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rss  Vol. XX - Nº 345         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 09 de Julho de 2020
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O poder absoluto!

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Há duas profissões neste país e nesta região que devemos recomendar vivamente aos nossos filhos e netos: político e banqueiro.

Os primeiros, quando estão no poder durante muitos anos, numa espécie de monarquia absolutista, julgam-se iluminados por um dom divino que lhes dá autoridade para ocuparem tudo à nossa volta, entrando impetuosamente pelas nossas casas adentro, pelos nossos empregos adentro e até pela igreja adentro.

Os segundos são outra casta soberana, possuidores do histórico «Direito Divino dos Reis», protegidos pelos primeiros.

São os únicos à face da terra onde lhes é permitido falirem bancos sem que nada lhes aconteça, sem antes terem embolsado avultadas distribuições de dividendos, para depois os primeiros virem ao nosso bolso para resgatar as asneiras dos segundos.

A indiferente benevolência dos açorianos vai permitindo que tudo seja possível na política regional, num estranho cenário onde as chamadas elites do conhecimento estão anestesiadas e a intelectualidade açoriana é praticamente inexistente, passiva na reflexão crítica e no debate cívico.

O caso do Conselho de Ilha de S. Miguel é apenas uma leve caricatura do poder absoluto, muito semelhante ao que vimos há vinte anos quando o PSD estava no poder.

Os tiques são exactamente iguais.

A história só se repete porque os mais jovens não se recordam desse poder absoluto de duas décadas, caso contrário aprenderiam alguma coisa com a História.

Jorge Rita quer ser Presidente do Conselho de Ilha de S. Miguel, para despolitizar o órgão, mas tem um problema: é um cidadão comum, descomprometido com a política, calça botas de cano para andar nas pastagens, lida com muita gente iletrada, logo não tem o tal dom para ocupar lugares que estão destinados aos iluminados do aparelho.

Para ocupar altos cargos, como a presidência do Conselho de Ilha, era preciso que Jorge Rita fosse Presidente de uma autarquia, Provedor da Santa Casa, Presidente da Associação de Municípios, Presidente da concelhia do partido e – não menos importante – assinar a ficha...

Um cidadão que não tem na linhagem esta constelação de Plêiades e este frenesim de atividade atrás de atividade, não possui talento para presidir a nada nesta região.

Para que é que um jovem há-de estudar advocacia, para depois se embrenhar na burocracia da justiça criada pelos políticos?

Mais vale ocupar um lugar político, lustrar publicamente o chefe, levar para casa uma folha remuneratória rechonchuda, de preferência acumulada com muitas alcavalas, e não ter mais chatices neste pobre mundo da cidadania.

Para que é que um jovem há-de estudar medicina, para depois emaranhar-se entre medidas de gestão desastrosas no setor da saúde, implementadas por um qualquer gestor político?

Então não é mais talentoso e rendoso ser-se político, atribuir por ajuste direto contratos a uma empresa de comunicações e informática para fornecimento de equipamento e serviços aos hospitais e proteção civil, e, depois, quando estiver farto da política, ir pedir emprego à mesma empresa e instalar-se com um bom ordenado na cadeira de gestor privado?

Este talento não é para qualquer um.

Se lá fora temos políticos que andaram a vender empresas públicas aos privados, e quando saíram do pelouro foram contratados, por 30 mil euros por mês, para andarem à procura de novos donos para um banco, porque razão não devemos copiar, à nossa dimensão, esta talentosa arte de ocupar cargos em todo o lado?

Estar em todo o lado é uma virtude só reservada a políticos. Não está disponível para meros cidadãos sem o dom da omnipresença em rede.

Uma carrinha particular, de um simples cristão, deve dar boleia à Imagem Peregrina de Fátima para percorrer a ilha?

Claro que não!

A bênção só pode estar reservada a uma carrinha do governo, que ostente o emblema do estado regional, para que toda a gente saiba que esta abençoada comunhão entre instituições seculares – Igreja e Política – não pode estar ao alcance celestial de qualquer um.

Assim vai a política no burgo do Ámen a tudo e bola baixa nesta ambição de pretender ocupar cargos ou espaços que possam colocar em causa a via-sacra açoriana.

Depois admiram-se que os cidadãos digam, esmagadoramente, que não confiam em políticos, nem tão pouco em banqueiros.

Crónica
Há duas profissões neste país e nesta região que devemos recomendar vivamente aos nossos filhos e netos: político e banqueiro.
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