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rss  Vol. XIX - Nº 341         Montreal, QC, Canadá - domingo, 29 de Março de 2020
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Editorial

Programa político ou show-business?

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Depois que o novo primeiro-ministro, Justin Trudeau, foi eleito, um certo número dos seus detratores compraz-se em denegrir a sua imagem pública, considerando-a demasiado «people», demasiado show-off.

Parece que a gota de água que fez transbordar o copo foi a fotografia que publicou a revista de moda «Vogue» onde ele aparece enlaçado à esposa, Sophie Grégoire-Trudeau, e que deu volta ao mundo e inflamou as redes sociais.

É verdade que a imagem que o nosso jovem primeiro-ministro projeta, sobretudo na imprensa internacional, é como se se tratasse duma estrela do show business. O que leva alguns dos seus adversários domésticos a considerá-lo como um lindo bibelot por fora e vazio por dentro.

Que os jornalistas do estrangeiro se apeguem apenas à imagem superficial que Justin Trudeau parece refletir, ça va de soi, o interesse primeiro daquela imprensa «people» é vender mais papel. Mas que jornalistas canadianos, e sobretudo quebequenses, continuem a dizer e a escrever que o novo dirigente canadiano tem falta de substância é algo difícil de compreender, se não fora a forte carga ideológica que tais comentários dificilmente escondem.

Sim porque os factos falam por si.

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Justin Trudeau com a esposa e dois dos seus três filhos.

Quando ele se apresentou pela primeira vez na política, como candidato do Partido Liberal do Canadá (PLC) pela circunscrição de Papineau, um bairro do leste francófono de Montreal, em vez de escolher um «bairro seguro» do oeste da ilha, daqueles onde se vota tradicionalmente a 99% nos liberais, deu provas que ele não receava os desafios, que antes pelo contrário os procurava. Os seus detratores, que então o deram por vencido logo à partida, foi à boca-pequena que aceitaram a sua vitória sem deixarem todavia de acrescentar nas suas costas que ele tinha beneficiado do voto étnico e do dinheiro, como sempre… É-lhes difícil aceitar que o homem tem um faro, um talento e uma perseverança que eles ignoram.

Aliás, esta classe jornalística da esquerda caviar do Plateau, que nos regala semanalmente nas emissões da France Bazzo TV, controla o mandarinato da Radio-Canada e bota sentenças no «Le Devoir», foi mesmo ao ponto de o ridicularizar quando ele se apresentou como candidato a líder do PLC. Pensam que eles se inclinaram quando a grande maioria dos militantes do PLC votou nele? Oh que não! Vá de achincalhar mais forte. Que o partido corria à sua perda. Que o melhor era fundirem-se com o Novo Partido Democrático do senhor Mulcair e assim por diante.

Pior ainda foi quando chegaram as eleições. Não houve gato-sapato, pelo menos aqui no Quebeque, que não lhe desse um terceiro lugar. Mesmo à boca das urnas eles insistiam na margem de erro das sondagens. Quando os resultados saem à rua, na noite eleitoral, com ele à frente dum governo maioritário, quase que a queixada lhes caiu aos pés.

Passado o primeiro estupor, vá de saírem com vaticínios, do género, como é que ele agora vai descalçar a bota? Como é que ele vai cumprir com todas as promessas eleitorais?

Mesmo quando na manhã seguinte à sua vitória ele resolve deslocar-se à estação de metro mais próxima para agradecer pessoalmente aos passageiros a confiança que os eleitores lhe tinham dado, para os habituais comentadores políticos tudo não passava duma manobra de relações públicas.

Quando o novo primeiro-ministro resolve inovar a tradição protocolar da tomada de posse na residência do Governador-Geral, a mesma classe não se cansava de afirmar que tudo aquilo era só areia para os olhos. «Where is the beef?» – perguntavam eles a salivar na expectativa do primeiro tropeço do jovem político.

Não obstante o facto de ele ter reafirmado no primeiro discurso do trono, nas suas diretivas ministeriais e mais tarde na apresentação do primeiro orçamento do Estado que ele confirmava todas as suas promessas eleitorais e de as começar a por em prática, a intelligentzia doméstica continuava a dar-lhe para baixo. Mesmo o facto de ter escolhido um gabinete paritário de homens e mulheres ministros foi motivo de crítica. Houve quem avançasse que ele tinha preferido a aparência de igualdade à competência. E assim por diante.

Claro que esta crítica constante é apenas o fruto duma leitura ideológica que em nada se baseia na análise da realidade, na apreensão do contexto em que Justin Trudeau tem evoluído e agora trabalha. Como dizia o filósofo canadiano dos meios de comunicação, Marshall McLuhan, a mensagem é o mídia. É isto que Justin Trudeau tem vindo a aplicar como forma de fazer avançar a sua agenda política. A sua visita, a altas horas da noite, ao aeroporto de Toronto para receber os primeiros refugiados da Síria, faz parte desse plano. Um plano que consiste a por em prática a célebre frase de seu pai – «just watch me». Só que na boca do jovem Trudeau, não há a pretensão de desafio, mas uma forma de dar o exemplo. De incitar a população a segui-lo, a abrir-se, a acolher o forasteiro, a trabalhar para uma sociedade mais generosa, mais justa e menos cínica.

Será que os seus detratores um dia o compreenderão ao seu justo valor?

Editorial
Depois que o novo primeiro-ministro, Justin Trudeau, foi eleito, um certo número dos seus detratores compraz-se em denegrir a sua imagem pública, considerando-a demasiado «people», demasiado show-off.
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