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Os «afetos» dos políticos

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

A reputação dos políticos está ao nível de uma maçã podre: escolhemos apenas a parte sã, quando ainda a há.

A ex-ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, que até tinha amadurecido para a política há pouco tempo, achou que já tinha poda suficiente para passar incólume neste lindo pomar assombrado de minhocas que é a política portuguesa.

É muita fruta para em menos de cem dias ter encontrado o seu período de apanha com forte adubagem.

Não está em causa a legalidade em assumir funções no fundo britânico, o mesmo já não se pode julgar no plano ético e no caráter de bom senso.

São atitudes destas que oxidam a essência da política.

São pessoas assim que arrumam de vez com a honestidade e humildade dos políticos.

Estes «afetos» são a nossa vergonha e fazem os cidadãos tornarem-se mais descrentes da política.

A promiscuidade entre política e negócios é tão descarada, ao ponto de os partidos do poder terem sempre recusado aprovar uma lei de incompatibilidades em que constasse o impedimento de tais situações.

Honra seja feita ao Bloco de Esquerda e ao PCP, que sempre defenderam essa inclusão, apesar da recusa dos outros partidos.

António José Seguro, com o então líder parlamentar Alberto Martins, chegou a propor um artigo à lei das incompatibilidades que impedia os titulares ocuparem cargos em empresas com quem se tinham relacionado no governo, pelo menos nos quatro anos seguintes.

Com António Costa, a proposta foi retirada.

É verdade que está no caráter de cada um recusar empregos oferecidos por entidades com quem estiveram envolvidos durante a governação.

Mas nem todos são iguais. Por causa destes é que se devia legislar mais esta incompatibilidade.

E não venham com a história do período de nojo de três, cinco ou sete anos. Um governante que negociou diretamente com empresas, a quem depois vai pedir emprego, será sempre selado com a suspeita de ter beneficiado os futuros patrões.

Foi assim com Ferreira do Amaral, foi com Jorge Coelho, foi com Pina Moura, foi com Manuela Ferreira Leite, cujos episódios são agora recordados exatamente porque ficaram sempre colados a esta imagem de terem beneficiado do emprego pelo que fizeram enquanto governantes em relação às mesmas empresas.

Manuela Ferreira Leite, dois anos depois de ter ocupado a pasta das Finanças, em 2006, foi contratada pelo Banco Santander para administradora não-executiva, o mesmo cargo da agora Maria Luís.

Jorge Coelho, após ocupar o cargo de Ministro do Equipamento Social em 2001, foi para Presidente da Mota Engil.

É verdade que já tinham passados uns anos, mas o mesmo aconteceu com Ferreira do Amaral e, mais recentemente, com Vítor Gaspar, que depois de abandonar as Finanças no governo de Passos Coelho, foi contratado pelo FMI, com quem tinha negociado durante a intervenção da troika no nosso país.

São muitas ligações perigosas que levam aos piores julgamentos dos cidadãos.

Maria Luís comete um erro, como também cometeu Carlos César quando saiu do Governo Regional e foi contratado pela empresa luso-canadiana Connexall, a quem o seu governo tinha adquirido, por ajuste direto, produtos e serviços na área das comunicações e informática.

Mais recentemente foi também contratado, pela mesma empresa luso-canadiana, o ex-Secretário da Saúde dos governos de Carlos César, que também negociou ajustes diretos com aquela empresa.

Miguel Correia chegou mesmo a fazer périplos pelas ilhas a demonstrar as virtudes da referida empresa, como por exemplo na ilha Graciosa, onde deu conta das experiências em curso nos Açores com a utilização do «Connexall», designadamente no Hospital de Ponta Delgada e na vigilância do CO2 no ar atmosférico da Furna do Enxofre, na Graciosa.

A que propósito uma empresa ligada às comunicações e informática contrata políticos que não têm nenhuma especialidade nesta área?

Por mais seriedade que exista neste tipo de contratações – e não ponho em causa a honestidade de nenhuma delas – o que é que os políticos julgam que os cidadãos vão pensar?

Já não bastava a gestão ruinosa das governações, em que a classe política fica malvista.

Agora também escolhem os bons cargos na privada, de preferência com entidades internacionais, para serem melhor pagos, enquanto que nós, contribuintes, vamos pagando com o nosso bolso os «desajustes diretos» que nos deixam como herança.

Para uns, cargos e salários.

Para outros, os «afetos» ...

Crónica
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