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Eduíno de Jesus

– A propósito de um colóquio sobre ele na Universidade do Minho

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Na Universidade do Minho, tem lugar por estes dias um colóquio intitulado «Os Silos do Silêncio. Revisitando a Obra Poética de Eduíno de Jesus», organizado pela Professora Rosário Girão e com o a cooperação dos Estudantes de Licenciatura em Estudos Portugueses e Lusófonos, de Línguas Aplicadas, e de Línguas e Literaturas Europeias, bem como do Departamento de Estudos Românicos, do Instituto de Letras e Ciências Humanas e ainda da Casa dos Açores do Norte. Na impossibilidade de aceitar o convite para estar presente, enviei a mensagem que partilho com os eventuais leitores, por assim poder evocar publicamente a pessoa e a obra de uma das grandes figuras da cultura açoriana.

* * *

O meu bom amigo Eduíno de Jesus foi, durante décadas, uma voz interventiva, apreciada e respeitada no espaço cultural português. Escreveu centenas de artigos, longos estudos introdutórios a livros vários, redigiu um bom milhar de entradas de enciclopédia. Mas escreveu além disso poesia de grande mérito, se bem que tenha sido demasiado comedido no que deixou publicar até ao surgimento de Os Silos do Silêncio. No posfácio a esse livro (que lhe foi quase extorquido, por intervenção minha e, sobretudo, da Ana Maria Almeida Martins) escrevi já o que pensava sobre a sua poesia; não vou por isso repetir-me aqui.

Perfeccionista supremo, regressou ao quase silêncio editorial depois da publicação desse livro. Não porque não escreva, pois tem um incrível espólio no computador, mas porque nunca acha qualquer dos seus textos pronto para ser publicado. No livro de homenagem que coordenei com a Leonor Simas-Almeida – Eduíno de Jesus – a Ca(u)sa dos Açores em Lisboa – há um e-mail em que ele me dá conta do avanço na escrita de um texto. Depois de um dia de trabalho, perguntava-me o que eu achava do novo título. Fui ver. Apenas tinha acrescentado um ponto de interrogação.

Os amigos desesperam à espera dos seus textos. Ele faz conferências de duas horas, mas quando lhe pedem que passe o texto a escrito, é o passas. Deve-me ainda o texto da sua conferência de abertura de um colóquio na Brown em 1983! Fartei-me de lhe telefonar dos States a pedir-lho para as atas e a resposta foi sempre a prometer que sim, ia enviar. Por causa dele, elas só sairam em 1986. E sem o seu texto. A sua breve nota introdutória ao primeiro volume do diário do Fernando Aires, de quem ele era grande amigo e de cujo diário gostava deveras, nunca passou ao prefácio que o autor e os leitores esperavam.

Canso-me de ameaçá-lo que lhe vou roubar os escritos e publicá-los tal como estão. A começar pelo seu livro de ensaios que ganhou o prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escritores, no mesmo ano em que Luandino Vieira foi premiado. Como todos sabemos, a atribuição do prémio a Luandino levou ao encerramento da SPE e, depois disso, Eduíno nunca mais submeteu o seu manuscrito a publicação. Eternamente insatisfeito com o produto do seu trabalho, quer, por isso, o adiamento sine die. Tenho esses ensaios comigo e um dia publico-os assim mesmo, pois parecem-me em excelente forma.

Eduíno de Jesus escreveu também belos contos que parecem poemas em contidíssima prosa, trabalhos de filigrana em palavras que ele recorta e aplaina, lima e insiste em polir ao extremo, sem nunca dar o seu esforço por terminado a ponto de podermos vê-lo em página impressa.

Suspeito que descobriu uma entrada para o mundo da luz de Platão: experimentou a beleza na sua dimensão inefável e agora sente que nada iguala a beleza ideal que um dia contemplou, nem pode transmiti-la em plenitude. Por isso tem plena consciência de ser a arte com minúscula, a arte do mundo das sombras, da caverna platónica, uma palidíssima imagem da Arte autêntica. Daí ter optado pelo silêncio. Mas isso deixa-o com o efeito que os ingleses chamam de bottleneck. Só que levado ao extremo.

Ainda bem que temos Os Silos do Silêncio pois, quer Eduíno queira, quer não, falam-nos com uma eloquência que, se não nos permite adivinhar o que ficou lá dentro, nos deixa perceber que existe de facto nele o mundo inatingível sentido por um poeta que desistiu de o transmitir.

Crónica
Na Universidade do Minho, tem lugar por estes dias um colóquio intitulado «Os Silos do Silêncio. Revisitando a Obra Poética de Eduíno de Jesus», organizado pela Professora Rosário Girão e com o a cooperação dos Estudantes de Licenciatura em Estudos Portugueses e Lusófonos, de Línguas Aplicadas, e de Línguas e Literaturas Europeias, bem como do Departamento de Estudos Românicos, do Instituto de Letras e Ciências Humanas e ainda da Casa dos Açores do Norte. Na impossibilidade de aceitar o convite para estar presente, enviei a mensagem que partilho com os eventuais leitores, por assim poder evocar publicamente a pessoa e a obra de uma das grandes figuras da cultura açoriana.
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