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rss  Vol. XIX - Nº 340         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 05 de Junho de 2020
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Quão desastrosa vai a Terra…

Adelaide Vilela

Por Adelaide Vilela (texto e fotos)

Caros leitores, há tantos anos que tento escrever sobre o conflito armado em Angola – aquele País maravilha – onde passei uma parte da minha meninice e alguns anos de vida adulta. Nunca consegui… As lágrimas me afloram o rosto, queimam-me o coração que treme e parece querer sair da «caixinha vermelha e branca», do tórax, onde nasceu para viver, apesar da maldade do mundo. O conflito acima referido foi batizado ou designado por Guerra do Ultramar ou Guerra Colonial. Contava o meu amado pai, que já em 1961, logo no início do ano, Angola se tinha transformado num teatro de guerra principalmente na capital, Luanda, Quanza Norte, São Salvador, Malange, Uíge e Dembos. Com enorme tristeza (em seu rosto) proseguia, lamentando-se que de outras regiões chegavam notícias de ataques a fazendas e a roças de café. Falava com a voz embargada ao referir os muitos massacres, alguns que ele ainda observou. O meu pai trabalhava como mineiro para a Companhia do Manganês de Angola, na região de Salazar, ou Dalatando. Teve muito medo, pois dizia ter ouvido os negros, mais ousados, falar em movimentos de luta contra o colonialismo. Nessa altura dormia de arma em punho, para se defender a ele e aos seus companheiros, dentro das torvas na própria mina. Felizmente o meu paizinho sempre foi um cavalheiro leal, honesto e trabalhador, por isso nada lhe sucedeu. Ao contrário, os seus homens na tonga ganhavam força para defenderem o Sr. Ramos (por eles considerado) e outros brancos.

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Afinal, Salazar, o dito Ministro da Guerra mandou embarcar os soldados para o Ultramar e não conseguiu evitar um banho de sangue, durante tantos anos. Mas que raio de Portugal Ultramarino foi aquele que deixou morrer milhares de soldados, tantos dos seus filhos? Se Angola era considerada Portugal porque que deveriam os próprios irmãos, sem distinção de raça ou de cor, pegar em armas de luta como defesa? Lamentável, nunca entendi aquela guerra colonial que, em Angola, durou 30 anos.

Foi resistência ao regime, revolta ou vingança? Angola teria sido tomada de força aos africanos, na rota dos descobrimentos, em vez de ser partilhada com gentes de fé e de boa vontade? Não sei… Recordo apenas a marca deixada pela saudade daquelas terras morenas onde ficou a minha juventude, os meus familiares e os meus queridos amigos negros e brancos, que me roubaram para sempre. Em 1975, quando parti, perdi de tal maneira os horizontes que deixei secar mil fontes, quando tocou (de novo) a sineta da guerra. Quantas lágrimas meu Deus… Troquei a felicidade pelo sofrimento e pela saudade. Cada vez que me lembro que a minha Nação de fidalgos deixou cair por terra mares e mundos – todos conquistados por homens cercados e carregados de heroísmo – dá-me vontade de não mais falar a língua de Camões, dá-me ganas de esquecer Portugal. Depois, lembro-me da antiguidade e dos meus valores ancestrais e logo me vejo enamorada até das fragas milenaras daquele meu cantinho Lusitano.

Adelaide MARIDO e OUTRO IMG_4075.JPG

Mas neste capítulo, a realidade aponta os muitos inocentes que vivem e morrem em países de outras partidas do Planeta, porque não têm meios nem coragem para fugirem da guerra. Damos como exemplo a Síria, onde continuam a ser massacrados, crucificados e despojados dos seus lares, por causa de guerras desastrosas que se destacam em poleiros governamentais e nas televisões do mundo inteiro. Sustentando que têm sido políticas interesseiras e sujas estas guerras, aproveitamos para dar o maior grito de revolta, que nos aperta o peito há muitos anos. Como podem os países civilizados fornecer armas a terroristas, a assassinos e a ladrões. Não asseguram a vida de ninguém, o pior é que ainda a humilham e a desvalorizam fazendo fugir famílias inteiras por terra e mares. Ao mesmo tempo vão aparecendo mortos à beira das praias meninos com direito à vida, vão morrendo milhares de pessoas que fogem à guerra na busca de um teto com segurança, paz e amor.

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Por mais incrível que pareça o apego desumano pelas guerras movimenta milhares de sacas de dinheiro para que sejam comprados materiais de combate altamente destrutivos. Quem diria, que há alguns anos a esta parte, num mundo em que todos mandam textos através de um telemóvel, chegando (ao destino) num segundinho apenas, veríamos morrer tantas famílias afogadas e mortas de forme e de frio. Quem diria que nesta fase em que as novas tecnologias mudaram a face do mundo veríamos multidões de gente, entre fronteiras de arame farpado, tentando fugir da guerra desastrosa e da destruição massiva.

A guerra é de todos e não é de ninguém. Ou talvez seja de quem a ganha? A certeza porém, muitas vezes os governos entram em guerra porque desejam arrastar riquezas, poder e controlo sobre o outro, ainda que tenham que destruir e matar para que a imensidão do universo lhes pertença. São fátuos e hegemónicos porque querem vencer colocando os seus interesses acima dos valores sociais e humanos. São crápulas… ponto final.

Como nota de rodapé: um dia contarei aos nossos leitores a história de um casamento e de um batizado debaixo de fogo. É que a nossa menina, a Inês Cláudia, negrinha como o carvão e tão bela com uma flor, nasceu um dia antes do casamento dos pais, numa sanzala, nos arrabaldes de Salazar. Eu e o meu marido, jovens casados, fomos padrinhos dos noivos e da pequenina. Mas que importa a guerra se temos a proteção de Deus, pensámos nós. Ora bem, fomos até a sanzala comer a boda, sob um céu de balas, e que se quilhasse a guerra. Os dois belos loucos sobreviveram à aventura e aterraram em Montreal três anos depois, corria o não de 1978. Onde andarão a Inesinha e os pais? A seguir…

Crónica
Caros leitores, há tantos anos que tento escrever sobre o conflito armado em Angola – aquele País maravilha – onde passei uma parte da minha meninice e alguns anos de vida adulta. Nunca consegui… As lágrimas me afloram o rosto, queimam-me o coração que treme e parece querer sair da «caixinha vermelha e branca», do tórax, onde nasceu para viver, apesar da maldade do mundo. O conflito acima referido foi batizado ou designado por Guerra do Ultramar ou Guerra Colonial. .
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