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rss  Vol. XX - Nº 345         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2020
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Em Água de Pau, na Lagoa...

A impressionante procissão de Nossa Senhora dos Anjos

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau, enviado especial do LusoPresse

Água de Pau, Lagoa – Não me lembro de ter sido testemunha duma devoção religiosa tão fervorosa no Quebeque. A de Água de Pau é ao mesmo tempo impressionante e gigantesca. Numa vila de pouco mais de 3 000 pessoas, todos os anos, tanta participação e tanta energia!

A festa de Nossa Senhora dos Anjos desenrola-se debaixo do olhar admirativo de milhares de testemunhas vindas de todo o lado, incluindo da diáspora. Uma manifestação de fé reunindo pessoas de todas as idades numa pequena comunidade de tradição marítima e agrícola. Um rito secular duma importância especial em 2015. Ano de Ação de Graças.

Este género de procissão açoriana não me era completamente desconhecido pois já tinha assistido à de Nossa Senhora do Rosário. Foi há oito anos e, depois de várias reportagens, descubro que tais reuniões são quase obrigatórias duma terra para outra. Como se houvesse competição duma paróquia para a outra. O padre João Furtado falou-me da sua paróquia, como um evento «extraordinário, a segunda maior festa micaelense, a seguir à do Senhor Santo Cristo dos Milagres», em Ponta Delgada, de esclarecer o homem de cabelos brancos.

O tapete de flores debaixo de um drone

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Nas ruas de Àgua de Pau, a procissão, com a presença de muitos fiéis.
Foto Jules Nadeau - LusoPresse

Cerca das 18 horas, ao chegar à localidade situada na margem sul, a vista sobre as telhas ocres das casas brancas era soberba. Um campo de tabaco ao lado de um raro secador. Duas damas estavam ocupadas a espalhar no chão as hortênsias para fazer o «tapete de honra». Uma forma de arte transmitida de geração em geração. Coisa engraçada, ao mesmo tempo que dois técnicos se ocupavam de teleguiar uma câmara aparafusada a um drone que se passeava por cima das suas cabeças. Era a primeira vez que via uma tal gravação. Contraste entre o tradicional e o moderno.

Na rua principal, rua Trindade, era preciso empurrar para se aproximar do cortejo. Felizmente, perto da farmácia, as «bandas filarmónicas» guiavam-nos pelo som para nos indicar onde estava o desfile do 15 de agosto. Uma multidão densa de Pauenses de cada lado da estreita rua comercial. Homens, mulheres e crianças. De sete a setenta e sete anos. Além disto, os turistas, reconhecíveis pelas máquinas fotográficas.

Agua de Pau oferendas Foto 2.JPG
Aqui assiste-se ao cortejo de oferendas.
Foto Jules Nadeau - LusoPresse

Como no Rosário em 2007, os organismos das diferentes freguesias estavam claramente identificados pelos seus estandartes e bandeirolas. Fraternidade Rural. Liga do Espírito Santo. Grupo Coral. Os notáveis de fato escuro e outros em uniforme de escuteiros, empregados públicos ou de organismos religiosos. Resumindo, todas as «forças vivas» do lugar.

Os valorosos caminhantes

Olhando de mais perto, estamos em face de infatigáveis participantes. As tubas e os bombos são visivelmente muito pesados e, sob o efeito do sol, há risco de uma desidratação rápida. Mais esmagador ainda, as estátuas dos santos necessitam por vezes até uma dezena de homens robustos para a longa marcha. Com a necessidade de se substituírem de tempos a tempos.

Cerca das 19 horas, penduro o cartão de imprensa ao pescoço e tento uma grande saída. «Sou jornalista do Canadá. Posso subir para a sua varanda para fotografar melhor?». O homem à porta do rés-do-chão ocupa-se duma pessoa idosa numa cadeira de rodas. «É um canadiano que quer subir», grita à proprietária do primeiro andar. «Está bem!», grita-lhe ela. Subo a correr os degraus duma escada escura (passo pela cozinha muito limpa e pelo quarto) para acabar no camarote de primeira classe decorado com a bandeira papal amarela e branca. Uma pessoa idosa que aí se encontra e uma mulher a quem mal tive tempo de agradecer puseram-me à vontade «You are welcome!» («Seja bem-vindo!»).

O aro litúrgico

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Foto Jules Nadeau - LusoPresse

Estou maravilhosamente bem situado para observar a estátua vestida de azul e cor-de-rosa avançando entre duas filas de fiéis. A seguir é o momento solene. De cima, posso ver Nossa Senhora meter o braço direito num aro do qual pendem festões de notas de banco e flores. Dons dos Pauenses à fábrica da paróquia. Uma operação delicada efetuada com precisão pelos portadores de honra.

Rebentam os aplausos. As peças pirotécnicas surgem no branco do céu. Do alto do meu posto de observação posso aperceber-me melhor da imensa inscrição no flanco da colina: «Festas N. S. dos Anjos». Ainda mais alto, aparece uma grande cruz assim como a capela mais elevada da vila que tem o nome de Nossa Senhora de Monte Santo (mais tarde vim a saber que houve aí uma aparição como em Fátima).

Com que comparar esta procissão religiosa? Há uma aproximação possível com as procissões de antigamente do 24 de junho no Quebeque. Aliás, descubro um bonito São João Batista duma dezena de anos com os cabelos encaracolados como um cordeiro. O menino traz nos braços um cordeiro branco de peluche. Cajado na mão e calçado de sandálias.

Caras conhecidas

Digno de menção, sobretudo surpreendente, na multidão reconheço alguns amigos. Numa varanda com a inscrição «Parabéns, Vila Água de Pau» o erudito da cultura local, Roberto Medeiros, fotografa também tudo o que pode (é o etno-historiador que me explicará as aparições de 1918). A pequena família de Portugueses de Laval sentada ao meu lado no voo da SATA 4326 reconhece-me e trocamos algumas impressões. Como não há duas sem três, mais tarde, debaixo dos últimos raios de sol, vindos de Sainte-Thérèse, é o Armando Melo, vereador, e a sua esposa Filomena que me pedem para os fotografar diante da fachada brilhantemente iluminada do santuário.

Entre os convidados de honra vemos a presidente da Câmara Municipal de Lagoa. Sorridente, Cristina Calixto Decq Mota acompanha o vigário da diocese, o padre cónego Hélder Fonseca Mendes, assim como o padre João Furtado. Eles rendem homenagem à «Majestosa Rainha dos Anjos» como lhe chama uma jornalista local. Os seus portadores fazem-na entrar no local do culto. Outra proeza física! No interior, para a ocasião solene, a luz é intensa. Um verdadeiro dia de festa! Aos olhos de um estrangeiro, isto faz lembrar a missa da noite de Natal.

Reportagem
Água de Pau, Lagoa – Não me lembro de ter sido testemunha duma devoção religiosa tão fervorosa no Quebeque. A de Água de Pau é ao mesmo tempo impressionante e gigantesca. Numa vila de pouco mais de 3 000 pessoas, todos os anos, tanta participação e tanta energia!
Nossa Senhora dos Anjos.doc
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