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rss  Vol. XX - Nº 348         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
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RECORDES VÁRIOS

Onde se fala dum nevão, de dívidas, impostos, e se propõe remédio criativo

© Carlos Taveira.

Este artigo é publicado simultaneamente no meu blogue: «O Blog do Beto Piri» blogdobetopiri.blogspot.ca

Sabes o que é precipitação atmosférica não sabes? Lá no canto tropical onde nasci era em forma de aguaceiros durante a estação das chuvas. Aqui, neste país de neves, é sob todas as formas possíveis. No calor são chuvadas e granizos, no frio é chuva, neve e uma coisa abominável a que os francófonos chamam verglas, os anglófonos freezing rain e os lusófonos simplesmente chuva congelada. Quanto aos ameríndios não faço ideia, mas sei que as estações deles não coincidem com as que foram impostas pela Europa. Os Atikamekw, por exemplo, tinham seis. O degelo (Sikon) era coisa distinta da primavera (Miroskamin).  E estou de acordo com eles, já cá estavam quando, há mais de doze séculos, os primeiros vikings encalharam um dracar nas praias da Terra Nova.

Mas hoje não é de vikings nem de ameríndios que te falo. Hoje é de recordes...

Acontece que por estas bandas de Otava e Gatineau andamos impantes de orgulho! A 16 de fevereiro deste inverno batemos um recorde importante: há mais de cem anos que não caía tanta neve num só dia. Só visto! O nevão foi tamanho que um manda-chuva dos funcionários federais os deixou sair ao meio-dia, não fosse a carga de neve impedi-los de chegar atempadamente a casa. Olha, é bem feito para eles, não viram um tipo esquiar no passeio frente ao Parlamento, nem sequer outro espetáculo inusitado: um jovem (tão atlético e ágil que até me deu raiva) de pé numa prancha de neve a escorregar em plena rua Wellington, rebocado por um cabo preso às traseiras duma camioneta. Atrás dele, de câmara fotográfica em riste, corria uma adolescente bonitinha com os cabelos loiros a transbordarem do gorro de lã grossa. Veio-me logo um reflexo de macho latino e disse cá para os meus botões que o surfista andava ao corrico às garinas. Sabes o que é a pesca ao corrico, não sabes? É com a linha lançada à ré dum barco em andamento onde, à laia de isco, cintila uma amostra brilhante, em forma de peixe. Foi isso que pensei: que o jovem louco andava à pesca às namoradas. E que já fisgara uma!

Havia tanta neve que seria de esperar que os funcionários federais fossem isentos de trabalho no dia seguinte, coisa que, infelizmente para eles, não aconteceu: as auto-estradas e estradas principais estavam limpas e os pneus mordiam o asfalto com segurança. Olha como os humanos são capazes de resolver um problema bicudo quando arregaçam as mangas, enchem as chávenas de café, penduram mapas nas paredes e se põem a fazer brainstorms à volta duma mesa! Até parecia milagre mas não foi. Ao fio dos anos foram concebidos veículos poderosos como tanques de guerra, equipados com lâminas em vez de canhões. E outros que chupam a neve e a atiram para camiões. Aperfeiçoou-se também uma espécie de homens e mulheres que enfrentam ventos polares sem frio nos olhos e que atacam os montes de neve, permitindo aos carros dos cidadãos rolar pelas estradas. Não foi milagre, mas quanto a mim foi um recorde de remoção de neve.

Por falar em recordes... Olha outros já batidos ou previstos, que não têm grande coisa a ver com a neve mas que podem causar calafrios:

1% da população mundial controla metade das riquezas do planeta. A estes, pertence seguramente uma parte dos credores da dívida mundial. 

Essa mesma dívida mundial cifrava-se, no momento em que fiz um clique no contador, em $58,405,992,221,634 (se o fores consultar vais ver que o recorde já foi batido).

Nunca os particulares pagaram tantos impostos nem as grandes multinacionais a eles (impostos) tanto fugiram.

Nunca os paraísos fiscais foram tão solicitados (as empresas canadianas neles esconderiam uns 200 bilhões de dólares).

Nunca se fez tanto dinheiro no mundo. O Brasil, por exemplo, está em boa posição para bater o recorde do maior exportador mundial de alimentos.

Nunca se produziu tanto género alimentício e nunca houve mais de 800 milhões de pessoas na pobreza, a passar fome. O Brasil, por exemplo, mesmo se o Lula conseguiu baixar de 82% a fome, ainda tem 7 milhões de pessoas que não comem como deve ser. 

Somos uma espécie que adora recordes, não achas? Temos o desporto na massa do sangue. Mas atenção, não fiques a pensar que o tal 1% de ricos me incomoda, que sou um esquerdista de garras afiadas prontas a cravarem-se no bolso deles. Não senhor! Pelo contrário, até acalento a esperança de fazer parte desse clube restrito... Dessa nata! E não estou sozinho nesta esperança, pois não? Se calhar és como eu, mesmo quando a lei das probabilidades nos diz, como diz a vernácula expressão: tira o cavalinho da chuva! Somos como aquele tipo que saiu de Montreal e foi ao país do Tio Sam comprar o bilhete duma lotaria que oferecia um prémio colossal. Estatisticamente tinha muito mais probabilidades de sofrer dum acidente em caminho que embolsar os milhões, mas foi na mesma. Somos assim, uma espécie rica em esperança.

