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rss  Vol. XIX - Nº 340         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 05 de Junho de 2020
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Uma conversa com o escritor Daniel de Sá

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

 

Nota: Em 2001 e 2002 mantive um programa semanal na RTP-Açores intitulado «Onésimo à conversa com…» com entrevistas a figuras açorianas e açorianófilas residentes tanto nos Açores como na diáspora. A série teve, a abrir, uma conversa com Daniel de Sá. Dionísio Sousa, amigo do escritor, está a preparar-lhe um livro de homenagem e decidiu incluir essa entrevista, que ele próprio se deu ao trabalho de transcrever na íntegra. É essa transcrição que aqui se publica, em segmentos por ser demasiado longa para sair numa única edição. Hoje apresentamos a terceira e última parte.

OTA

Onésimo - Vamos voltar à escrita de ficção. Mas depois tu atreves-te a fazer ensaios, como um com o título A Criação do Tempo e do Bem e do Mal. É Nietzsche do Para Além do Bem e do mal.

Foste atrevido...

Daniel - Não sei se fui atrevido. Eu escrevi para mim mesmo. Sempre tive a mania de pensar. Desde pequenino.

Onésimo - É perigoso.

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Daniel de Sá

Daniel - Pois é. Era mesmo criança. Lembro-me de pensar em coisas terríveis. Era muito miúdo. Bastante criança. Que iria acabar o petróleo, qualquer dia haveria tantas pessoas no mundo que já não cabiam. Ainda não tinha ouvido falar do malthusianismo nem nada que se parecesse. É como no exercício físico que faz desenvolver os músculos. O pensar faz desenvolver aquela inteligência que todos temos. De maneira que sou um vulgar de Lineu a tentar pensar para mim mesmo, a tentar resolver os meus próprios problemas, que ficaram na mesma insolúveis e irresolutos.

Fiquei satisfeito, porque fiz uma tentativa de chegar ao cume do Evereste, embora não tenha passado, sei lá...

Onésimo - Tiveste outra aventura, outra incursão atrevida: E Deus Teve Medo de Ser Homem.

Daniel - Mas aí há duas coisas. Há o fascínio que tenho pela figura de Cristo-homem, sem ter em conta se é ou não filho de Deus, independentemente do fator religioso. Tenho esse fascínio enorme pela figura humana de Cristo.

E tenho, ao mesmo tempo, um fascínio enorme pela cultura judaica, desde a antiguidade até aos nossos dias. E a admiração imensa pelo judeu mais conhecido que é Jesus Cristo. O livro nasce dessas duas componentes, de Jesus-homem, mas rigorosamente o homem, independentemente do Deus em que, como cristão, acredito. E juntei os dois naquela parábola – que não passa de uma parábola – de Auschwitz e que não é preciso identificar nem adjetivá-la.

Onésimo - Aliás começas o E Deus Teve Medo de Ser Homem com uma epígrafe. Tens uma história judaica logo no início.

Daniel - Exatamente.

Onésimo - Tens uma epígrafe muito interessante. Lembras-te da história?

Daniel - Ajuda-me, se te lembras melhor.

É sobre a noite e o dia. Uma parábola muito pequenina. Um professor que pergunta aos alunos: Quando é que começa a ser noite? Um diz: É quando o sol se põe. Outro: É quando aparece a primeira estrela. O professor diz que não. É quando ele não vê em cada homem um amigo. Creio que é mais ou menos assim.

Onésimo - Quando começa a ver em cada homem um amigo.

Daniel - Estamos a misturar tudo. É quando é que começa o dia. Quando nasce o sol, quando desaparece a última estrela. Então, o professor diz: – É quando o homem começa a ver em cada homem um amigo.

Onésimo - Aliás, é muito judaica. E esta é muito judaica e muito americana. O padre católico, o pastor protestante, e o rabino, estão a discutir para saber quando é que a vida começa. O padre toma a posição tradicional: É no momento da conceção. O pastor protestante, muito liberal, diz que é no momento do nascimento. O rabino diz: – Não, é quando o meu último filho vai para a Universidade.

Daniel - Já agora… Não sei se tenho ainda tempo… Para te consolar a ti, que tens o complexo de não saber música, não saber cantar.

