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rss  Vol. XIX - Nº 339         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 09 de Julho de 2020
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Uma conversa com o escritor Daniel de Sá

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

 

Nota: Em 2001e 2002 mantive um programa semanal na RTP-Açores intitulado «Onésimo à conversa com…» com entrevistas a figuras açorianas e açorianófilas residentes tanto nos Açores como na diáspora. A série teve, a abrir, uma conversa com Daniel de Sá. Dionísio Sousa, amigo do escritor, está a preparar-lhe um livro de homenagem e decidiu incluir essa entrevista, que ele próprio se deu ao trabalho de transcrever na íntegra. É essa transcrição que aqui se publica, em segmentos por ser demasiado longa para sair numa única edição. Hoje apresentamos a segunda parte.

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Daniel Sá

O. T. A.

 

Onésimo - Há uma coisa interessantíssima na tua obra. Tu estás na Maia, mas estás num mundo imenso. E é isso que na tua obra é extremamente interessante.

Fala-me da tua ilha grande fechada.

Daniel - Só uma coisa. Talvez esteja no mundo todo, precisamente por estar na Maia. Se eu corresse tanto mundo como tu corres (tu estás no mundo todo à mesma, nesse sentido cultural), mas eu talvez tenha a necessidade de abranger o mundo todo, para compensar um pouco o estar na Maia.

A Ilha Grande Fechada tem uma coisa interessante. Aquilo foi feito a partir de um título. Não sei se é muito comum. O título é de um quadro do Tomaz Vieira, de quem sou muito amigo e admirador. Gostei tanto do quadro e do título, que resolvi pensar num romance para aquele título. O romance nasce rigorosamente do título, Ilha Grande Fechada. Há o homem que emigra. A imagem do romeiro que fecha a ilha no circuito da romaria.

Embarca naquela frase que tu citaste e melhoraste...

Sair da ilha é a pior maneira...

Onésimo - Não melhorei. É outro ponto de vista. Tu achavas e achas que tenho uma visão muito romântica da ilha. Tu dizias: «Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela», e disse-te: se calhar é a melhor maneira de ficar nela.

Daniel - E o que tu disseste ficou tanto no ouvido que já não estava a dizer o que eu tinha escrito, mas a dizer o que tu plagiaste.

Onésimo - O João de Melo tem um texto que eu o cito como do João de Melo e, afinal, era meu: Os Açores: lugar de pouca terra e muito mar. E um dia fui descobrir que era meu e eu andava a citar o João de Melo, e afinal era meu.

Daniel - E afinal não é teu nem do João de Melo. É meu. Isso é anterior ao João de Melo e anterior a ti. Eram os artigos que escrevia de sátira no jornal, nos anos oitenta, contra o Dr. João Bosco: A brincar, porque tenho amizade e consideração por ele.

Chamava-lhe D. João Zero, rei de muito mar e pouca terra. E prosseguia o título, imitando o D. Manuel e até D. Afonso V, um título muito comprido que incluía Algeciras e aquelas terras todas espanholas de que já não me lembro o nome.

Onésimo - A tua ilha grande fechada não é fechada. A tua ilha é aberta? Daniel - A minha ilha é aberta. Sabes que, muitas vezes, combatemos o que não somos. Qualquer pessoa que combate a imoralidade é porque, pelo menos, pensa que não é imoral. Muitas vezes fazemos as coisas que não somos. Quando combato a ilha fechada é precisamente porque estou convencido que não estou fechado nela. O escritor normalmente vai contra aquelas coisas que ele usufrui mas que os outros não usufruem.

Quem nos está a ouvir deve-nos ter percebido.

Onésimo - Sou do Pico da Pedra, mas percebo algumas coisas.

Daniel - Sim, sim.

Onésimo - É o único defeito do Daniel. É não ser do Pico da Pedra. Ninguém pode ser perfeito.

Daniel - O único defeito é achar que não é defeito o não ser de lá.

Onésimo - Nessa altura que andavas a publicar essas coisas da ilha grande fechada, tiveste um papel muito importante e muito interessante. Ali, na Maia. Tu e mais um grupo de gente da Maia. Honra seja que colaborou contigo. Foi a Balada. Que foi um foco de atividade cultural aqui em São Miguel. E depois, foi lá que muita gente se reuniu e que hoje está muito em contacto, mas ali se conheceu, naqueles encontros.

Como é que nasceram?

