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rss  Vol. XX - Nº 349         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020
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FULANO, SICRANO E BELTRANO

Onde se fala da diferença entre corruptores, corruptos e corrompidos

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© Carlos Taveira

Artigo publicado simultaneamente no meu blogue: «O Blogue do Beto Piri».

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Conheces o site internet Ciberdúvidas da Língua Portuguesa? Fui lá para encontrar resposta a uma questão difícil que me tem atazanado o espírito: aquele indivíduo «está corrompido» ou «está corrupto»? Se bem assimilei a explicação, diz-se que alguém «está corrompido» e que um outro da mesma súcia «é igualmente um corrupto». E como ninguém se corrompe sozinho, deve dizer-se, quando se fala do agente externo que os corrompeu: «Fulano que tinha corrompido Sicrano e Beltrano». O que quer dizer que se emprega corrupto como adjetivo ou substantivo e corrompido como particípio passado. Passado é uma maneira de falar porque, segundo as últimas notícias, os tais substantivos, adjetivos e particípios estão muito presentes e, dizem os pessimistas, com futuro garantido e promissor.

Fulano, Sicrano e Beltrano, citados acima, são variáveis. Variável, em terminologia informática, é um objeto que representa um valor mutante. Exemplo: a variável Fulano contém um certo nome neste preciso instante e um outro no momento seguinte. Quando fazes a pergunta «então quem é o Fulano que agora se corrompeu?», o objeto Fulano possui agora um nome diferente do que continha há um segundo atrás. Felizmente os computadores tratam a informação a uma incrível velocidade senão, com a quantidade de nomes que essas variáveis podem tomar, ainda se encravava. Para simplificar, podemos afirmar, sem receio de nos enganarmos, que Fulano, Beltrano, Sicrano quando possuem os valores corruptor, corrompido e corrupto, são tudo vocábulos associados.

Já agora que falamos em associações, recordei-me dum jogo de adolescência, do tempo em que espinhas e arrogância nos esburacavam o rosto e nos achávamos inteligentíssimos. É assim: pede-se a um amigo para fechar os olhos e esvaziar a mente antes de pronunciarmos uma palavra-estímulo. Em seguida o sujeito da experiência dita os vocábulos que inconscientemente lhe associou. Quando alguém diz, «porco», as palavras que me vêm ao espírito são: chouriço, morcela, linguiça, toucinho, feijoada. Olha outro exemplo que se passou comigo. Fechei os olhos, esvaziei o mental e a palavra-estímulo que recebi foi «Político». Espontaneamente saltaram-me aos lábios os seguintes substantivos: incorruptível, honesto, fiável, responsável, humilde, simples, transparente... No caso de repetires esta brincadeira com alguém e pronunciares a palavra «corrupto», o sujeito da tua experiência pensará provavelmente num compadre velho muito dado ao carrascão, nicotina, marijuana e jogo, e que abandonou este vale de lágrimas na bancarrota, de olhos amarelos, meia dúzia de úlceras e uma cirrose no fígado. Quando eu era menino, era destes infelizes que se dizia: «está todo corrompidinho, coitadinho». Como os tempos mudaram!

Segundo a companheira do meu amigo vitriólico e ateu, o Rebenta Balões, alcoolismo, droga, jogo e ganas de dinheiro é tudo farinha do mesmo saco: do saco das dependências! Por outras palavras: coisas do foro da saúde mental. Esta admirável mulher tem profissão útil: entra na cabeça das vítimas de violências abomináveis, tentando mostrar-lhes como desatar os nós que as sufocam. Foi ela quem me apresentou o triângulo da vitimização que tolhe as pessoas abusadas: o perseguidor (que é o mau); o perseguido (que é ela, a vítima); o salvador (quem a vem socorrer). Libertá-la dessa prisão de três muros, torná-la autónoma, é um dos desafios do terapeuta.

Rebenta Balões, eterno destilador de sarcasmos, aproveitou logo para meter a colher:

– Até há povos que se encontram prisioneiros da mesma situação: cabalas internacionais de perseguidores oprimem as vítimas que esperam pela vinda de quem os há-de resgatar e salvar. E espera aí, não te vás embora, olha outro triângulo muito giro: corruptores, corruptos e paraísos fiscais.

– Não há vítimas nem perseguidores no teu triângulo! – Protestei.

– Mas há um salvador: o paraíso fiscal. – Riu-se, escarninho – Repara que é triângulo positivo, em cada ângulo há um corno de abundância. Era ali que devíamos estar: à sombra dos coqueiros, estendidos nas areias doiradas dum paraíso fiscal, cocktail nas unhas, untadinhos de creme de bronzear... Em vez disso andamos feitos parvos a tiritar de frio neste país de gelos e a trabalhar para pagar impostos, a meio de gente que refila, rezinga e ronca mas que não faz nada, à espera que a Comissão Charbonneau e a UPAC resolvam o assunto.

