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rss  Vol. XIX - Nº 339         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 07 de Julho de 2020
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Catarina, a grande

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Vai fazer 220 anos que uma mulher que aspirava ao poder, a todo o custo, no Império Russo, conspirou de tal maneira que conseguiu mesmo depor o czar Pedro III... que era seu marido.

Chamava-se Catarina, como nome de guerra, mas tinha nascido como Sofia.

A dupla personalidade já prenunciava um reinado déspota, com base na permanente conspiração política.

Não sei se é virtude ou defeito das Catarinas, mas dois séculos depois temos outra que aceitou conspirar com um líder derrotado, levá-lo ao poder e depois, como se verá, aplicar-lhe o haraquiri da praxe para recolher os restos de um partido que se vai esfrangalhar em menos de uma legislatura.

Não há volta a dar: a Catarina de hoje não tem nada a ver com António Costa, mas é ela que vai mandar no governo minoritário do PS.

Catarina Martins já obteve três vitórias desde as eleições de 4 de outubro: convenceu o PS a ser o principal «andarilho» da deriva à esquerda, arrastou consigo um PCP apanhado de surpresa e não fará parte de um governo que sabe ter os dias contados.

O sucesso do governo de António Costa seria a morte eleitoral dos dois parceiros à esquerda.

A ironia é que o líder do PS, apesar de conseguir o que pretende – a sua sobrevivência a todo o custo – vai ser «engolido» no primeiro desentendimento em qualquer orçamento.

Quem beneficiará com isso, obviamente, será o seu parceiro «parasita» (termo utilizado por António Costa para acusar o Bloco de Esquerda, em 28 de fevereiro de 2015, durante o Congresso do PS que reelegeu José Sócrates).

Ao recusar participar no governo de António Costa, os dois parceiros adensam o golpe de mestre, porque no dia do fracasso do governo do PS, Catarina vai lavar as mãos e Jerónimo, mais uma vez, fará o mesmo por arrasto.

Foi ela que mais apareceu, nestas últimas semanas, a anunciar os pormenores do acordo à esquerda, tudo medidas benéficas para os eleitores, deixando para o parceiro as explicações sobre onde irá procurar receitas para equilibrar a devolução de salários, pensões e desagravamentos fiscais.

Até o facto do acordo não ser um documento único, mas três acordos separados, é outra capitulação do PS, porque desobriga os restantes a um apoio em bloco, com cada um a reivindicar uma estratégia própria e sem dependências de outros.

Catarina Martins não vai deixar de protestar sempre que discordar de António Costa, porque é isso que, paulatinamente, a permitirá trazer para o Bloco o eleitorado desiludido da esquerda do PS.

O Bloco de Esquerda é «um partido de protesto e não está preocupado com o país», para além de estar «num concurso de sectarismo», e isto «não é uma forma construtiva de estar na política; há quem esteja na política para vociferar, para estar na frente das manifestações».

O que vai entre aspas não é da minha autoria.

Foi proferido por António Costa, antes das eleições, em resposta a Catarina Martins, que num Fórum TSF recusou uma coligação com o PS...

João Semedo, então um dos líderes do Bloco, já tinha reforçado na última Convenção do partido que «o BE não será o CDS do PS de António Costa».

Como se vê, muita coisa terá mudado em António Costa, porque o BE vai manter-se igual, dando apoio parlamentar ao governo do PS, é certo, mas fugindo dele a sete pés ao primeiro fracasso.

Teremos, assim, um Primeiro-Ministro curvado perante três acordos diferentes, até que um deles entenda que estão criadas as condições para retirar o tapete ao PS e resgatar os votos dos socialistas desiludidos.

O problema é que, nesse dia, haverá outro resgate.

E na linha da frente dos protestos contra a vinda, mais uma vez, da troika, lá estará em primeiro plano: Catarina, a grande.

Crónica
Vai fazer 220 anos que uma mulher que aspirava ao poder, a todo o custo, no Império Russo, conspirou de tal maneira que conseguiu mesmo depor o czar Pedro III... que era seu marido.
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