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rss  Vol. XX - Nº 343         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 03 de Abril de 2020
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Ryanair e easyJet nos Açores:

Ser mais verde e mais cultural para aproveitar o boom turístico

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

No seu magnífico isolamento azul, os Açores são o arquipélago onde a vida decorre pianissimo e pacificamente. Para o repórter, difícil de encontrar um ponto quente, exceto quando a Mãe Natureza faz rebentar um vulcão como o terrível Capelinhos no Faial (1957). Os homicídios acontecem sobretudo nos romances de Francisco José Viegas, mas o criminoso acaba sempre a ver o sol aos quadradinhos.

Uma exceção, o verão passado, durante a nossa estadia em São Miguel, chegamos no meio de uma pequena revolução no país das hortências. O afluxo repentino de turistas trazidos por duas companhias aéreas europeias. Um aumento de 33% de turistas no Aeroporto João Paulo II em junho de 2015, ou seja, 21 000 a mais que no mesmo período em 2014. Um maná inesperado para a economia local que luta contra uma taxa de desemprego crónica de mais de 15%. Gostaria de ter podido multiplicar as entrevistas para melhor analisar este boom turístico, mas não foi fácil em apenas duas semanas. Faço-o na mesma sob a forma duma nota – baseada nas minhas observações. Ninguém é profeta na sua terra? Vou sê-lo eu em território lusófono?

Ryanair e easyJet

Açores Ryannar Aviação.jpg

O fenómeno verifica-se facilmente. Um empregado de mesa antigo do venerável hotel Terra Nostra (oitenta anos de existência) confirma-o sem hesitação, enquanto nós saboreamos um incontornável cozido das Furnas regado com um Cabernet Sauvignon do Pico. A mesma coisa é confirmada em Porto Formoso onde José Soares (t-shirt de Che Guevara), o sobrevivente de 42 invernos de Gatineau, acolhe agora muito mais estrangeiros no seu restaurante a cozinhar simples Hamburgos (há muitos outros pratos no menu). Nas suas páginas, o Açoriano Oriental, de Paulo Simões, e o Diário dos Açores, de Osvaldo Cabral, voltam sempre a falar da presença de Alemães, Holandeses, Americanos, Ingleses, Suíços e Canadianos (estes em 6º lugar).

Vimo-los em fila indiana nas estradas panorâmicas. Saco às costas e garrafas do Luso na mão. Falei com muitos na Lagoa e na Ribeira Grande para registar os comentários. Numa esplanada no centro de Ponta Delgada conversei com um casal austríaco, cujo marido geógrafo se dizia no paraíso: «Viemos para admirar a botânica e os vulcões», lançou-me o anafado septuagenário enquanto saboreava a sua cerveja Melo Abreu.

Depois dos intrépidos exploradores das caravelas vindos se reabastecer na Madeira e nos Açores, são agora duas companhias aéreas que exploram este circuito desde 29 de março último. Primeiro, a irlandesa Ryanair, depois a sua rival inglesa easyJet. O resultado da liberalização do céu do arquipélago. No caso da Ryanair (o quarto dos passageiros trazidos a São Miguel), trata-se duma das companhias mais rentáveis do mundo, segundo a televisão France 2. «Do nunca visto!» Destinações rentáveis para 30 países europeus com 1600 voos por dia com os aviões cheios a 91%. Com lucros indecentes! O segredo da companhia que vale 19 biliões de euros na Bolsa (dez vezes mais que Air France)? Não há refeições gratuitas! Nada de presentes! As mais pequenas opções são pagas em linha pelos 105 milhões de viajantes anuais. O mesmo para os empregados: os uniformes e a formação. Nenhum salário em caso de doença. Donde, impossível para os competidores de ganharem contra a companhia azul e amarelo. A venerável SATA ou a TAP não podem baixar o preço dos bilhetes tão radicalmente.

A réplica da SATA?