Onésimo - Gostava de cantar.

Daniel - Vou-te contar uma história muito interessante, quando estive nos combonianos em Espanha. Fui ajudar um pároco, numa paróquia perto de Valência. Ninguém cantava naquela igreja. E eu tinha pena daquilo. Cheguei a pensar num discurso para dizer ao D. Francisco – o homem a quem dedico E Deus Teve Medo de Ser Homem: «Não tenho jeito para ensinar a cantar, mas o D. Francisco se calhar ainda é pior do que eu. Se quiser, ensino aí umas cantigas aos velhinhos». Foi o discurso que pensei, mas tive vergonha de lhe dizer.

Dois ou três dias depois, o homem diz-me que estava um bocado aborrecido, porque o seu orfeão tinha sido convidado para ir cantar à Polónia, mas só tinha quatro sopranos. Era maestro. Professor de música na Universidade de Valência. E era esse homem que eu queria ensinar a cantar. Todos temos os nossos casos.

Onésimo - Cá está. O nosso orgulho aí cai pela base, quando nos acontecem coisas dessas.

Escrevi no final de um destes dois livros – E Deus Teve Medo de Ser Homem ou A Criação do Tempo, do Bem e do Mal) – «interessante maneira de pensar, muito pessoal e independente».

É uma das coisas muito curiosas. Tu estás ali na Maia. O nosso primeiro encontro, estava eu no Seminário… foi eu a defender o evolucionismo e tu a tomar uma posição conservadora.

Daniel - Sim.

Onésimo - E tens uma maneira de pensar tão pessoal. Tudo aquilo passa pelo crivo da tua reflexão pessoal e tens posições que não são necessariamente heterodoxas, mas não são muito ortodoxas.

Como é que te situas perante tudo isso?

Daniel - Dou justificações a mim mesmo. Tudo o que tento explicar aos outros é o que tento explicar a mim próprio. Não tento resolver os problemas aos outros, mas ter resposta para mim próprio. Estou a pensar para mim. Quem aderir, aderiu. Quem não aderir, paciência. Não podemos esperar que todos adiram às nossas ideias. Mesmo se estás a pensar na relação com a hierarquia católica, com o que está definido moralmente, mesmo sobre este aspeto, nós só somos responsáveis apenas perante a nossa consciência. E só o que a nossa consciência nos diz o que é bem ou mal é que é bem ou mal, teologicamente falando, moralmente falando, como tu quiseres. Não me preocupa minimamente. Procuro, não é bem, não ser atrevido. Não gosto de afrontar ninguém directamente. Mas gosto de ser eu a pensar. Tudo o que eu disser é o que eu penso. Não faço favores a ninguém.

Onésimo - Essa independência é de facto notável.

Outra coisa curiosa é tu escreveres ensaios e não perderes o fio, esse lado de escritor. Trouxe uma citação extraordinária do E Deus Teve Medo de Ser Homem, sobre a memória: «Porque a memória é que torna possível a prevalência do sofrimento. Como um amigo uma vez dissera: Esquecido, é como se nunca tivesse existido».

É uma belíssima frase.

Daniel - Vê lá. Quando é que começaste a existir? Nós todos temos menos dois ou três anos de vida, não nos lembramos desses anos. Só começamos a existir quando temos uma certa memória de nós mesmos que nos dá a individualidade.

Há pessoas que perdem a memória. Há casos clínicos. Pessoas com 10, 15, 20 anos com perdas de memória em semi-coma, podem viver até aos cem anos, mas só viveram trinta. Essas pessoas não chegam a viver: A memória é que nos faz viver.

Onésimo - O tempo está a passar, disseram-nos que está a acabar.

As Duas Cruzes do Império – outra incursão, outra aventura extraordinária, porque na pele do Padre António Vieira.

Daniel - É engraçado. Vou resumir: Vieira é uma pessoa por quem tenho uma admiração enorme e uma curiosidade enorme, desde os quatro ou cinco anos. Minha irmã, que já andava na escola, falou do Padre António Vieira. E eu perguntei quem era?

Era um padre, mas não sabia explicar-me. Perguntei:

Mas, minha mãe conheceu o Padre António Vieira? E ela: Conheci. Foi meu vizinho.