Daniel - Nasceu muito simplesmente de uma conversa com o Afonso Quental. Dissemos: Vamos fazer aqui um encontro de escritores. Se não tivermos ajudas de ninguém, fazemos com os que estão em São Miguel. Se nos ajudarem um bocadinho, fazemos com os das outras ilhas. Se nos ajudarem mais ainda, fazemos com os que estão no continente português. Se nos ajudarem mais ainda, fazemos com os que estão no estrangeiro.

A ideia nasceu assim. Não tive qualquer dificuldade em apoios. Do Governo Regional, da Câmara Municipal, de empresas particulares. Os apoios sobravam em relação às necessidades. Sabes que os nossos amigos Duarte Mendes e o João Martins com um simples telefonema resolviam tudo. A tua passagem, e tu vinhas; o Norberto Ávila vinha; o Manuel Machado vinha da Noruega.

Talvez um pouco inspirado nas jornadas literárias que tinham sido feitas aqui em Ponta Delgada.

Onésimo - Aqui na Ribeira Grande foram as primeiras.

Daniel - Sim. Nessas coisas não há geração espontânea. Quem fez as coisas não fui eu. Tive apenas a ideia de fazer. E fiz, no sentido de juntar vocês lá. Mas aquilo foi muito bonito, porque se juntavam as pessoas.

Onésimo - Nessa altura, a Maia era uma… ilha pequena aberta?

Daniel - Exato. Tenho uma pessoa que sei que vai fazer parte desta série, que é um dos amantes dos encontros de escritores da Maia e nosso amigo comum. É o Dr. José Guilherme Reis Leite. De vez em quando fala-me daqueles encontros da Maia.

Onésimo - Por que é que isto se fechou?

Daniel - Fechou-se porque as coisas têm um tempo exato de acontecer. Além disso, o Afonso deixou de ser o dono do Solar de Lalém. Agora é um casal de alemães que é dono daquilo.

Depois nasceu a ideia de se fazer noutras ilhas. Já se fez na Terceira. Já se fez em São Jorge. Também é interessante que se faça nas outras ilhas. Embora tenha sido o pai da ideia, não tenho direito nenhum à paternidade registada na filiação dos encontros. Qualquer um o pode fazer, porque não registei o nome nem nada.

Onésimo - Voltamos aos teus livros. Vou falar de um livro que tem um peso especial, a Crónica do Despovoamento das Ilhas. Primeiro, aquilo só é possível porque tu andaste aí a catar imensa informação.

Daniel - Tanta, que tu pensavas que parecia que eu tinha inventado a maior parte dela, mas era rigorosamente verdade. Ainda me criticaste: – Estás a inventar coisas e que depois um tipo cita como se fosse verdade. E é tudo rigorosamente verdade. Exceto aquilo que eu digo explicitamente que é ficção. Foi um livro de que gostei. Mas deu trabalho. Mas também uma coisa que não dá trabalho, não dá tanto gosto. Tive de juntar informações do Gaspar Frutuoso com cartas régias contidas no Arquivo dos Açores. Além disso, também gosto de imitar a linguagem de quinhentos e de seiscentos. Entrar naquele estilo mais ou menos ao ritmo daquela época. É bonito ter a obra completa com um bocadinho de esforço.

Onésimo - O estilo, apanhaste-o:

«Na grande felicidade em que estava nem via como a vida se encurtava nela, porque os dias eram horas bem pequenas e assim de tão breve ser cada um, breve a vida ia ficando».

Repito: «Na grande felicidade em que estava, nem via como a vida se encurtava nela, porque os dias eram horas bem pequenas e assim de tão breve ser cada um, breve a vida ia ficando».

A cadência, o ritmo, tudo isto...

Além da informação tu foste beber...

Daniel - Isto dito por ti até parece que está bem escrito.

Não tens aí mais um bocadinho para ler?

