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rss  Vol. XIX - Nº 340         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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Pedra de Toque

Ilha de Santa Catarina, Florianópolis

Arte Literária de Gilberto Gerlach

Por Lélia Pereira Nunes

Gilberto Gerlach se dedica de corpo e alma na aventura de perquirir o passado de Florianópolis. O resultado acaba de sair: Ilha de Santa Catarina, Florianópolis, dois volumes, setecentas e setenta e seis páginas ricamente ilustradas por quinhentas e cinquenta fotos, setenta e cinco pinturas e cento e dez desenhos, abraçando a Ilha desde fins do século XIX até a primeira metade do século XX. O marco inicial e cronológico da obra é o ano de 1894, quando a cidade deixa de ser Desterro e passa a ser Florianópolis em homenagem a Floriano Peixoto, o segundo presidente da república brasileira. Mas, 1894 também é símbolo de dor e indignação para toda uma geração de ilhéus que chora a memória dos mortos de Anhatomirim. O fuzilamento e enforcamento de quase duas centenas de ilustres catarinenses na Ilha de Anhatomirim em decorrência da revolução federalista no Sul do Brasil (1893-1895). O ponto final é o ano de 1930, marco político da história do Brasil. A revolução de 30, a rutura do processo democrático e o início da era Vargas. «Desterro morria pela segunda vez», escreve acertadamente Gerlach.

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O autor burila realidades com perspicácia e fina ironia entrecruzando fotografias, arte e literatura com o esmero de um artíficie. Busca exaustivamente, por todas as fontes possíveis e inimagináveis, a história cultural e social da nossa cidade de ontem a dialogar com o progresso que chega com a modernidade. O imenso olhar do esteta se revela na cuidadosa elaboração e seleção de textos em comunhão com a arte fotográfica, a arte plástica, o cinema sua grande paixão, os costumes e tradições de uma sociedade e sua efervescência cultural. Nada passa despercebido de seu olhar acurado e embevecido, alargado pelos cenários da Ilha e do continente em frente. Meio século de buscas, pesquisas e muita leitura. Não conheço outra pessoa que poderia ter feito melhor, com tamanho empenho, competência e brilho. Gilberto Gerlach reúne e organiza com mestria relatos de visitantes, descrições minuciosas, biografias e narrativas a emoldurar fotografias raras e inéditas – «uma iconografia poética», na sua definição e que são verdadeiras crônicas do tempo ilhéu.

Ilha de Santa Catarina, Florianópolis respira arte e técnica proveniente da intimidade de Gilberto com as artes visuais, o olhar arguto e sensível do fotógrafo e do conhecedor da sétima arte. A pintura, a fotografia, o desenho, postos em toda a sua magnitude, beleza iconográfica, dão a dimensão da relevância do estudo não como «ornamento» da escrita, mas como componente essencial da obra. A cidade de outrora revisitada no requinte da pena, no glamour do retrato, no bailar do pincel, no traço firme do lápis e na poesia derramada.

Na arte escrita de Gilberto Gerlach as palavras são esculpidas com elegância. Uma escrita espacial cheia de luminosidade, de aromas, de cromacias. Entretanto, uma crônica pontual, límpida, desnuda, sem adjetivar, apenas contando histórias cativantes ou fazendo a necessária crítica, deixando fluir os sentimentos do escritor como o indelével «Trocar de Nome» que prepara o leitor para o que ele irá encontrar ou descobrir nas páginas seguintes.

Deslumbrei nomes ícones da literatura e das artes. Altino Flores, Othon d’Eça, Virgílio Várzea, Oscar Rosas, Juvêncio Figueiredo, Eduardo Dias Martinho de Haro, Rodrigo de Haro, Albert Schwartz e Jorge Larco. Outros, anônimos e agora descobertos por seu talento investigativo, apaixonado, curioso. Adorei conhecer o cronista ilhéu Chico Perereca, morador do Sertão do Rio Tavares, que na década de 1910 publicava no jornal Época e que deixou-nos crônicas de uma irreverência deliciosa, cheias de malícia e humor. São incontáveis vozes de diferentes histórias, pensamentos e gerações que Gilberto Gerlach deu a conhecer de forma absoluta. Uma leitura fascinante a começar por «Cai o Pano» na expressão do artista poeta Rodrigo de Haro. Sente-se o pulsar de tudo e de todos. Histórias, reais e imaginárias, tout court significante a descortinar a memória coletiva, singular mundividência de outrora, de hoje e do amanhã deste « mundo-Ilha».

Caminho por paisagens estonteantes, pelas ruas de Florianópolis, a cidade que se alonga e abraça o continente fronteiriço em cenários onde se cruzam realidades e sonhos tecidos. Passeio sem pressa, em passo de procissão, descobrindo e indo ao encontro da nossa história cultural. Mergulho nos relatos de Virgílio Várzea como «O palácio do Rei Luiz» (Ludovic II da Baviera); «A Rua Trajano» de Altino Flores; as crônicas de Antônio Sbissa e «Festa na Freguezia da Trindade» – a Festa do Divino Espírito Santo de 1919, de Chico Perereca. Emociono-me ao ler a narrativa de Duarte Paranhos Schutel em «Junho 1894 – A Vila Maldita».

Surpreenda-se. Com as notícias dos jornais da época, os acontecimentos, a programação artística e cultural, o comércio e a indústria, as novidades que inundavam Florianópolis inaugurando uma nova era – a urbanização e os progressos que transformam a vida social e econômica da capital e a qualidade de vida da população como a canalização da água potável, luz elétrica e a inauguração da Ponte Hercílio Luz em 1926.

Entre suas páginas reencontrei lembranças da minha infância de filha de fotógrafo na riqueza de movimentos, na incidência da luz, rasgos de branco, de sépia. Na paisagem, nos retratos de estúdio, nas miniaturas delicadas. Uma beleza extraordinária na definição do gesto, na pose elegante e suave, na luz reveladora do rosto ou, ainda, nos cartões postais e nas Cartes de Visite. Os olhares dos fotógrafos Alberto Entres, Konrad Goedner, Antonio Pirajá Martins, Joseph Ruhland e, sobretudo, Julio Wojcikiewicz amigo e mestre de meu pai, que tive o privilégio de conhecer. O resultado é esta obra maravilhosa de Gilberto Gerlach, membro da Academia Catarinense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Uma obra há muito aguardada e chega com lufadas do Vento Sul, num sopro equóreo de espumas tal qual cantou o poeta Cruz e Sousa.

Bem haja!

Crónica
Gilberto Gerlach se dedica de corpo e alma na aventura de perquirir o passado de Florianópolis. O resultado acaba de sair: Ilha de Santa Catarina, Florianópolis, dois volumes, setecentas e setenta e seis páginas ricamente ilustradas por quinhentas e cinquenta fotos, setenta e cinco pinturas e cento e dez desenhos, abraçando a Ilha desde fins do século XIX até a primeira metade do século XX.
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