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rss  Vol. XX - Nº 348         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
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Uma Ilha na Corrida do Ouro, a verdade histórica

Por Lélia Pereira Nunes

Neste inquieto ano de 2016, o mês de abril começa quente na temperatura e no ânimo popular, espelhando um crescente destempero nacional a tomar conta dos brasileiros. «Nunca antes na história deste país» se desviou tanto dinheiro público e muito menos se assistiu a tantos desvarios na administração do Brasil. Uma mistura de sentimentos de intranquilidade, perplexidade, a indignação abunda e se manifesta por toda parte e de todas as maneiras numa reação à impunidade. Esse funesto março que fechou o verão revelou a polarização de opiniões e atitudes, com força viral, rompendo limites inaceitáveis da convivência social para ganhar às ruas e ser voz coletiva de um Brasil afrontado, mas nunca sem esperança. Assim, resguardo-me, agora, de emitir opinião sobre o caos político, econômico e social que sufoca e divide o povo brasileiro, ciente que ninguém supera a nossa marca de levantar, sacudir a poeira, dar a volta por cima. Sigo, vestindo o verde da esperança, mesmo sabendo-a numa corda bamba e o vermelho sangue, encarnado, do Divino e do coração.

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Na verdade, o tema deste artigo está distante no tempo e no espaço. Reflito sobre a «veracidade» da verdade histórica firmada na memória coletiva e reconhecida por todas as gerações. Muitas vezes, ela se perde nas brumas do tempo, se esconde entre folhas amareladas, comidas de traças, em esquecidas pastas dos arquivos públicos ou, simplesmente, é omitida, escamoteada, silenciada, apagada.

A data da fundação de Florianópolis suscitou tanta controvérsia que, por muitas décadas, comemorava-se a autonomia municipal. Afinal, reconhece-se a data real e Florianópolis celebrou seus 343 anos de fundação. Já não era sem tempo! O marco inicial é o ano de 1673, quando Francisco Dias Velho lançou os fundamentos da póvoa, na Ilha de Santa Catarina. A cidade acerta o passo com a sua verdade histórica, apagando um hiato de 53 anos. Por outro lado, celebramos o aniversário de elevação à Vila e, como tal, se estabeleceu o poder municipal. Assim sendo, continua valendo o aniversário de 290 anos de predicamento de Vila, do ato instituído a 23 de março de 1726. Entretanto, continuamos sem saber em que «dia e mês» Florianópolis foi fundada. A controvérsia persiste...

Alguns fatos históricos perdidos no limbo do tempo dariam um ótimo enredo para um romance ou até para uma Escola de Samba no carnaval. É o caso da presença de norte-americanos da Costa Leste na Ilha de Santa Catarina, em meados do século XIX, chegados às centenas na pacata Vila de Nossa Senhora do Desterro e que iam ao encontro da fortuna na Califórnia. Trata-se, da grande aventura da corrida de ouro de 1848-1856 com a Ilha de Santa Catarina no meio do caminho. Uma história esquecida pela memória coletiva ou não revelada pelos nossos historiadores e agora, deliciosamente, contada pela jornalista Marli Cristina Scomazzon e Jeff Franco em A Caminho do Ouro – Norte-americanos na Ilha de Santa Catarina (Ed. Insular, 2015). O resultado é o precioso resgate de um capítulo da história de Santa Catarina que de forma inexplicável encontrava-se num «buraco negro».

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Confesso que ao conhecer a incrível história desvendada pelos autores, Maria Cristina e Jeff, fiquei atônita, corroída pela curiosidade, aturdida. Maravilhada, talvez seja a palavra certa para definir a sensação de euforia que me abraçou. Imaginar que, há 166 anos, a corrida do ouro passou por aqui, em frente a casa, já que atravessar o país, da Costa Leste ao Oeste, era impensável e não havia ainda o canal do Panamá. A solução era descer o Atlântico Sul, atracar na paradisíaca Ilha de Santa Catarina com pouco mais de 6000 habitantes, a maioria de origem açoriana e alcançar o Pacífico contornando o Cabo Horn. Qualidades já conhecidas dos viajantes e baleeiros norte-americanos que frequentavam o litoral Sul. Nesta louca aventura rumo ao El Dorado passaram pela Ilha cerca de 700 navios por ano. Um espanto! Só em 1849 «saíram do porto de Nova York 214 navios; de Boston, 151; de New Bedford, 42; de Baltimore, 38; de New Orleans, 32; da Philadelphia, 31 e outros 250 de portos menores, todos com destino à Califórnia» (p.26). Navios carregados de tripulantes tomados pela febre de ouro que, após meses de sofrimentos, confinados em navios acanhados, espalhavam-se por Desterro, sedentos de tudo, numa verdadeira invasão à Ilha, atraídos por sua beleza natural e ávidos por diversão em terra firme.

As viagens pelo Cabo Horn foram fartamente documentadas e ilustradas em diários de bordo e noticiadas nos jornais da época. Valiosos registros em cartas, crônicas, fragmentos de diários e centenas dessas narrativas já estão publicadas em livro, como bem esclarecem os autores na farta bibliografia citada e disponibilizada. Narrativas de um preciosismo ímpar pintam aquarelas da paisagem e cinzelam filigranas no descrever a vida em Desterro marcada por suas idiossincrasias locais.