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A SATA comemora, em 2016, 75 anos. Em agosto passado, Luís Parreirão, então presidente do Conselho de Administração, na companhia do Comandante Afonso -o primeiro piloto da história da SATA! - descerrou a placa da efeméride no edifício que serviu de primeira sede, na rua dos Mercadores
Foto Jules Nadeau - LusoPresse

No capítulo da aviação, confesso que falhei em termos de entrevistas. No dia 21 de agosto, com o chefe de redação Norberto Aguiar e Anália Narciso, fomos à curta cerimónia marcando o 75º aniversário da companhia. A inauguração pelo pdg da época, Luís Parreirão, duma placa em honra dos fundadores de 1941. A atmosfera era festiva nesse domingo e era fácil conversar com todos os dirigentes. Gostaria de ter podido interrogar Luís Filipe Cabral, o responsável das comunicações da SATA. Ou então o seu colega de Toronto, o diretor Carlos Botelho. Este último aconselhou-me a dirigir-me ao sr. Cabral para uma entrevista e o sorridente comunicador disse-me estar «de acordo». Infelizmente, falta de tempo!

Ainda agora, gostaria de saber a reação da SATA face à uberisação estrangeira das companhias a baixo custo. A sua estratégia para diminuir os estragos e conservar a sua parte do mercado no reino dos céus? Novos Airbus A330? Neste contexto, o atual slogan «O Atlântico e vós» parece-me muito fraco. Também seria necessário fazer perguntas à TAP.

Mobilar os museus

O grande desafio das infraestruturas de acolhimento consiste em divertir e reter estes turistas por mais algumas noites. Fazer deles embaixadores. Propor-lhes atividades estimulantes, não somente no plano desportivo, mas também cultural. No meu caso, poderia facilmente passar dois meses em vez de duas semanas, mas as motivações não são as mesmas para todos.

Para benefício dos novos turistas, sugiro de mobilar, enriquecer e melhorar todos os centros de exposição da cultura local. Vi e fotografei embriões de museus que ganhariam em oferecer mais aos visitantes curiosos. Por exemplo, o museu de Cabouco testemunha de uma boa intenção de nos informar sobre a cultura camponesa, mas é difícil de lá ficar por muito tempo. Na Ribeira Chã, a casa natal de Maria dos Anjos Melo, nascida em 1906, uma corajosa mulher que partiu para os Estados Unidos e voltou com a idade de 17 para acabar os seus dias na terra que foi o seu berço, é uma bela surpresa. O centro paroquial da terra é um outro belo embrião de atividade cultural.

Lagoa Museu do Cabouco.JPG
Museu do Cabouco.

No meu recente artigo sobre a Gorreana, a mais antiga plantação de chá da Europa (1883), evocava a existência de uma exposição sobre o chá em 2012 no museu Carlos Machado. Também me falaram de um efémero museu do chá (D. Maria Mota) que infelizmente não sobreviveu. A ligação com os Chineses de Macau é excecional. Seria preciso ressuscitar esse sítio para atrair turistas asiáticos (e tecer ligações com os imigrantes chineses que são tão interessados pela história, sobretudo a que lhes toca). Bons exemplos de vitrinas suscetíveis de testemunhar do génio dos empresários micaelenses do ponto de vista botânico, comercial e científico.

Por que não fazer o mesmo com os ananases, o açúcar, o tabaco, os laticínios e o álcool? A sociedade Mulher Capote com os seus licores de toda a espécie, tangerina, ginja, café, etc. oferece degustações. Também promover os pratinhos de cerâmica Vieira como recordações. Sem esquecer a pesca, que representa um setor económico incontornável. Um apaixonado de história como o meu amigo Roberto Medeiros e Pedro Pascoal (boa pesquisa sobre o chá) estariam certamente interessados se lhes dessem os meios. (Ao pensar no soberbo serão organizado em Outremont pela comunidade sefardita do Quebeque – com a presença de Kátia Guerreiro – por que não pôr em evidência a história e a contribuição da grande família Bensaúde?)