Onésimo - Mas era mentira…

Daniel - É a única virtude que reconheço em mim é não ser mentiroso. Fiquei desesperado. Mas fiquei sempre com aquele eco do António Vieira. E há anos que tinha o gosto imenso de tentar imitar um sermão do Padre António Vieira. Já houve pessoas que o confundiram com um sermão autêntico do Padre António Vieira.

Onésimo - Gostaria de pegar aqui em mais uns textos, mas vamos terminar.

Tu estás na Maia. Hoje um livro, se não tem ninguém a promovê-lo, não tem grandes possibilidades. Tens cartas de Fernando Namora, de Vergílio Ferreira. Tens um leitor atentíssimo no Brasil, o Luiz António Assis Brasil…

Daniel - Tenho-te a ti na América.

Onésimo - Eu só faço isso por velha amizade... Um leitor, um crítico, às vezes mauzinho, o Fernando Venâncio, tem escrito coisas simpatiquíssimas sobre os teus ensaios. Até o padre Victor Melícias escreveu. Escreves só para ti, ou pensas neles?

Daniel - Sim, mas também agora foste pôr em público o que o Fernando Venâncio me escreveu… O Onésimo é muito amigo do Fernando Venâncio… Depois pede-lhe desculpa, se achares que deves pedir desculpa.

Onésimo - Esses leitores. Escreves só para ti, ou também escreves para eles?

Daniel - Tu é que me aconselhaste a enviar o livro ao Fernando Venâncio. Quando ofereço um livro, é a pessoas de quem gosto de conhecer o pensamento. E o Fernando Venâncio é dos escritores que mais admiro, em termos de qualidade de escrita e pensamento.

Onésimo - Vamos terminar. Estás na Maia. A Maia não é uma ilha grande fechada. É uma ilha pequena aberta. Afinal, não é preciso sair da Maia para se estar no mundo todo. Não é preciso sair da Maia para se ser universal.

Daniel - E fica entendido que o meio caminho entre Providence e a Maia é a Ribeira Grande.

Onésimo - Muito bem. Obrigado por teres vindo até aqui. Sei que é um enorme acontecimento tu vires à Ribeira Grande. Era impossível levarmos-te a Ponta Delgada.

Sou um leitor assíduo, fiel, e só gostava de chamar a atenção dos telespectadores para o escritor. Um escritor que tem, ao longo destes anos, acumulado uma obra invulgar, de um nível de reflexão pessoal, com uma qualidade de escrita extraordinária. Se mais não ficasse desta conversa do que uma vontade de as pessoas irem às livrarias procurar um livro do Daniel... A única coisa que posso dizer é que experimentem e, já agora, comecem pelo Sobre a Verdade das Coisas. É fácil de começar, porque depois de se começar se vai aos outros.

Daniel - Posso acabar num instante. Só gostava de dizer que eu é que devia estar aí. Entre nós, não há elogios. E costumo te definir quase como irmão.

Onésimo - Não vamos cair naquela dos dois compadres – As pessoas mais importantes da minha freguesia são duas. Uma é o meu compadre; a outra, diga lá o meu compadre quem é.

Obrigado, por teres vindo até aqui.

Regressa à Maia. Mereces uma sesta.

Telespectadores, amigos, até ao próximo programa.

Obrigado por terem estado connosco.

(Entrevista realizada em janeiro de 2001 para abrir a série «Onésimo à conversa com…», iniciada nesse mês na RTP-Açores, e reemitida em 27 de maio de 2013).

Entrevista
Nota: Em 2001 e 2002 mantive um programa semanal na RTP-Açores intitulado «Onésimo à conversa com…» com entrevistas a figuras açorianas e açorianófilas residentes tanto nos Açores como na diáspora. A série teve, a abrir, uma conversa com Daniel de Sá. Dionísio Sousa, amigo do escritor, está a preparar-lhe um livro de homenagem e decidiu incluir essa entrevista, que ele próprio se deu ao trabalho de transcrever na íntegra. É essa transcrição que aqui se publica, em segmentos por ser demasiado longa para sair numa única edição. Hoje apresentamos a terceira e última parte.
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