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rss  Vol. XIX - Nº 341         Montreal, QC, Canadá - domingo, 29 de Março de 2020
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Há boda na sanzala

Adelaide Vilela

Por Adelaide Vilela (texto e fotos)

É difícil acreditar que a autora destas linhas odeia ou detesta a terra que pisa. Bem pelo contrário, sempre me encantou a interculturalidade e a diversidade das coisas transformadas em valores do povo. As origens e os costumes interessam-me muito desde que haja boas relações de proximidade. Todos os povos têm a sua história através da qual podemos sair mais enriquecidos, interiormente, quando conseguimos aceitar as diferenças e partilhá-las com outros povos e até com as sociedades. Nunca fui racista na vida, nunca liguei ao facto daquele ou daquela serem de outra cor ou que prediquem outras religiões. E por ser assim, eu e o meu marido fomos padrinhos, debaixo de fogo, há quatro décadas, na igreja portuguesa de Vila Salazar. Lembram-se que lhes tinha prometido falar da boda e do batizado? Aqui estou para contar esta minha experiência agitada, aventura ou loucura. E uma vez mais o meu Vilela libertou amarras para me seguir, só que a boda na sanzala podia muito bem ter ditado o fim dos nossos dias.  

Mas não aconteceu e ainda estamos juntinhos e vivinhos da costa. O único senão, estamos mais velhos, mais impertinentes e mais rabugentos.

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Os noivos e a madrinha Adelaide Vilela, num casamento debaixo de fogo.

Era uma vez uma menina negra que chamava madrinha à sua patroa. Ora, eu considerava-a muito, e não a via como minha empregada doméstica, mas sim como uma bela amiga. Para abono da verdade éramos duas jovens na flor da idade. A tal menina, com a idade de 14 anos vivia em minha casa durante o dia e à noite dormia no apartamento da madrinha branca, que a tinha batizado. Maria adorava estar lá em casa, apesar de passar o dia sozinha. Eu trabalhava e estudava, regressando a casa à noite. O meu jovem esposo passava a vida na estrada, de cidade em cidade, ao volante de um camião carregado de cerveja local, arroz, fuba e outros mantimentos.

Em pouco tempo, os conflitos armados e os desentendimentos viriam a destabilizar toda a Nação angolana. Foi assim que tanto eu como todos os outros, brancos, negros ou mestiços vimos aproximar o perigo e com ele uma mudança radical para as nossas vidas. Ainda não acreditava que tudo seria diferente a partir daquela época.

Adelaide Sanzala NOIVA IMG_4715.JPG

Maria não gostava nada da verdadeira madrinha, alegava que era maltratada. Acredito que sim. O problema é que a dita Sra. era responsável por ela. A pobrezinha não tinha escolha, nem sequer podia viver com a amiga acolhedora que tão bem a recebia. Menor e órfã de mãe, o pai tinha-a abandonado após o enterro da mulher. A cultura simplista dos avós de Maria levou-os a acreditar que dando a menina à madrinha, ela teria uma vida melhor. Ao contrário, arranjaram lenha para a queimarem. Entretanto, os avós de Maria morrem e ela fica no mundo, só, triste, sem ninguém…

Alguns arautos defensores dos povos deviam ter passado um terço do que passou aquela pobre rapariga, penso agora em alguns dos que prepararam a independência de Angola sobre os joelhos. Com ideias anquilosantes, falta de dinâmica e de diálogo fizeram com que aquela terra linda, moderna e rica ficasse indiscutivelmente mais pobre. Felizmente que a guerra acabou e Angola está bem e em paz.  Não vamos por aqui, traz-me raiva e dissabores.

Uns tempos depois Maria apareceu-me em casa com o corpito cheio de feridas. A malfadada madrinha tinha-lhe dado uma grande sova. A mocinha engravidou, mas seria isso razão para tal desplante e malvadez? Claro que muitas vezes não sabemos por que razão as coisas são assim, mas neste caso suspeitamos que a menina buscou companhia e proteção masculina.  Não tinha mais que 15 anos quando foi mãe. A ansiedade e a dúvida da futura mamã levou-a a não voltar mais a casa da madrinha, alguns dias ficava connosco e outros no quarto do namorado.  Não levou muitos meses, logo a barriguita da Maria se encheu ficando a rebentar pelas costuras.

