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rss  Vol. XX - Nº 346         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 16 de Julho de 2020
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Uma Vila Açoriana Em Muitos Capões

Por Lélia Pereira Nunes

Aos poucos deixava para trás o trânsito caótico que envolve a Grande Florianópolis e os contornos do planalto com seus picos azulados surgia no horizonte. Seguíamos para Muitos Capões, nos Campos de Cima da Serra Riograndense, para a inauguração da Vinícola Fazenda Santa Rita. Na bagagem levava a bandeira oficial da Região Autónoma dos Açores e uma pilha de CDs com músicas açorianas – Zeca Medeiros, Luís Alberto Bettencourt, Carlos Alberto Moniz, Maria Antónia Esteves, Grupo Coral das Lajes do Pico, Orfeão Edmundo Machado Oliveira, de São Miguel, a centenária Filarmónica União e Progresso Madalense, Grupo Folclórico Salão do Faial e a incomparável viola de Hélio Beirão. Ah! E, ainda, um DVD com imagens belíssimas do Arquipélago. Era mais um programa de fim de semana, com a desculpa de deixar uma Ilha sufocada de calor e gente, para curtir as belezas da paisagem serrana, as delícias da gastronomia e degustar os excelentes vinhos de altitude produzidos na Serra Catarinense e Gaúcha. No entanto, naquele fim de tarde de sexta-feira, dia 12 de fevereiro, não era este o principal motivo que levou-nos a percorrer 370 km serpenteando serras, campos cheios de hortênsias e povoados de bovinos, pomares e lavouras, margeando rios caudalosos como o Pelotas, afluente do Uruguai, que separa os dois estados sulinos.

Madrugada de sábado 13, chegamos à Vacaria, cidade polo da região dos Campos de Cima da Serra, situada no Nordeste do Rio Grande do Sul, com altitude que varia entre 900 a 1100 metros. A paisagem se transforma, os ares serranos são amenos e a cultura é outra. É um «baita chão, tchê», proclamam os gaúchos zelosos de suas tradições.

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Descendente de açorianos, Agamenon Lemos de Almeida, o proprietário da Vila.

O nome «Muitos Capões» deriva da cobertura vegetal característica da região – mata nativa em fragmentos de formação arredondada, dispersa no campo. O povoado fundado em 1901 foi elevado à categoria de município em 1995, emancipando-se de Vacaria. Seu território abrange uma área de 1 193km² com uma população de 3 150 habitantes concentrados na zona rural, haja vista que apenas 0,01% do território é área urbana. Por conseguinte, é um município cuja atividade agrícola responde por 95% da sua economia com o cultivo da soja, milho, maçã e, recentemente, com a produção de uvas viníferas, abrindo uma nova fronteira econômica baseada no cultivo das uvas e na fabricação de vinhos.

Toda esta descrição é para melhor perceberem a grandiosidade do que foi construído no meio daquele «marzão verde», de cansar os olhos, a se esparramar pelos 50 km que separam Vacaria da Fazenda Santa Rita. De repente, no meio do nada, ou melhor, do muito, na extensa plantação de soja, surge a imponente sede da Vinícola Fazenda Santa Rita e o conjunto arquitetônico da Vila Açoriana, toda ela inspirada na cultura açoriana que sobrevive nas margens de cá. Não estava preparada para aquele cenário em que sobressaía a elegante réplica do edifício neoclássico da antiga Alfândega de Florianópolis engalanado com as bandeiras do Rio Grande do Sul e da Região Autônoma dos Açores. Do palco, chegavam as vozes fortes, ora de Luís Alberto Bettencourt, ora de Zeca Medeiros que o «DJ» tocava enchendo o ambiente com o som da boa música açoriana. Fiquei emocionada. Pensei nos meus amigos açorianos e teclei correndo uma mensagem contando-lhes o que estava vivenciando naquele lugar que se vestia de «açorianidade». Era apenas o desvendar das cortinas do que nos reservara Agamenon Lemos de Almeida, empresário gaúcho dono da Vinícola e idealizador do ousado projeto que pretendia erguer (e ergueu) uma unidade de vitivinicultura dentro de uma conceção cultural açoriana herdada de seus ancestrais há 268 anos. Meu olhar abraçava tudo com volúpia e murmurei o verso O Andarilho de Lindolfo Bell – Menor que meu sonho não posso ser...