Um belo projeto para Sainte-Thérèse

Soube antes de partir de Montreal que todas as cidades e freguesias publicam magníficos álbuns sobre o seu passado. Exemplo, uma rica documentação sobre Água de Pau. Seria então preciso ir à caça a artefactos de toda a espécie. Depois imprimir folhetos e recrutar guias multilingues para visitas instrutivas. Implicar os colecionadores e dar provas de criatividade para ilustrar a cultura local. Em matéria de emigração seria necessário procurar do lado da Nova Inglaterra e do Canadá. Além dos museólogos (especialidade quebequense), onde estão os documentaristas portugueses? No caso da geminação Lagoa-Ste-Thérèse, eis um bom desafio para as nossas dirigentes Cristina Calisto Deq Mota e Sylvie Surprenant.

O que precede implica peritos e orçamentos. A minha segunda recomendação situa-se a outro nível. Fazer dos Açores os campeões do meio ambiente e fazer deles uma região modelo. Banir completamente os sacos de plástico, reciclar massivamente e transformar em adubo o excedente dos pratos (sempre a deitar por fora). De deixar os estrangeiros de boca aberta e cheios de admiração!

Turistas e crianças sobretudo

Perto de 63% dos Micaelenses procedem à separação do seu lixo em casa, segundo um inquérito realizado junto de 13 920 pessoas. Sobre este assunto, fiquei contente de ouvir a sobrinha Carmen confiar-me que em casa dos Narciso, a reciclagem é uma prática obrigatória. Aliás, vi em Rosário grandes sacos transparentes arrumados na garagem deles. A jovem quadro da impressionante empresa de pescado Lurdes Narciso preocupa-se com a futura geração: «Se não respeitarmos o mar, até quando vamos nós pescar bom peixe?», afirma-me ela num excelente inglês deitando um olhar enternecido para o jovem Tomás. A mais vasta zona marítima da Europa estende-se sobre 994 000km2. (Aliás há razão de se inquietar. Triste revelação, com uma foto de uma praia poluída do Faial, o Açoriano Oriental intitulava na sua edição de 31 de julho último: «Intensa agregação de plásticos dá à costa na Região».)

Enfim, no conjunto, tal como já mencionado, a hospitalidade é natural. Pelo menos, em São Miguel tudo está limpo, as grandes estradas são impressionantes, as pessoas são acolhedoras e a gastronomia não deixa ninguém indiferente com os seus produtos frescos. Viva o polvo, o atum, o pampo e o boca-negra! Sobre este último ponto, apesar de certas divergências, continuo positivo. Teria gostado de concluir com uma apreciação sobre a qualidade do Royal Garden ou do Marina Atlântico, mas em cada uma das minhas incursões tive sempre a honra de ter sido recebido em casa dos habitantes (no sentido nobre do termo). E porque não oferecer dormidas em casa do campo?

Aliás, como na Terceira, os outros insulares reclamam porque também querem aproveitar do euro-maná turístico. Também eu aproveito para exprimir a minha frustração. Um destes dias bem gostaria de ir explorar as outras oito ilhas. Com a SATA Internacional. Porque logo que há um atraso com este transportador, como no nosso voo S4 327, e que nos oferecem a refeição graciosidade, no próprio aeroporto João Paulo II, o tinto e o branco locais são servidos à vontade. E não é do vinho de missa, low cost. Não estou a exagerar. Tenho testemunhas. Maneira de fazer subir os retardatários ao 7º céu e de prolongar a nossa estadia no país da Felicidade. «O paraíso e vós».

Destaque
No seu magnífico isolamento azul, os Açores são o arquipélago onde a vida decorre pianissimo e pacificamente. Para o repórter, difícil de encontrar um ponto quente, exceto quando a Mãe Natureza faz rebentar um vulcão como o terrível Capelinhos no Faial (1957). Os homicídios acontecem sobretudo nos romances de Francisco José Viegas, mas o criminoso acaba sempre a ver o sol aos quadradinhos.
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