Foi com esta esperança ilógica de um dia ser bilionário que adormeci naquela noite em que as máquinas atacavam, furiosas, o nevão recorde. Sonhei muito, mas em vez de me ver numa ilha tropical com um veleiro de três mastros a boiar em águas transparentes, frente à minha mansão, e um barco com motor fora de borda para ir ao corrico às garinas, sonhei com dívidas, com juros das dívidas, com impostos e com as fugas a eles... Uma chatice aparentemente, mas olha a surpresa: em vez de madrugar contrariado com os pesadelos, acordei com uma ideia de génio! Logo eu, que sou tão inocente e ignorante que escrevo estas coisas só para que tu me ajudes a compreender este mundo e a estranha humanidade que nele vive. Não sei se alguém já foi atingido pelo rasgo de lucidez que me acordou, mas na dúvida arrisco-me a partilhá-lo contigo.

É assim, olha...

Considerando que 1% cento da humanidade detém a maior parte da dívida mundial e que esse mesmo 1% é quem mais foge aos impostos dos países de quem são credores... A solução é simples: que os países endividados deixem de pagar as dívidas aos credores como maneira de lhes cobrar os impostos que lhes são devidos e aos quais eles (os do 1%) fogem!

Hã?

Como a ideia me surgiu antes da publicação dos dois orçamentos, o provincial do Carlos Leitão e o federal do Bill Morneau, achei que, como cidadão responsável, devia comunicar-lhes a minha descoberta. Mas antes decidi testá-la com alguém. Inchado de empáfia, telefonei ao Rebenta Balões, aquele meu amigo ateu e cáustico, corrosivo como o ácido sulfúrico. É muito inteligente, contudo sofre dum irredutível pessimismo e perdeu toda e qualquer esperança na humanidade. De fé nem lhe fales que lhe dá um fanico. Segundo ele o nosso destino como espécie está selado: com tanta asneira acumulada, corremos inexoravelmente para o abismo. Para lhe trazer uma lufada de optimismo, arejar-lhe o bafio dos pensamentos sombrios, decidi pô-lo ao corrente do meu rasgo de génio. Atendeu-me com o mau humor habitual e grunhiu quando lhe disse que era portador duma excelente ideia. Deixou-me expor o meu achado genial até ao fim, sem entrepausas, coisa rara nele, de hábito interrompe-me, chama-me de parvo, de inocente, eu desligo e amuo durante algumas semanas. Quando, animado com aquele silêncio inabitual, cheguei ao fim da minha exposição, calei-me, retendo o fôlego, esperando pelo julgamento. E sabes qual foi o comentário do energúmeno?

Desatou a rir a bandeiras despregadas!

Riu-se tanto que até se engasgou. Um riso insano, desmedido, com tosses, silvos e roncos. De vez em quando parava, recobrava o fôlego, exalava um sofrido «é boa» e retomava o acesso descontrolado das gargalhadas. Os risos transformaram-se, viraram guinchos misturados com uma espécie de grunhidos de suíno. Tinha certamente pousado o telefone sobre a mesa porque ouvi o estalar de palmadas sobre o tampo, mania dele quando ri descontroladamente. O que é raríssimo, claro.

Ao ouvi-lo prestes a sufocar entrei em pânico, desliguei e compus o número do telemóvel da mulher, porque o bicho tem duas pontes aorto-coronárias (pretende que uma lhe vem da esquerda e a outra da direita): quando exposto a uma grande excitação corre perigo de acidente cardiovascular. A esposa acorreu, inquieta, forçou-lhe uma pílula debaixo da língua e voltou ao aparelho quando o sentiu estabilizado: 

– Encontrei-o lavado em lágrimas à beira do chilique. Não sei que raio de história cómica lhe contaste mas ias-me matando o homem – disse-me  num tom acusador – E não desligues... Está a fazer sinal que quer falar contigo.

Impedido de desligar por causa dum complexo de culpa mal vindo, lá colei o ouvido ao telemóvel, sabendo de antemão que me iria arrepender. Meu dito, meu feito! O tratante, mau grado a voz fraca de convalescente, não perdeu a ocasião para me humilhar:

– Olha meu... Acabámos de bater dois recordes. Eu bati um recorde de riso e tu bateste um recorde de inocência.

Desliguei, atirei o telefone para o sofá e amuei durante um mês. E até me esqueci de enviar o meu rasgo de génio ao Leitão e ao Morneau que, como certamente notaste, apresentaram orçamentos incapazes de pagar essa dívida que nos sufoca.

Espero que alguém lhes faça chegar este artigo, nunca se sabe...

FARIZA, I. 1% da população mundial concentra metade de toda a riqueza do planeta, El País, 18 out. 2015.

World debt comparison, The global debt clock, The Economist (internet).

TENCER, D. Canadian Corporations Had $200 Billion In World's Top Tax Havens Last Year: Report, The Huffington Post, 16 mai. 2015.

FAO cita Brasil como candidato a futuro maior exportador de alimentos, Globo Rural (Estadão Conteúdo), 4 ago. 2015.

ONU diz que 800 milhões de pessoas ainda sofrem com fome e pobreza, Mundo (Reuters), 6 jul 2015.

Fome cai 82% no Brasil, destaca relatório da ONU, Portal Brasil, 27 mai. 2015.

SARAIVA A. 7,2 milhões de pessoas passam fome no Brasil, mostra IBGE, Valor Económico, 18 dez. 2014.

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Onde se fala dum nevão, de dívidas, impostos, e se propõe remédio criativo
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