logo
rss  Vol. XIX - Nº 339         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 10 de Julho de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Padre Júlio da Rosa – breve In Memoriam

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Do Faial chegou a notícia do falecimento do Padre Júlio da Rosa. Não tendo ninguém a quem expressar pêsames, escrevi aos amigos uma nota que, por sugestão de alguns, agora alargo em In Memoriam.

Devo ao Padre Júlio ter-me levado ao outro lado do arquipélago numa altura em que tal viagem era impensável para um jovem de S. Miguel, o que, por sua vez, será algo incompreensível para a rapaziada de hoje. Ele tinha estado em Ponta Delgada participando na IV Semana de Estudos, em 1965, estava eu nas férias grandes do meu 7º ano do Seminário de Angra, 11º ano nos nossos dias. Conversámos muito. Melhor: falava ele, que eu era quase só ouvidos. Verde de anos e de experiência, pouco ou nada tinha a dizer. A dada altura, quis que lhe ouvisse ler um artigo seu sugerindo fazer-se da igreja do Colégio um Museu de Arte Sacra. Publicou-o depois no então diário Açores, hoje Açoriano Oriental.

Falou-me sempre muito do Faial e Pico, insistindo no meu dever de me familiarizar com aquele lado do arquipélago, e convidou-me a ir passar uma semana em sua casa. Fui no verão seguinte, terminado o ano letivo. Segui da Terceira rumo à Horta no iate «Terra Alta», creio, para sete dias de deslumbramento com uma dimensão insular que apenas sabia de ouvido e de fotografia, para além de conhecer gente dali oriunda, meus professores e colegas no Seminário de Angra, na altura o único espaço nos Açores verdadeiramente arquipelágico. Foi deveras um abrir de olhos para um arquipélago mais vasto, pois eu nunca saíra ainda do triângulo S. Miguel, Santa Maria e Terceira. Passeou-me na ilha toda, ensinou-me imenso sobre a história da dupla Pico-Faial e fez questão de me apresentar à gente da Horta mais interessada nas andanças culturais.

Num domingo levou-me a mim e a mais alguns amigos à Festa de S. João, na Caldeira, e incentivou-me a participar num concurso de quadras patrocinado pelo Núcleo Cultural da Horta. Garatujei uma meia-dúzia, todas atrevidas para a época, se bem que hoje soem ingenuamente inofensivas. Recordo-me de uma delas:

S. João quando novinho

Veio à festa da Caldeira.

Nunca tinha visto vinho,

Cantou pela noite inteira.

Aproveitei a oportunidade para dar um salto ao Pico, onde conheci a família do José Gabriel Ávila e mais o Padre Xavier Madruga, pois havia já dois anos que eu colaborava no semanário O Dever, dirigido por ele. Primeiro enviara umas crónicas do Seminário, depois uma série de artigos sobre literatura e, posteriormente, mantive a página «Amanhã Somos Nós», de parceria com o José Gabriel.

O Pico foi outro alargar do meu horizonte açórico. Não resisto a acrescentar um àparte: o Padre Júlio nunca mais se lembrou do dinheiro para o bilhete de barco do meu regresso (era só até Angra, pois já tinha a passagem de lá para S. Miguel) e tive vergonha de lho recordar. Telefonei para o Pico ao José Gabriel Ávila a pedir-lhe o socorro de 90 escudos emprestados (era o preço da viagem Horta-Angra), que ele de imediato me enviou por vale telegráfico. Comprei a passagem e parti então, sem o Padre Júlio se aperceber sequer do acontecido. Chegado a S. Miguel, remeti um vale ao José Gabriel a pagar-lhe a dívida. Mas isso foi um pequeno incidente, que só contei ao Padre Júlio no final da sua vida, quando uma vez nos sentámos à mesma mesa, numa das sessões dos belos colóquios «O Faial e a Periferia Açoriana» – promovidos pelo Núcleo Cultural da Horta e realizados naquela cidade, todavia com a preocupação de o último dia ter sempre lugar numa ilha da periferia faialense. Fiquei para sempre grato ao P.e Júlio pela sua extrema amabilidade e hospitalidade, e por me ter tratado como um adulto, quando eu não passava ainda de um fedelho de 18 anos.

Voltámos a encontrar-nos várias vezes e eu visitava-o quando parava na Horta. Estive com ele aqui na Nova Inglaterra, continuando a aprender sobre a história das suas amadas ilhas do Oeste. Foi, porém, aquela generosa semana a ficar-me para o resto da vida colada à sua imagem.

Sobre a sua sugestão acerca do Museu de Arte Sacra, que lhe poderia eu então dizer? Nada, a não ser que me parecia muito bem. Confesso ter-me sentido deslumbrado logo no meu primeiro ano do Seminário Menor, ao contemplar aquele espetacular retábulo da capela-mor. Já nessa altura me causava pena o seu estado de abandono, feito viveiro de pombas que desinibidamente salpicavam aquelas belas formas barrocas (só mais tarde vim a saber que eram isso), mas nunca poderia ter-me ocorrido a hipótese de sugerir a salvação de tal obra de arte transformando-a em museu. A verdade é que ela ficou no ar, ou antes, na cabeça de alguém, ou caiu à terra e, com a abundante chuva açoriana, acabou por germinar. Contudo nunca vi, nem ouvi ou li ninguém fazer justiça atribuindo a ele, Padre Júlio da Rosa, a proposta original. Bastará, no entanto, uma busca no jornal Açores daquele verão de 1965 para o confirmar (li-o depois de publicado).

Fica então agora, com esta minha nota de saudade e de agradecimento público ao Padre Júlio pelo que de consciência açoriana plantou na mente de um jovem, também este registo sobre a sua paternidade da ideia do hoje magnífico Museu de Arte Sacra que Ponta Delgada garbosamente exibe.

Crónica
Do Faial chegou a notícia do falecimento do Padre Júlio da Rosa. Não tendo ninguém a quem expressar pêsames, escrevi aos amigos uma nota que, por sugestão de alguns, agora alargo em In Memoriam.
Padre Julio.doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020