O noivo veio falar connosco e pareceu-me uma pessoa iluminada e responsável.  Muito preocupado com a sua Maria, referiu o casamento e convidou-nos para padrinhos deles e do bebé. Um mês depois estava tudo tratado e com grande sucesso. O único problema é que o vestido da noiva não lhe servia e foi à igreja com o mesmo, aberto nas costas.  A noiva estava muito inchada, mas isso não me preocupou, ela estava feliz e bem-disposta, a menina também chegou com saúde, nasceu 24 horas antes do casamento dos pais. Foi desta feita que eu e o meu Manuel António, fomos padrinhos dos nubentes e do neófito. À pequenina foi dado o nome de Inês Cláudia, levou também o nome de Adelaide Ramos e o apelido de Vilela, fora o dos pais. Nome comprido, tal qual o de uma princesa.   

No tempo em que hoje vivemos tudo é fácil, mas há 40 anos não era bem assim, sobretudo em tempos de guerra. O pai da Inesinha era professor de posto, vivia na cidade e dava aulas numa povoação perto da sanzala onde viviam os pais dele. E a nossa missão foi cumprida, fomos comer a boda debaixo de fogo. Evidentemente que pelas «picadas» (seja) veredas por onde passava o jipe ouviam-se vozes: «cuidado não façam fogo vêm aí os padrinhos brancos do professor Tonzo e da Maria». Eu possuía uma voz forte e tinha uma coragem para dar e vender, só que nesse dia, o meu sistema rendeu-se à fraqueza e a fragilidade humanas, e decidiu não estar mais em sincronia comigo, com a jovem valente de outras instâncias. Desatei a chorar, a cada vez que ouvia tiros, tinha medo de morrer no meio do mato cerrado ou de perder o meu marido e os meus afilhados. Sem cerimónia disse-lhes que tudo que sentia era emoção.

Meus amigos, quando chegamos ao destino havia uma mesa recheada de tudo quanto é bom. Dizem que a energia rural, a luz e as cores do campo fazem milagres, como de facto nunca mais me lembrei do tiroteio ou dos perigos que enfrentávamos. Ou não fosse eu um bom garfo!  Conversei cordialmente com os novos compadres enquanto o Vilela se deliciava com o vinho de palmeira.  A companhia agradou-nos, sem qualquer inibição ou receio, entretanto chegava a hora de regressar a Vila Salazar.

O casalinho regressou connosco e fomos escoltados por guerrilheiros da UNITA até à entrada da cidade. A guerra colonial intensificou-se pouco tempo depois, deixando a população exaltada e desprevenida. Já me criticaram por não ter levado os meus afilhados para Portugal, mas aquele apego à terra que os viu nascer fez com que rejeitassem o meu pedido. Curiosamente alguém me disse que tinham vindo noutro avião, alguns meses depois de nós. Deus queira que sim. A ocasião faz o homem, mas no gesto nasce a saudade, e essa ainda hoje perdura: onde andará a Inês Cláudia que veio ao mundo no ano de 1975?

Se eles me chamassem hoje, diria presente uma vez mais.

Concluindo, ainda não sei como consegui contar esta história aos meus leitores. Só as lágrimas silenciosas entendem a nudez da minha tristeza e a solidão da alma minha, ao ver morrer tanta gente que foge da guerra…   

Crónica
É difícil acreditar que a autora destas linhas odeia ou detesta a terra que pisa. Bem pelo contrário, sempre me encantou a interculturalidade e a diversidade das coisas transformadas em valores do povo. As origens e os costumes interessam-me muito desde que haja boas relações de proximidade. Todos os povos têm a sua história através da qual podemos sair mais enriquecidos, interiormente, quando conseguimos aceitar as diferenças e partilhá-las com outros povos e até com as sociedades.
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