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rss  Vol. XIX - Nº 341         Montreal, QC, Canadá - domingo, 29 de Março de 2020
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O poço de ar da SATA

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

A SATA entrou, há muito tempo, num poço de ar profundo e o retomar da rota não depende apenas da pilotagem da sua administração.

A saída de Luís Parreirão da presidência da SATA era mais do que previsível, por duas razões:

Primeira, porque veio para os Açores por razões de interesse familiar e não por opção profissional, até porque vinha de uma área (construção civil) que não tem nada a ver com aviação.

Segunda, porque foi-lhe atribuído um lugar na SATA por razões de ordem política, pois pertence a um grupo influente no interior do PS nacional.

A nomeação de Luís Parreirão para Presidente da SATA tinha, portanto, tudo para não dar certo e a culpa é dos governos de Carlos César e de Vasco Cordeiro, que nunca olharam para a SATA como um problema empresarial, mas como um brinquedo de âmbito político e ao serviço dos governantes.

A brincadeira tem continuado na titularidade do atual Secretário dos Transportes, que ainda há poucas semanas deu o golpe de misericórdia na credibilidade dos administradores da SATA.

Ao anunciar publicamente que tinha «dado instruções à administração da SATA para reforçar os voos para Faial, Flores e Corvo», Vítor Fraga cometeu um erro crasso (mais um), pois provou à saciedade a ingerência do governo na gestão da empresa e chamou, indiretamente, aos administradores da SATA aquilo que todos chamamos quando não se sabe administrar uma empresa...

Este caso, aliado a outras trapalhadas, poderá ter sido a gota de água para Luís Parreirão se sentir um mero administrador ao sabor dos humores dos governantes.

O que é extraordinário na administração da SATA é que os Presidentes se demitem ou são demitidos, o Diretor Financeiro bate com a porta e os outros administradores lá continuam, colados às cadeiras e a assobiar para o lado como se nada fosse com eles, sem nenhum assomo de solidariedade para com os que se vão embora, quando se julgava que havia ali uma gestão colegial.

Já aqui escrevi e repito: a partir do momento em que Carlos César mandou para casa o Eng. Manuel António Cansado, ficou à vista de todos que a SATA deixava de ser o que era, para passar a ser um mero apêndice do Governo Regional.

Chegados aqui, por lá já passaram 3 Presidentes e não sei quantos administradores, em tão pouco tempo, e a empresa continua a pique num poço de ar sem fundo.

Nesta última década a dívida da SATA passou de 5 milhões de euros para esta coisa fantástica de... 170 milhões de euros!

Uma empresa nestas condições, no setor privado, já tinha falido e fechado as portas.

A TAP esteve em situação semelhante, mas os políticos acordaram a tempo e tiveram um rasgo de inteligência em ir buscar um perito em aviação, ao Brasil, que fez da companhia aquilo que todos sabemos: recuperou-a e tornou-a competitiva internacionalmente.

Ninguém, com bom senso, vai buscar um talhante para gerir um banco. Muito menos psicólogos, licenciados em computadores ou gestores de empresas de construção civil...

É doloroso ver como a SATA tem nos seus quadros grandes profissionais, de primeira água, em todas as áreas, que valorizariam qualquer empresa de aviação em qualquer lugar do mundo, mas são ignorados na gestão da sua companhia.

O Eng. Paulo Menezes é uma excelente pessoa, um grande quadro técnico, fez um trabalho magnífico na Globaleda, porque é a sua área, mas não estejam à espera que vai ser o D. Sebastião da SATA.

A transportadora regional, neste momento, é um problema muito mais complexo, que não depende da capacidade de gestão de uma pessoa só.

A SATA já atingiu uma dimensão que obriga a sua administração e a sua gestão empresarial a conhecer profundamente o mundo de hoje da aviação, cada vez mais especializado, moderno e competitivo e que não se compadece com intervenções políticas, mas de natureza meramente empresarial e económico-financeira.

Há muita política na SATA e é isto que a está a matar, como de resto em tantas outras empresas públicas desta região.

A SATA precisa urgentemente de um parceiro privado que traga capital e conhecimento.

O problema é que ela já mergulhou num tamanho poço, que não se torna atrativa para nenhum investidor.

Basta ver o que está a acontecer à nossa volta, em toda a Europa e não só.

O Eng. Bastos e Silva deu há poucos dias os exemplos da Estonian Air, a Malev da Hungria e a polaca Lot, ao mesmo tempo que citava, muito a propósito, Rigas Doganis, professor da Universidade de Cranfield e administrador não executivo da easyJet durante nove anos, que considera que «algumas das pequenas e médias empresas de aviação, de propriedade pública, estão condenadas, a não ser que encontrem proteção no interior de um grupo de maior dimensão».

A SATA nunca se preparou para a liberalização do espaço aéreo nos Açores e chega tarde e a más horas com este Plano de Negócios desenhado por Luís Parreirão, que já está desadequado, depois de se terem gasto centenas de milhares de euros em estudos e planos encomendados a tantas empresas de consultadoria.

É este clima de forte dependência política, com nomeações políticas e orientações sem sentido de gestão, no meio de tantos interesses políticos, que tem afundado a SATA ao ponto de nem conseguir, pelo menos, borregar.

Uma empresa que depois de tantos resultados positivos, vai somando prejuízos atrás de prejuízos, -- como vai acontecer novamente este ano, embora provavelmente menos do que os 35 milhões do ano passado -- que perdeu grande parte do mercado em regime de monopólio (só nas rotas liberalizadas são menos 50 mil passageiros), que deve 170 milhões à banca, que não consegue receber a tempo mais de 40 milhões da tutela, que tem que pagar 50 milhões de euros em salários todos os anos, que tem dificuldades em reestruturar os seus mais de mil colaboradores, não tem muitas hipóteses de lhe caírem as máscaras de oxigénio nesta queda livre.

E quando assim acontece, podem gritar «mayday», que o controlo na rádio escuta já não vai a tempo.

Crónica
A SATA entrou, há muito tempo, num poço de ar profundo e o retomar da rota não depende apenas da pilotagem da sua administração.
O poco de ar da SATA.doc
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