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rss  Vol. XIX - Nº 341         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020
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LusoPresse nos Açores...

Chá Gorreana:

Orgulho e otimismo na mais velha fábrica de chá da Europa

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

É quase um slogan, umas palavras repetidas muitas vezes em todos os guias turísticos: «a mais antiga fábrica de chá da Europa ainda em funcionamento». Mais ainda, o Chá Gorreana possui uma ligação histórica direta com os Chineses de Macau. Não foi preciso mais para que me dirigisse à Ribeira Grande para me encontrar com a família Mota.

Na plantação, o verde cintilante do panorama é idílico. As plantas de chá estendem-se em longos rolos apertados. Em pano de fundo, o azul do mar. Uma simetria de jardineiro a inspirar os poetas. Hortênsias em profusão. «Estamos muito contentes. Os turistas são mais numerosos e os negócios agora vão bem», diz-me Margarida Hintze-Mota num excelente inglês. Com efeito, um autocarro Varela acaba de despejar um contingente de turistas. Inquisidores, uns examinam uma venerável máquina inglesa da marca Marshall Sons & Co, enquanto que outros apreciam religiosamente a infusão milenária.

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Margarida Hintze-Mota e a sua filha mais velha Sara administram a empresa familiar desde o desaparecimento recente do homem de negocios que era Hermano Mota.
Foto Jules Nadeau - LusoPresse

Planificada desde há umas semanas, a entrevista torna-se particularmente simpática. A sua filha, Sara Mota, dá-me o prazer de me levar à intimidade da residência ancestral. Instalamo-nos a uma mesa quadrada com um pano verde – género mesa de mahjong chinês. O interior possui aliás um cachet oriental capaz de fazer inveja a um antiquário. «Tenho cinco filhos. Sara é a minha mais velha. Tenho quinze netos», continua Margarida Hintze-Mota acendendo um cigarro – e pedindo desculpa. A sexagenária é a viúva de Hermano Mota, que foi presidente da Câmara Municipal de Ribeira Grande. Sobre a mesa, uma fotografia do casal mostra a barba branca, à Hemingway, do chefe da empresa.

Dois Chineses de Macau

Segundo que a indispensável chuva se mostre generosa ou não, a Chá Gorreana produz de 30 a 40 toneladas de chá. Os 14 empregados a tempo inteiro fazem a colheita das preciosas folhas de abril a setembro. Numa superfície de 42 hectares de terra vulcânica, espaço limitado pela exiguidade da ilha. (O Jardim Botânico de Montreal ocupa 75 he.)

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E Macau no meio disto? Sempre agitada, ajustando os óculos, Margarida Hintze-Mota continua: «Dois Chineses vieram aqui em 1878 para nos ensinar esta técnica, porque não sabíamos como fazer. Viu a grande fotografia à entrada?» Sério como um papa, o honorífico mestre Lau-a-Pan exibe um leque de mandarim. Mais pequeno, mas igualmente com um ar de monge, o seu intérprete Lau-a-Teng posa como um subalterno dócil. Até ali não se tratava senão duma planta decorativa ou medicinal. Em 1883, foi fundada a Chá Gorreana por Hermelinda Pacheco Gago da Câmara, secundada pelo seu filho José Honorato. A patroa não elabora mais sobre a ligação Açores-China: «Nunca fui a Macau. Ainda tenho o sonho de lá ir!», confessa ela lançando um grande sorriso à filha.

O grande visionário por detrás desta façanha foi o grande apaixonado de botânica José do Canto (1820-1898), «grande proprietário açoriano e homem de cultura». O admirador de Camões apaixonou-se pela «transferência tecnológica» do chá. A sua tenacidade e a mobilização total da Sociedade Promotora de Agricultura Micaelense (SPAM) foram determinantes. No século passado, havia «mais de duas dezenas de produtores» neste lugar, donde um em nome do chefe de empresa José Bensaúde. Cultivar os arbustos importados do Brasil (provavelmente no princípio do século XIX) representava um desafio enorme para os ilhéus. Uma história que diz muito sobre o seu espírito de empreendedorismo.

Duas firmas de cinco gerações

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A minha esposa chinesa vem duma velha família de Hong Kong ocupada desde há cinco gerações no comércio dum reputado chá medicinal chamado Wong Lo Kut (Wang Lao Ji). A história das cinco gerações dos Motas interessa-me tanto como a seca e a fermentação das folhas do camellia sinensis. «O meu marido era bom nos negócios enquanto eu, é a cozinha e os jovens», ironiza ela com uma voz rouca acerca da personalidade em questão que marcou o destino da vila da costa setentrional. Margarida e Hermano casaram-se a 29 de dezembro de 1966 e o proprietário de 72 anos faleceu a 23 de novembro de 2013. Os cinco descendentes irão continuar a desenvolver a empresa?

Chá Gorreana comercializa cinco embalagens: verde Hysson, preto, orange pekoe, folhas partidas e, a pedido, o oolong (wulong ou dragão negro). «Nos anos 50, o chá de Moçambique era preferido ao nosso. Depois, a Revolução dos Cravos de 1974 não nos ajudou mesmo nada. Mas nos anos 80, graças a Deus, várias revistas começaram a escrever que o chá verde era bom para a saúde. As exportações para o continente, assim como para países como a França e a Alemanha, aumentaram muito, especifica a sexagenária martelando estes termos mágicos: «o mesmo processo de fabrico artesanal… produtos totalmente isentos de inseticidas, fungicidas, herbicidas, de corantes e de agentes de conservação».

