logo
rss  Vol. XIX - Nº 339         Montreal, QC, Canadá - sábado, 22 de Fevereiro de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Editorial

Nova religião

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Todas as religiões monoteístas foram criadas a um dado momento crítico da história dum povo por um profeta, ou seja, aquele que procura adivinhar o futuro, para responder a uma interrogação existencial e social da sua época.

Assim, para os judeus, foi Moisés, o profeta que os libertou da escravidão do Egito e lhes ditou o livro da sua conduta espiritual e social, a Tora.

Para os cristãos, foi Jesus, o Cristo, o Messias, o profeta que perante os desvios e desvarios dos doutores da religião hebraica, condenados à escravidão pelo império romano, veio prometer-lhes um novo reino, dar-lhes uma nova esperança. Curiosamente, este ensinamento quase que foi de todo ignorado pelo seu próprio povo, o judaico, mas foi seguido por quase todos os outros povos submetidos ao jugo dos romanos.

Para os muçulmanos foi Maomé, o profeta que procurou dar uma coesão, um sentido à vida espiritual e social dos povos do deserto que viviam como nómadas que eram muitos deles, em constante dilema sobre a pregação dos judeus e dos cristãos, por um lado, e as tradições tribais, politeístas e patriarcais por outro.

Maomé, nos primeiros anos do seu ensino, procurou inspirar-se dos antigos profetas judaicos e cristãos e insistindo em que a sua nova religião vinha substituir as duas antigas religiões que se tinham tornado idólatras, o judaísmo e o cristianismo, donde toda a representação de deus e do profeta ser totalmente interdita na religião muçulmana.

Como a nova religião trazia uma nova unidade cultural e espiritual aos povos daquela área do Médio Oriente onde nasceu, a adesão aos princípios de Maomé alastraram-se rapidamente. Mas como sempre acontece, houve grupos sociais e étnicos para quem os novos preceitos religiosos faziam perder as regalias de que tradicionalmente usufruíam, o novo profeta decidiu então utilizar uma linguagem mais guerreira nas suas pregações, indo ao ponto de mandar matar todos os que não se submetessem à nova religião. A segunda fase da expansão do império muçulmano foi assim feita pelo fio da espada.

Após a morte do profeta, no ano 632 da nossa era, levantou-se inevitavelmente a questão da sua sucessão. Para uns, os xiitas, o novo dirigente espiritual devia ser Ali, o primo e genro de Maomé, dando assim preferência à linhagem do sangue. Para outros, os sunitas, o novo dirigente devia ser Abou Bakr, um fiel e piedoso seguidor do profeta que defendia um regresso às tradições tribais.

A grande maioria dos muçulmanos preferiu aderir ao grupo de Abou Bakr que se torna assim no primeiro califa do mundo árabe-muçulmano. Mas os xiitas não desistiram de seguir a linhagem do profeta, embora a descendência tenha sido interrompida por uma série de assassinatos. De tal modo que o xiismo hoje acredita que um descendente de Ali se encontra escondido algures e que um dia virá, como o nosso D. Sebastião, para dirigir a comunidade xiita, concentrada sobretudo no Irão.

A coexistência entre estas duas fações da religião muçulmana nunca foi muita pacífica e tem sido marcada por uma sucessão de guerras de religião.

Com a queda do Império Otomano, após a Primeira Guerra Mundial, vimos a partilha do mundo muçulmano numa miríade de estados que pouco ou nada tinha a ver com os grupos étnicos e religiosos que ocupavam o território. As novas fronteiras foram traçadas artificialmente segundo os interesses económicos e logísticos dos vencedores.

Com a Guerra-fria que se sucedeu ao final da Segunda Grande Guerra, os países do Médio Oriente muçulmano viveram numa certa tranquilidade, sob a bota de ditadores apoiados pelo Ocidente.

Com a queda do Muro de Berlim os ditadores dos países muçulmanos sentem-se ameaçados e criam estados ditatoriais brutais para se manterem no poder.

Estão assim criadas as condições para a criação de uma nova religião. A religião do mártir, do soldado que quer morrer pela sua causa, sabendo que tem o céu garantido e 72 virgens lá à sua espera. É o que está escrito na segunda parte do Alcorão, na parte mais guerreira e controversa dos ensinamentos do profeta Maomé.

O que é que ensina a nova religião? Que se deve restabelecer o califado sunita original. Que para isso é preciso expulsar daquele território – parte do Iraque e da Síria, – todos os xiitas, todos os cristãos e judeus. Que para tal se deve matar todos os infiéis, sobretudo os que ocuparam ou estão a ocupar militarmente a terra do Islão. Que todo o mal que for feito nos países do Ocidente nunca chegará para compensar todo o mal que os europeus e americanos têm feito aos muçulmanos.

É uma religião territorial e de vingança. Uma religião que não procura catequizar, mas doutrinar para fazer novos soldados de Alá. E, tal como as outras religiões precedentes, promete um mundo melhor, mais justo, mais puro. Infelizmente muitos jovens, sobretudo de cultura islâmica, do Ocidente, que vivem na pobreza e no ostracismo das sociedades de acolhimento, encontram nesta nova religião uma valorização pessoal, uma finalidade para uma vida vazia de senso.

A grande vantagem desta nova religião é que pode recrutar novos soldados de Alá em todo o mundo. Os seus pregadores nem precisam de andar de terra em terra, como no tempo de Moisés, de Jesus ou de Maomé. Têm a Internet.

Editorial
Todas as religiões monoteístas foram criadas a um dado momento crítico da história dum povo por um profeta, ou seja, aquele que procura adivinhar o futuro, para responder a uma interrogação existencial e social da sua época.
Editorial.doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020