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rss  Vol. XIX - Nº 336         Montreal, QC, Canadá - sábado, 22 de Fevereiro de 2020
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Editorial

Votar, para quê?

Carlos de Jesus

Carlos de Jesus

Por vezes temos a impressão que o nosso voto pouco ou nada conta. Que votar ou não votar é irrelevante. Que à partida os jogos estão feitos. Isto é, que a escolha não somos nós que a fazemos.

Não há nada mais falso. Pensar que o nosso voto não tem peso é como pensar que não é uma gota de chuva que faz transbordar o ribeiro. A prova, foram as últimas eleições. Lembram-se? Ninguém pensava que o Bloc Québécois sofresse uma tão grande derrota. E afinal sofreu. Porquê? Porque muitos e muitos eleitores se convenceram que a política federal canadiana merecia melhor sorte e que o tempo de apoiar um partido que nada pode fazer senão falar, tinha chegado ao fim. Sim, para que serve um partido cuja ação se resume a falar, a protestar, a vilipendiar sem jamais poder agir?

Se acreditarmos nas últimas sondagens que vieram a lume nos últimos dias, o Bloc Québécois (BQ), de mãos dadas com os Conservadores que eles juram, mão no peito, quererem derrotar – nunca se viu tanta hipocrisia – tiraram alguns pontos de benefício graças à história da muçulmana que participou na cerimónia da cidadania vestida do véu islâmico integral (niqab), o mesmo é dizer de cara tapada.

Ora, para quem segue a política federal sabe muito bem que este episódio foi programado pelo Partido Conservador (PC) para conquistar os votos daqueles que só seguem a política dos slogans, dos títulos dos jornais e das linhas abertas. Dos desprevenidos.

Como dizia a chefe do Parti Vert no debate dos chefes em francês, o que é que o niqab vem fazer no debate quando há assuntos mais importantes a tratar?

É evidente que muita gente tem receio da religião muçulmana e que para a grande maioria dos eleitores o véu islâmico integral mete medo. Compreende-se. Num país civilizado nenhum cidadão devia abusar do direito às suas convicções religiosas ou outras para andar de cara tapada. Num país civilizado espera-se que toda a gente ande de cara ao léu. Mas, no caso presente, estamos a falar duma mulher entre milhares que receberam a cidadania canadiana. Alguma pobre mulher daquelas bandas do Afeganistão onde os costumes ancestrais de há milénios, vão levar séculos a mudar.

É muito provável que muitas mulheres muçulmanas, algumas com cursos superiores, andem de lenço na cabeça como arma ideológica. Como forma de banalizar a religião de Maomé e de se poderem dedicar ao proselitismo.

Stephen Harper e os seus estrategas estavam muito conscientes do trunfo que este falso problema lhes ia dar e foi por isso que deixaram a questão arrastar-se até aos tribunais por razões absolutamente falsas. Se eles quisessem ter imposto o juramento da cidadania com a cara destapada deviam ter feito uma lei nesse sentido a tempo e horas. Assim, deixaram que uma decisão administrativa (e não uma lei, sublinhe-se), fosse contestada em tribunal para fazerem deste inócuo incidente um cavalo de batalha. «Jamais direi à minha filha que uma mulher deve esconder o rosto» faz parte do seu slogan da campanha eleitoral.

E foi assim que o PC, coadjuvado pelo BQ, orquestrou esta armadilha para apanhar o voto dos desprevenidos.

Apesar deste incidente ter ocupado tantos debates e isso ter feito aumentar as intenções de voto nas sondagens ao PC, a verdade é que os três principais partidos, no conjunto do Canadá estão empatados.

Se esta tendência se mantiver, vamos ter um governo minoritário. Seja ele conservador, liberal ou democrata.

No fundo é uma boa coisa. Embora a tradição política canadiana não esteja muito inclinada para os governos de coligação, o país e os eleitores teriam tudo a ganhar com este cenário. Porquê? Porque o partido no Governo e os partidos na Oposição teriam de se acomodar ao programa de uns e dos outros para tornarem o governo viável, o mesmo é dizer que os eleitores iriam finalmente ter consciência de que o seu voto teve algum valor.

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Por vezes temos a impressão que o nosso voto pouco ou nada conta. Que votar ou não votar é irrelevante. Que à partida os jogos estão feitos. Isto é, que a escolha não somos nós que a fazemos.
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