O chá no mundo

Esta incursão no terreno exótico faz-me lembrar as minhas primeiras peregrinações às plantações de Muzha em Taiwan (antigamente Formosa, em português). Depois, na bela região de Hangzhou (Zhejiang) pelos aromas do Puits du dragon. Sem esquecer uma visita ao célebre restaurante Lu Yu, em Hong Kong, do nome do autor do Classique du thé (Cha Jing). A arte de viajar pelos aromas através dos séculos e dos continentes. Madame Hintze-Mota acrescenta uma nota pessoal: «Gosto muito do chai, o chá forte à indiana com especiarias: gengibre, canela, cardamomo, açúcar e um pouco de leite. De tempos a tempos. É diferente. Não todos os dias. Gosto muito!»

Portugal, país de chá? Honra lhe seja feita, recordemos que o jesuíta Jasper da Cruz foi o primeiro explorador a dissertar sobre o chá, em 1560, numa carta ao rei de Portugal. Chamado desde então chá, o termo chinês será mantido até aos nossos dias. (O outro termo, te ou thea, outro dialeto, explica-se pelas importações provenientes do Fujian). Surpreendentemente, antes deste religioso, Marco Polo não tinha falado no seu fabuloso Devisement du monde (apesar da sua estadia em Hangzhou). As primeiras menções à poção mágica remontam ao ano 2 700 antes da nossa era, na época do legendário imperador-agricultor Shen Nong.

No século XVI, da feitoria de Macau, as caravelas portuguesas encaminhavam os primeiros fardos para a elite de Lisboa. No século seguinte, a jovem princesa Catarina de Bragança casava-se com Carlos II e gabava as folhas de chá (e a marmelada) à realeza inglesa. Pelo caminho marítimo das Índias, os comerciantes holandeses e ingleses importavam navios inteiros. Os Franceses e os vizinhos do lado de lá do Reno também bebiam. Os Russos procuravam-no pela via terrestre. Mas com o andar do tempo, os Britânicos foram os que adotaram o chá com maior entusiasmo. Os Irlandeses no topo. Depois da água e muito à frente do café, é agora a bebida mais consumida em todo o mundo. Mas sempre sem nenhuma fábrica na Europa.

Chá Porto Formoso

Na boutique de lembranças cheia de visitantes – 300 por dia – Sara Mota e a sua irmã mais nova Madalena juntam-se aos representantes do LusoPresse. Sugiro chá verde para o nosso trio de jornalistas (eu, Anália Narciso e o nosso chefe de redação Norberto Aguiar). Muito simpática, Madalena conta-nos a sua viagem a Toronto. Gorreana é uma tal instituição que até mesmo os canado-açorianos podem dar testemunho. Em Montreal, Armando Arruda contou-me que o seu pai em tempos trabalhou lá: «Como sabia ler e escrever, ele contabilizava o rendimento de cada um», segundo o homem de Água de Pau. Um reformado de Gatineau, o Sr. Pacheco, foi aí empregado nove anos quando era jovem. O nativo da Maia (freguesia vizinha) fala-me com admiração da avó Mota, «nonagenária e em plena forma». Tenho pena de não me ter encontrado com ela.

Para juntar à nossa reportagem, perto da Gorreana, demos um salto rápido a Porto Formoso para ver a outra fábrica de chá de São Miguel. Ativa durante um século e meio, depois abandonada, a companhia foi reavivada em 2001. Chá Porto Formoso não produz anualmente senão de 12 a 14 toneladas numa superfície oito vezes menor que a de Gorreana. Consumo local somente; nada de exportação. Nós provamos com prazer uma chávena da melhor variedade oferecida, não de chá verde, mas do orange pekoe. «Produzido e embalado por Pacheco e Mendonça, Lda. Totalmente isento de aditivos.» Aqui os preços são mais modestos. A pequena firma ressuscitada também tem a função de ser museu com uma interessante exposição de antiguidades inglesas.

Uma aventura bem documentada

Nada pode substituir um inquérito feito no terreno, mas as pesquisas subsequentes fazem-nos descobrir uma formidável aventura socioeconómica. Uma homenagem à «criatividade, audácia e determinação» da SPAM e dos empresários da época. Em 2012, para uma exposição sobre a cultura do chá no Museu Carlos Machado, foi coligido por uma equipa de investigadores um magnífico catálogo ilustrado. Graças à cópia que nos foi amavelmente enviada pelo comissário Pedro Pascal, do Instituto Cultural de Ponta Delgada, aí pudemos encontrar os principais elementos históricos. A exposição veio encher o vazio deixado pelo efémero museu do chá constituído por D. Maria Mota que infelizmente não sobreviveu.

Impossível de aqui dar o crédito a todos os que tanto divulgaram a partir dos documentos existentes, como os da SPAM. Mesmo os jornais locais – Açoriano Oriental e A Persuasão – nos fornecem interessantes pormenores sobre os dois Chineses chegados a 5 de março de 1878 a bordo do navio Luso. Muito bem pagos segundo os termos do contrato, o mestre de chá, um «homem folgazão» que usava um rabo-de-cavalo manchu de mais de um metro, e o seu intérprete anglófono que se fazia chamar António. Por outro lado, o que é que se sabe dos arquivos de Macau? Dos arquivos familiares como os dos Bensaúde? Enfim, pergunto-me se as outras culturas – tabaco, laranja e ananás – foram objeto de pesquisas tão fascinantes. Para melhor compreender os Açores.

Açores
É quase um slogan, umas palavras repetidas muitas vezes em todos os guias turísticos: «a mais antiga fábrica de chá da Europa ainda em funcionamento». Mais ainda, o Chá Gorreana possui uma ligação histórica direta com os Chineses de Macau. Não foi preciso mais para que me dirigisse à Ribeira Grande para me encontrar com a família Mota.
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