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rss  Vol. XX - Nº 343         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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SOLIDÃO…

Um mal maior do século XXI

Adelaide Vilela

Por Adelaide Vilela

Hoje, até a igreja reconhece que a solidão entrou em casa de ricos e pobres, calculando-a como tragédia humana. É um mal maior do século XXI, algo que renega a força, a luz, a felicidade e o direito de reconhecer o que é importante em si mesmo. A solidão é um bicho insignificante, com várias caras, e afeta a Terra lés a lés, sem distinção de cores ou de raças. A primeira faceta da solidão reside na falta de coragem, de estimação, de mérito… E quantas vezes desaparecem os valores capazes de atulhar de energias positivas a arca vazia que baila dentro do que se sente só e abandonado.

Solidão e melancolia têm barreiras em comum. Solidão é sinónimo de estar só, sozinho, triste, desamparado, e acontece essencialmente porque falta espaço e vontade de gerar e de dar à luz a alegria no olhar de cada dia. A melancolia é um olhar ligado à tristeza e ao vazio tendo a morte, ao fundo do túnel, como um ato de coragem, a qual deliberará o sofrimento daquele (a) que observa o fim da vida como sinal de paz e de uma verdade reveladora, que trará a ressurreição com um bem. Que ninguém caia na tentação sem encarar o medo e a sombra do seu próprio EU; que ninguém caia na tentação sem encontrar momentos grandiosos de pensar conseguidos, talvez, através das leituras de sábios pensadores, tais como Confúcio: «Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro».

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Durante o tempo em que moramos na Terra consideramos que todos nós temos que passar por altos e baixos, seguir em frente e deparar-se com a malvadez, desconfiar do mal e encontrar caminhos floridos e de grande beleza, onde possamos forjar vontades aumentando a fé, o querer, como significado de influência.

Um dia destes estando eu e o meu esposo em frente do televisor vimos um ator conhecido, pelas luzes da ribalta, mandar uma mensagem aos seus amigos. O artista sofria de certa demência e tinha presente apenas o passado e algumas leituras do imediato. O Sr. pediu aos amigos que por favor não o abandonassem, pois estava a passar por uma fase crítica e invulgar. Demo-nos conta de que o dito ator tinha uma coragem como muitos não podem acreditar. Pelos vistos tinha sido abandonado pelos distraídos (antes seus amigos), e a partir dali teria que fazer o caminho a olhar para os desconfiados que confundem dor com solidão. Notamos tristeza no rosto daquele ser humano e para nós foi como se alguém nos dilacerasse o coração. Por outro lado, pensamos em reler estes versos de Luís Vaz de Camões:

Mas, conquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Dói, claro que sim, escrevo agora na primeira pessoa… Há um pouco mais de dois meses, fui submetida a uma grande cirurgia e logo notei que teria que ganhar asas de coragem, na raiz do coração, para resistir ao sofrimento e não entrar nas veredas da solidão e do isolamento. A grandiosidade de carater da minha família e dos bons amigos nunca me deixaram ficar só, nos 45 dias de internamento.

Acima de tudo, a recuperação continua lenta… ainda tenho momentos de desespero, sobretudo quando estou só, e as dores me apertam. Nestes casos lembro-me de duas ou três pessoas que eu considerava amigas e nem sequer me foram visitar ao hospital. Liberdade é a palavra imensa que admiro e respeito! Entendo que a mudança de sentidos (para alguns) faça parte do crescimento, ou do decrescimento, quem sabe?

A verdade é que ainda me acontece chorar, por me dar conta que nem a todos incomoda o facto de alguém estar doente ou num período de solidão involuntária. Porquê dar sentido ao problema do outro se o sofrimento é para muitos uma insignificância qualquer.

Pela parte que me toca, consigo fazer de um saco vazio um lagar de energias positivas e alcançar a coragem que preenche a minha vida de luz e de amor. Mas quantos são os que não entendem a palavra coragem e se isolam, cavando a própria sepultura na solidão soberba que lhes acaba com a vida.

Afinal, como vai este mundo em que cada um pensa e vive por si só? William Shakespeare apresenta a sua própria ideia: «Um palco em que cada um deve recitar um papel, / e o meu é um papel triste». Assim vai a Terra e os que nela habitam.

Crónica
Hoje, até a igreja reconhece que a solidão entrou em casa de ricos e pobres, calculando-a como tragédia humana. É um mal maior do século XXI, algo que renega a força, a luz, a felicidade e o direito de reconhecer o que é importante em si mesmo. A solidão é um bicho insignificante, com várias caras, e afeta a Terra lés a lés, sem distinção de cores ou de raças.
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