávamos a quase um mês das eleições europeias e a cerca de cinco meses das regionais.

Durão Barroso respondeu à chegada que se tratava de um gesto de «respeito» pelos Açores e suas gentes, mostrando-se mesmo «surpreendido que tenha sido o primeiro chefe de governo a estar presente».

Passados doze anos, o filme repete-se, desta vez ao contrário, com a participação do primeiro-ministro António Costa na procissão de domingo passado.

De novo muitos protestos, desta vez dos setores mais à direita, pelo facto de António Costa ser agnóstico, de estarmos a cinco meses de eleições regionais e da sua participação ter sido resolvida, ao que parece, com um telefonema de Vasco Cordeiro para o Reitor do Santuário.

Até Vital Moreira, que chegou a encabeçar as listas do PS às europeias, também se insurgiu contra a participação de Costa na procissão, comentando que «não há «respeito institucional» que justifique o desrespeito inconstitucional da laicidade do Estado».

Os dois momentos históricos – e polémicos – são interessantes para alimentar as motivações de cada devoto, mas do que resulta de todo este fundamentalismo à volta das duas situações é o benefício que os Açores e os açorianos podem retirar destas visitas soberanas.

Como diz – e muito bem – o insuspeito Dr. Carlos Melo Bento, é melhor termos do nosso lado «o nosso melhor amigo natural que é o povo português», do que afugentá-los.

E não há dúvidas de que, pelo menos desta vez, assistimos a momentos de «milagrosa» conversão quando António Costa confessou-se «autonomista militante» e se deixou fotografar no Café Peter, com um copo de gin, a brindar com os nossos governantes regionais, fazendo lembrar as suas palavras sábias de semanas antes, segundo as quais «nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do governo»...

Não interessa se António Costa está a fazer política propagandística ao estilo de Sócrates, numa versão mais pobrinha.

Interessa é que a geringonça vá funcionando a favor dos Açores, com a mesma pedalada que o primeiro-ministro demonstrou no passeio de bicicleta, na ilha Graciosa, ao lado de Vasco Cordeiro.

O resto é uma questão de fé.

Como disse há doze anos um confessado ateu, «não há grande mal na presença de Durão Barroso na procissão do Senhor Santo Cristo. Grave seria se o Senhor Santo Cristo participasse no Conselho de Ministros»...

Crónica
A 17 de maio de 2004 os Açores assistiam a uma das mais fortes polémicas políticas, a propósito da visita do então primeiro-ministro Durão Barroso a Ponta Delgada.
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