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rss  Vol. XIX - Nº 339         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 30 de Março de 2020
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Naveguei em teatros de guerra

Adelaide Vilela

Por Adelaide Vilela (Textos e fotos)

Caros leitores, cada pessoa tem maneiras e formas de viver, de crer, de ser e de singrar, no entanto deve assumir-se que na vida todos somos diferentes. A minha exuberância e intranquilidade, desde pequena, é um querer saber se a evolução dos tempos no mundo chega a todos os lados, a todos os lares. Será um defeito ou uma qualidade? Para mim é o melhor ensaio, porque sou capaz de refletir sobre a solidariedade e a justiça para tentar encontrar a cada dia o caminho para a paz. Ao mesmo tempo sou uma aventureira curiosa e, por causa deste facto, arrisco muitas vezes a vida para honrar os meus compromissos. Já não é a primeira vez que arrasto o meu marido comigo, contando com a sua participação e apoio para cada causa que desejo defender. No mês de agosto de 1975 quase perdemos a vida, tivemos uma arma de fogo apontada ao peito, com capacidade para destruir massivamente uma casa. No início da nossa vida de casados, a cidade onde vivíamos foi baleada e saqueada, eu tinha 20 anos e o meu Vilela vinte e seis. Refugiamo-nos no quartel militar, em Salazar.

Adelaide SALAZAR militar IMG_4066.JPG

O fogo cruzado levou todos os habitantes da cidade a fugirem de suas casas. Acontece que a alimentação começou a rarear… As crianças choravam de fome e os pais enchiam um ribeiro com as lágrimas que brotavam do rosto. Foi nesse ponto que, feita louca e, armada em guerreira, agarrara no braço do meu marido, sob ameaça que o deixaria, caso ele não fosse comigo à Loja do Povo encher um camião de provisões. Pobre Manuel, não teve outro remédio se não fazer a vontade à sua jovem amada. Assim, abarrotou o camião de cerveja, farinhas, leite, pão, bolachas, ovos, conservas e outros mantimentos. De barriga e olhos fartos, partimos contentes rumo ao quartel. Pela estrada fora encontramos alguns negros armados que nos ameaçaram de morte caso voltássemos a sair do refúgio: «Tudo o que for branco, porco, galinha ou gente, todos morrem… Os meninos têm que ficar quietos até deixaram a minha terra», disse o guerrilheiro. Hoje sinto carinho pelo jovem armado, apesar de me ter apontado uma bazuca ao peito. Ao chegarmos ao destino, o meu marido ia mais branco do que a cal, e retorquiu: «mais vale um cobarde vivo que um herói morto».

Contando com a participação dos militares, resolvi cozinhar com deles. Todos me conheciam pois eu levava-lhes doçaria tradicional ao quartel e outros bens, em dias de festa. E um dia assumi o desafio de trazer para nossa casa um jovem em profunda depressão. Tratei dele como se fosse meu irmão. O pai deste militar tinha falecido vítima de envenenamento, morto pela amante. Quantos fizemos felizes ao contribuir para que alguns passassem bons momentos, e vivessem com menos sofrimento a saudade… estavam contrafeitos a muitas milhas de distância das famílias. E quantas vezes preguei os botões das camisas aos que precisavam de namoriscar ou de conquistar algumas garotas.

Ora, no dia em que descarregamos os produtos alimentícios, no armazém militar, o furriel de serviço na cozinha permitiu que eu lhes mostrasse os meus dotes culinários, assim ajudaria a matar a fome ao povo. Começamos por estrelar ovos para um grande número de pessoas, foram mais de 500, entre outras refeições. Dali fui para o armazém ajudar a distribuir leite, bolachas e farinhas às mães que tivessem filhos pequenos. Alguns dias depois, mesmo correndo o risco de ser expulsa do meu refúgio, enlouqueci o comandante… entrei pelo seu gabinete adentro e disse-lhe: se o Sr. não tem tomates ponha uns de chumbo e despache-se a proteger as nossas casas e os nossos bens, pois daqui do alto podemos observar o poder popular a carregar com tudo o que nos custou a ganhar. Se o Sr. não se despachar pego numa G3, visto um camuflado, e meto-me num carro do exército com os seus homens. Iremos pela cidade fora tentar salvar os nossos bens, já que o Sr. é um sem ninguém. Saiba o meu cobarde: já tenho muita gente comigo. Antes, porém, se o Sr. não se despachar, acabo consigo e nem vai ter tempo de suspirar. Uf… eu tinha apenas 20 anos, e já nessa altura tinha grande sentido de justiça.

Dois dias depois soubemos que o comandante abandonou o quartel, de helicóptero, com a mulher e a filha. Se ainda viver, peço-lhe mil vezes perdão meu comandante. Não valia a pena, ninguém voltou a ver as suas casas, nem o recheio que as asseava. Apenas eu, armada em aventureira corajosa, fui à descoberta da cidade fantasma. Consegui chegar a minha casa com 4 militares e um amigo nosso, e trouxemos roupas, loiças e bibelôs. E até o meu carro rolou agarrado ao do exército, porque não tinha a bataria carregada. Por mais estranho que pareça, ao subir as escadas do prédio, três das quatro casas haviam sido saqueadas e à minha porta estava guardada por soldados de raça negra, portanto nunca demos a mão o partido algum. Talvez, devido à minha sensibilidade, e respeito pelo próximo, tive a vida salva e os meus bens resguardados, graças a Deus. Nada me faltou, roubaram apenas um relógio de marca, e vim a saber que foi levado pelo tal civil, um «tal» que se dizia grande amigo.

Eu saúdo a todos quantos estiveram comigo naquela Terra linda que foi nossa. E a todos os militares que trouxeram o recheio da minha casa, na última coluna militar para Luanda, transportando depois os caixotes no derradeiro barco para Lisboa. E agradeço a Deus pela Sua proteção total, ao longo dos anos. Também devo uma palavra de apreço ao povo Angolano. Bem-haja! Ora, se tive ajuda e apoio durante os conflitos armados, creio que se deve também a estas capacidades de entender com amor, as dificuldades; creio que se deve, de igual modo, aos métodos empregues para ir ao encontro do próximo, sem ter que condicionar a minha vida ou a deles.

Hoje ficamos por aqui. Como nota de rodapé gostaria de acrescentar, que ao regressar a Portugal eu e o meu marido fomos recebidos na estação de São Bento, no Porto, pelos tais militares de Salazar. Reuniram-se, em grande número, e foram esperar-nos. Depois ver para crer, carregaram-nos aos ombros pela estação fora. A festa terminou em Famalicão, num restaurante que dava por nome A FARMÁCIA. Nunca mais voltamos a ver aqueles benditos militares. Que saudade…

Esta história não podia ter chegado ao fim. Mas sinto o coração prestes a explodir. Entendam, são memórias e saudades que apaixonam e já têm mais de 40 anos. O que não deixa de ser encanto e maravilha voltar a viver aqueles momentos felizes ou conturbados, por ter navegado em teatro de guerra de mãos dadas com gente de boa vontade.

Crónica
Caros leitores, cada pessoa tem maneiras e formas de viver, de crer, de ser e de singrar, no entanto deve assumir-se que na vida todos somos diferentes. A minha exuberância e intranquilidade, desde pequena, é um querer saber se a evolução dos tempos no mundo chega a todos os lados, a todos os lares. Será um defeito ou uma qualidade? Para mim é o melhor ensaio, porque sou capaz de refletir sobre a solidariedade e a justiça para tentar encontrar a cada dia o caminho para a paz.
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