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Vinho marca «Vila Açoriana».

A porteira aberta da hospitalidade gaúcha e a festa organizada com esmero e elegância surpreendiam os mais de duzentos convidados que «boquiabertos» não continham a sua admiração. Os convivas foram rececionados com delícias da cozinha tradicional açoriana e da açorcatarinense, assinadas pelo Chef Narbal Corrêa (ilhéu de Santa Catarina) e com os espumantes Villa Açoriana Natural Brut e o Villa Açoriana Natural Nature, as grandes vedetes da festa que varou a madrugada.

Visitei os imensos vinhedos que nada lembram os currais de vinhas nascidas no basalto negro da Ilha do Pico. Aqui, as videiras são cultivadas em espaldeiras, ficando bem próximas da sede da Vinícola. Agamenon de Almeida, ao construir o prédio da Vinícola e a Vila Açoriana, numa sentida homenagem à Santa Catarina e aos Açores, deu vazão a sua mundividência assentada na criação cultural e histórica do Sul do Brasil. A «Vila Açoriana» abriga a singela réplica da Igreja da Nossa Senhora da Conceição erguida por mãos açorianas em 1751, na Lagoa da Conceição, em Florianópolis e a casa sede da fazenda, uma cópia da Casa de Anita Garibaldi que resiste ao tempo na histórica Laguna. Sem dúvida, um conjunto arquitetônico de grande significado e expressão mesmo sendo réplica e passível de contestação.

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Finalmente, teve lugar a cerimônia de inauguração das instalações da Vinícola Fazenda Santa Rita. No seu discurso, Agamenon Almeida, historiou a epopeia açoriana com conhecimento e paixão, fazendo um relato emocionado da saga dos povoadores para Desterro (1748-1756) e a chegada dos «Casaes» ao Continente São Pedro do Rio Grande (1751-1763). Reverenciou seus ancestrais descendentes «dos casaes açorianos», famílias formadoras da identidade do homem rio-grandense e que estão nominadas num grande painel na cave da Vinícola. Ouviu-se a palavra de quem está, de facto, comprometido com a salvaguarda desse inigualável patrimônio cultural por não querer deixar morrer as tradições e os costumes transportados dos Açores e aqui presentes mesmo que modificados no decorrer do tempo. Ouviu-se a voz empreendedora de quem investiu num sonho, sem perder o objetivo econômico – atrair visitantes de todo o País (e não só) para o produto «vinho» como pelo marco cultural açoriano erguido nos Campos de Cima da Serra.

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Percorrendo os três pavimentos do prédio da Vinícola, construída numa área superior a 1000 m², não pude deixar de admirar as obras dos artistas plásticos gaúchos Carlos Rigott e Jesus Fernandes. Painéis em azulejaria e telas que retratam as nove Ilhas do Arquipélago, a paisagem do Pico, o curral das vinhas, o moinho, as hortênsias, as rendas de bilro, os impérios, a coroa e a bandeira do Divino Espírito Santo. Está tudo ali. P´ra fechar, o enorme painel com o nome das trezentas famílias pioneiras e o museu do vinho.

Lá fora, o vento noturno zunia varrendo a tempestade que caía sem arrefecer a animada festa, enquanto uma forte neblina cobria tudo, remetendo-me às Ilhas de Bruma e ao povo açoriano que, com certeza, não faz a mínima ideia da existência de uma Vila Açoriana em Muitos Capões, no extremo Sul do Brasil, onde vive um povo guerreiro, livre, gaudério, que prefere morrer a viver em paz sujeitos, orgulhosos de sua alma açoriana.

Florianópolis, 2 de março de 2016

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Crónica
Aos poucos deixava para trás o trânsito caótico que envolve a Grande Florianópolis e os contornos do planalto com seus picos azulados surgia no horizonte. Seguíamos para Muitos Capões, nos Campos de Cima da Serra Riograndense, para a inauguração da Vinícola Fazenda Santa Rita.
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