Onésimo - Tenho. Aliás, antes de vir para cá, fiz fotocópias das páginas e isto está sublinhado da primeira leitura. Da carta de Inês da Cunha:

«Foi meu pai tão contrário a esse amor, que me fechou em casa como em prisão de condenado à força. Dizendo que antes queria ver-me mui triste por uns dias do que desgraçada a vida inteira. Minha mãe não podia consolar-me, ainda que quisesse e ela não queria. Por me achar tão pecadora com ele só de pensar nele que nem Madalena, Senhor, terá sido tanto. Mas tive artes por uma noite de exprimir o amor que em ardências tais nos faz mais cegos do que os olhos sem olhos e mais sem nada ouvir do que os surdos completamente. De fugir da minha prisão e abrigada nos braços dele escondendo tanto dos meus pais que mal me lembro dos caminhos andados em loucura tão doce. Só sabendo de mim nessa fuga que foi ela feita como em voo de uma carroça puxada por dois cavalos muito fortes até Aveiro, onde embarcámos para Lisboa. Daí tomámos rumo para a vila de Ponta Delgada, na caravela Medina. Parecia estar a ver o corpo de Deus connosco que nos deu tão bom vento de nordeste que em seis dias avistámos Santa Maria e ao outro de manhã chegámos ao destino da viagem».

Quem escreve assim não é gago.

Daniel - Está bem. Realmente não sou gago. Às vezes fazem esta observação, de imitar o estilo da época. Acho que é um bocado fácil. É um processo fácil. Pelo menos para mim resulta-me fácil. É um pouco como os pintores que são capazes de imitar um Greco. Sou capaz de imitar quem tenha escrita muito marcada. A escrita dos cronistas de quinhentos. Se reparares no ritmo, faz lembrar o ritmo da Menina e Moça. Pego no ritmo e tenho uma certa facilidade de repeti-lo.

Os pintores mais fáceis de imitar são, por exemplo, um El Greco, um Van Gog, um Picasso, muito característicos. O pintor academista que não tem nada de especial, talvez não seja tão fácil de imitar. É fácil identificar um texto com uma época, embora não seja rigorosamente igual aos da época. A sonoridade, o ritmo faz de facto lembrar.

Onésimo - Dizeres que é muito fácil fazer é como o Eusébio a explicar como é que marcou um golo: O tipo passou-me a bola, dali da ponta direita, vi a baliza aberta, dei-lhe de cabeça e meti golo. É o gago a dizer assim: Isso, isso... é mui.. mui...to fá…fácil pa ... ara tu ...tu dizeres.

Daniel - Pois bem. Se queres, é difícil. Confesso que digo sem o tal orgulho que todos temos. Realmente é assim. Tenho uma certa facilidade em escrever... Por exemplo, o Bartolomeu. Tive uma pessoa que dizia que eu tinha levado dois anos a fazer aquilo. Afinal, foram não sei se 4 ou 5 semanas. Porque depois de apanhar o ritmo... Aliás, também naquela altura ainda conseguia fazer serão até às cinco da manhã a trabalhar.

Onésimo - Descontando as sestas.

Daniel - Sim.

Onésimo - Vamos voltar à escrita de ficção. Mas depois tu atreves-te a fazer ensaios, como um com o título A Criação do Tempo e do Bem e do Mal. É Nietzsche do Para Além do Bem e do Mal.

Foste atrevido...

Daniel - Não sei se fui atrevido. Eu escrevi para mim mesmo. Sempre tive a mania de pensar. Desde pequenino.

Onésimo - É perigoso.

Daniel - Pois é. Era mesmo criança. Lembro-me de pensar em coisas terríveis. Era muito miúdo. Bastante criança. Que iria acabar o petróleo, qualquer dia haveria tantas pessoas no mundo que já não cabiam. Ainda não tinha ouvido falar do malthusianismo nem nada que se parecesse. É como no exercício físico que faz desenvolver os músculos. O pensar faz desenvolver aquela inteligência que todos temos. De maneira que sou um vulgar de Lineu a tentar pensar para mim mesmo, a tentar resolver os meus próprios problemas, que ficaram na mesma insolúveis e irresolutos.

Fiquei satisfeito, porque fiz uma tentativa de chegar ao cume do Evereste, embora não tenha passado, sei lá... Continua próximo número.

Crónica
Nota: Em 2001e 2002 mantive um programa semanal na RTP-Açores intitulado «Onésimo à conversa com…» com entrevistas a figuras açorianas e açorianófilas residentes tanto nos Açores como na diáspora. A série teve, a abrir, uma conversa com Daniel de Sá. Dionísio Sousa, amigo do escritor, está a preparar-lhe um livro de homenagem e decidiu incluir essa entrevista, que ele próprio se deu ao trabalho de transcrever na íntegra. É essa transcrição que aqui se publica, em segmentos por ser demasiado longa para sair numa única edição. Hoje apresentamos a segunda parte.
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