Calei-me para não lhe espicaçar o mau humor: o animal, quando contrariado, torna-se cáustico como um desentupidor de canalizações. Mas olha que o bicho não deixava de ter uma certa razão. Nos dias seguintes dei comigo a sonhar acordado com praias, palmeiras, cocktails, biquínis sobre corpos bronzeados, creme solar… E com um jacto privado para lá chegar. Imaginei serviçais vestidos de libré, sorrisos e salamaleques, servindo-me um Kobe streap steak de 12 onças frente ao mar oceano, regado com um tinto Barca Velha de 1999, da Casa Ferreirinha, nobre filho das castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinto Cão… Frutas tropicais... Sultan's Golden Cake em sobremesa com um Dow’s Vintage Porto 2011 para me acariciar as papilas gustativas... Enfim uma bica assanhada, vibrando de cafeína, e um cálice de aguardente velhíssima Dom Teodósio para digerir tudo isto.

Passou-se então uma coisa curiosa: eu, que estava já de caninos afiados para me lançar ao teclado e atacar o triângulo da corrupção, denunciar injustiças fiscais, acicatar o teu ódio contra políticos venais, fazer pilhérias sarcásticas... Nada! Em vez disso, dei comigo a reconsiderar os meus sentimentos agressivos em relação a quem se deixa corromper. De facto, quem sou eu para os julgar? Bem vistas as coisas, somos todos humanos, sujeitos a tentações. Ademais, tu e eu sabemos como são manhosos, e difíceis de perceber, os embustes de Belzebu! Recordei-me também, humildemente, da eterna verdade pontificada por um grande sábio: «Quem nunca pecou que jogue a primeira pedra.»

Confesso-te, e isto fica só entre nós, que a corrupção me tentou. Todavia, e depois de sondar essas águas torvas mas doces, foi com a morte na alma que constatei o total desinteresse dos corruptores e me rendi à triste evidência que não reúno as condições objetivas para os atrair! Não possuo nenhuma influência na atribuição de contratos de construção, na venda de equipamento ao exército, na escolha dum fornecedor farmacêutico... Por outras palavras, não sou corruptível (a não confundir com incorruptível), consequentemente não interesso eventuais corruptores.

Fiquei a matutar no assunto, a considerar o álcool, grande corruptor da humanidade e ao qual devemos tantas mortes e tragédias. Mas que é legal e que contribui chorudamente aos cofres de estado, tal como o tabaco que se vende livremente por todo o mundo, mesmo nas teocracias. Isto, para não falar dos casinos onde se arruínam alegremente tantos viciados e onde se suicidam alguns. Por associação de ideias, veio-me à cabeça aquele compadre velho todo corrompidinho, coitadinho, a abarrotar de maleitas físicas e mentais causadas por substâncias legais: tabaco, álcool, jogo... Haveria de ficar feliz sabendo que a marijuana vai ser legalizada e que existem salas de injeção assistida de drogas (as piqueries dos francófonos e shooting houses dos anglófonos). E foi ao levantar um cálice de Duas Quintas à sua memória que uma ideia pegou lume ao meu pobre cérebro fatigado, subiu ao céu escuro como um foguete onde explodiu e tudo iluminou num clarão de génio.

Legalize-se a corrupção!

Excitadíssimo, enchi uma segunda taça de Duas Quintas e compilei as vantagens duma tal legalização.

Cobrar-se-iam impostos pesados aos corruptores e corruptos sobre as transacções antiéticas.

Diminuir-se-iam as despesas do aparelho do estado destinadas a reprimir a corrupção (polícia, aparelho judicial, comissões Charbonneau, UPAC, etc.).

Nasceriam novos ramos da psicologia aplicada e cursos superiores: as universidades formariam corruptólogos com mestrados e doutoramentos.

Abrir-se-iam clínicas com profissionais especializados em terapias da corrupção.

À semelhança dos Alcoólicos Anónimos e Jogadores Anónimos, dar-se-ia à luz uma nova irmandade: Corruptos Anónimos.

Os governos dotar-se-iam de uma nova entidade: A Agência da Corrupção (ou Ministério em países onde o número de transações imorais o justificasse).

E por que não sonhar com Centros Estatais de Corrupção, onde corruptores devidamente homologados pela Agência (ou Ministério) proporiam pacotes interessantes a eventuais corruptíveis?

Um mundo novo, prenhe de possibilidades!

Para finalizar, e aureolar este artigo com um bafo de erudição e sabedoria, transcrevo uma frase de Confúcio: «Os vícios vêm como passageiros, visitam-nos como hóspedes e ficam como amos».

E já que assim é, por que não dar foros de cidadania a este amo que entre nós se hospedou?

Crónica
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