Histórias de marinheiros deixados para trás por doença ou porque se apaixonaram por mulheres da Ilha, largaram de seus sonhos na rica Califórnia e se deixaram ficar por cá, enredados na teia da paixão e afortunados por rica prole, tal qual ocorreu com o jovem Thom McElereth, conta o Capitão Henry Green no seu diário de bordo.

Das poucas mulheres que se aventuraram na corrida do ouro encontra-se a nova-iorquina Elisa Woodson Burhans Farnham. Desejosa em atender à demanda feminina, contratou o barco Angelique e partiu para Califórnia com dois filhos e um grupo de mulheres «casadoiras», fazendo escala na Ilha de Santa Catarina por nove prazerosos dias.

Surpreendeu-me a memorável descrição do capelão da Marinha americana Charles Samuel Stewart sobre a Festa do Divino Espírito Santo em Desterro de 1852. A mais completa e deliciosa narrativa sobre os festejos em louvor ao Espírito Santo a contar dos nove dias de novena que antecedem à Pentecoste até a coroação do Menino-Imperador ricamente trajado, a Menina-Imperatriz, a Irmandade, o cortejo imperial, os mordomos, os foliões com sua cantoria gritada, e a emblemática bandeira de seda vermelha, com uma pomba bordada e fitas coloridas esvoaçantes pendentes de seu mastro. Sem deixar de lado, a alegria dos folguedos populares, as comilanças, os fogos de artifício e os leilões. Uma tradição cultural açoriana que há 240 anos se repete com igual devoção e louvor.

Não era fácil a convivência dos ilhéus com a turba de americanos excitados à porta de casa, por mais hospitaleiros que fossem ou por mais lucros que podiam usufruir com esta ruidosa presença. Ânimos acirrados e ocorrências desconfortáveis, beligerantes até às raias da violência e da criminalidade pipocavam entre marinheiros e os locais. Contudo, é inegável que «os Ianques» deram sua contribuição à sociedade catarinense, como a vinda de profissionais liberais e com a atuação de alguns Cônsules em 50 anos de Desterro. Os autores, no capítulo dedicado à memória de Desterro sobre a invasão, destacam o papel da imprensa brasileira ao noticiar e lidar com este fenômeno de intensa mobilidade humana, motivado pelo «estopim no imaginário mundial da corrida ao ouro da Califórnia» (p.87). Havia um fadário tecido sobre a dourada costa do Pacífico. Do real ao fantasioso, o fato é que a febre do ouro não seduziu os catarinenses, talvez por cautela, ou por estarem muito assustados com as inquietantes reportagens e notas divulgadas na imprensa e com a boataria medonha que corria solta por Santa Catarina.

Na última parte, o livro traz a relação dos nomes e a atuação dos que responderam pelo Consulado norte-americano na Vila de Desterro, segue uma nominata de todos os navios que passaram por Desterro entre 1848 e 1856.

A caminho do Ouro – Norte-americanos na Ilha de Santa Catarina, de autoria de Marli Cristina Scomazzon e Jeff Franco apresenta uma escrita investigativa competente de quem bebeu na fonte e sabe da pureza d»água. Ao mergulhar na sua leitura voltei à antiga Desterro e fui argonauta de sonhos, terminando por lembrar do fascinante e terrível No Coração do Mar (In the Heart of the Sea, Estados Unidos, 2015), filme dirigido por Ron Howard que reconstitui o naufrágio do baleeiro Essex, em 1820. Episódio que inspirou o grande clássico da literatura mundial – Moby Dick de Hermann Melville, em 1851, uma história grandiosa na realidade e na ficção.

Finalmente, A caminho do Ouro – Norte-americanos na Ilha de Santa Catarina, de Marli Cristina Scomazzon e Jeff Franco é a verdade histórica revelada. Nada tem de ficção. É muito real! É um capítulo que faltava na história de Santa Catarina. Haverá mais?

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Crónica
Neste inquieto ano de 2016, o mês de abril começa quente na temperatura e no ânimo popular, espelhando um crescente destempero nacional a tomar conta dos brasileiros. «Nunca antes na história deste país» se desviou tanto dinheiro público e muito menos se assistiu a tantos desvarios na administração do Brasil. Uma mistura de sentimentos de intranquilidade, perplexidade, a indignação abunda e se manifesta por toda parte e de todas as maneiras numa reação à impunidade. Esse funesto março que fechou o verão revelou a polarização de opiniões e atitudes, com força viral, rompendo limites inaceitáveis da convivência social para ganhar às ruas e ser voz coletiva de um Brasil afrontado, mas nunca sem esperança. Assim, resguardo-me, agora, de emitir opinião sobre o caos político, econômico e social que sufoca e divide o povo brasileiro, ciente que ninguém supera a nossa marca de levantar, sacudir a poeira, dar a volta por cima. Sigo, vestindo o verde da esperança, mesmo sabendo-a numa corda bamba e o vermelho sangue, encarnado, do Divino e do coração.
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