logo
rss  Vol. XIX - Nº 336         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Alma do Lugar

Por Lélia Pereira Nunes

Quando da passagem do músico, cantor e realizador Zeca Medeiros por Florianópolis para a exibição do seu filme «O Livreiro de Santiago» e do documentário «Partilha – O Império de João do Bom», do produtor Tiago Rosas nesta breve digressão por terras do Chile e Brasil, uma observação do carismático e talentoso artista dita lá no «Rancho Açoriano», Ribeirão da Ilha, deixou-me encasquetada – «Lélia, será que os açorianos fazem ideia do que significa a tal herança açoriana na Ilha de Santa Catarina? Do seu passado ao seu presente?» Talvez, as palavras textuais do Zeca não tenham sido exatamente estas. Mas, o sentido era este. Respondi na lata e sem hesitar: – Acredito que sim. Por todos, ilhéus dos Açores e das comunidades da diáspora, que aqui já estiveram, seja em breve visita oficial, participando de colóquios, apresentando-se em filarmônicas, grupos folclóricos ou apenas «turistando». Anos a fio de ir e vir.

Lélia DSC06915.JPG

Não sei se a minha resposta soou convicta porque as pessoas enxergam o que querem e nem todos percebem o cerne, a identidade que anima nossa Ilha de Santa Catarina desde o século XVIII. Sim, falei anima do latim, significando essência, vida, energia e alma. Pronto, eis o que de facto dá significado e nos identifica enquanto povo: a ALMA e, por ela, já brandia o Brigadeiro José da Silva Paes, primeiro governador da Província de Santa Catarina, em suas longas cartas ao Rei –«[...] eu me não posso escuzar de reprezentar a V. Magestade que todas estas prevenções e obras, sem gente que as guarnessa, e juntamente povoe, e cultive as terras, são corpos sem alma» (PIAZZA,W.F,1992:60).

A alma do lugar que espelha os sentimentos de pertença dos moradores que, de forma consciente ou não, carregam no seu jeito de ser, de estar, de bem viver e que nesta tessitura de renda fina configura a identidade cultural da cidade – a cara de Florianópolis e da Ilha de Santa Catarina, humorada e irreverente, com tantas ilhas dentro de si.

Para o ilhéu Arante José Monteiro Filho, o Arantinho do Pântano do Sul, lá no extremo sul da Ilha, a alma do lugar está bem ali diante daquele marzão azul com ondas a quebrar na areia molhada, enquanto na vigia olhos cansados procuram a mancha prateada a cintilar, alertando os pescadores que hoje tem arrastão, que tem peixe de corso bailando no mar. Está na Festa do Divino Espírito Santo vivida intensamente por toda a comunidade desde o «tirar a Bandeira» na coleta de prendas, doações e a oferta de fitas de promessas que são atadas no mastro até a festa. É quando realizam as cerimônias religiosas e os rituais tradicionais: as novenas do Divino, o almoço partilhado em agradecimento à abundância no mar e à fartura na mesa; a procissão da Corte Imperial da casa do Mordomo à Igreja para a Missa da Coroação e o «tirar as sortes» do próximo ano; a entrega das alfaias do Divino ao novo Casal Imperador. Tudo isso acompanhado dos dobrados da centenária Banda Musical de Amor à Arte e da cantoria dos Foliões a enunciar os passos do ritual da solene celebração. Defensor da cultura ilhoa, o Arantinho conhece bem as tradições vivenciadas no Arraial do Pântano do Sul. Seus pais, o pescador Arante José e dona Osmarina Maria Monteiro, no ano de 2003, fizeram a Festa do Divino e o irmão, também pescador, Amarante Arante José Monteiro e sua mulher, Anadir Ramos Monteiro, neste ano de 2015, pela segunda vez, assumiram idêntico compromisso.

Lelia DSC06930.JPG

A Segunda-Feira do Espírito Santo, conhecida por «Segunda-Feira da Pombinha», é o Dia dos Açores – instituído para celebrar a Autonomia e a consagração da identidade açoriana, conforme Decreto Regional de 21/8/1980. Na Ilha de Santa Catarina, a Festa do Espírito Santo é o símbolo maior dessa herança que nos identifica. Nas palavras do Arantinho, o pensar dos moradores do Pântano do Sul: «A Festa do Divino Espírito Santo é a realização do nosso povo. Ela ultrapassa os limites geográficos dos santos paroquiais, ela engloba toda gente numa festa só porque ela é a alma do lugar».

Sem jactância, estou convencida que «alma açoriana», ancorada nesta esquina das Ilhas, é o fundamento da nossa identidade cultural. O que me faz lembrar a visita que fiz ao artista plástico João Otávio Neves Filho – o Janga, morador ilustre da encantadora Santo Antônio de Lisboa, situada na costa ocidental e uma das mais antigas póvoas da Ilha de Santa Catarina. Ali preserva-se a história no traçado bonito da bucólica freguesia pesqueira, fundada em 1753, tendo o centenário casario debruçado sobre a baía pontilhada de barcos, aberta como uma toalha rendilhada de bilros no vaivém manhoso de suas ondas.

Pois, o Janga é um artista por inteiro. Faz e vive Arte com «A» maiúsculo. Pintor, desenhista, crítico de arte e «revolucionário». Ilhéu. Muito jovem levantou voo e buscou outros horizontes além da linha do mar que espiava da Praia de Fora. Estudou Belas Artes em Porto Alegre. Andou por São Paulo. Curtiu o Rio de Janeiro e resolveu que era o momento de regressar. Anos setenta. A Ilha de Santa Catarina fervilhava de novidades e de gente chegando de todos os lados. Tempos modernos. A provinciana Florianópolis urbanizara e crescia desordenada, sem freio, menosprezando a cultura local. «A especulação imobiliária empurrava o «manezinho ilhéu» para longe da sua praia dando vez aos prédios e condomínios «miamizados» que nada tem a ver com a nossa cultura ibérica», recorda Janga sem esconder a angústia sentida pela ameaça da perda de identidade cultural local, o que parecia inexorável.

Surge uma intensa movimentação cultural e política sacudindo as freguesias de Santo Antônio de Lisboa, Cacupé e Sambaqui, um movimento de resistência e valorização das tradições da Ilha denominado Mão-de-Pilão. No mesmo processo nasce a Associação do Bairro de Sambaqui (ABS), o grupo de Boi de Mamão de Sambaqui e a Associação de Moradores de Santo Antônio de Lisboa (Amsal), mudando completamente o perfil da região que passou a ser reduto de artistas e intelectuais, local de grande agito cultural.

O irrequieto Janga queria mais, muito mais. Queria mostrar a alma do lugar que parecia acuada. Assim, a 13 de junho de 1985, dia de Santo Antônio, nascia o Centro Cultural Casa Açoriana Artes & Tramóias com a ideia de juntar os artistas locais, os artesãos, os ceramistas, os escultores, os escritores para dar visibilidade à «alma do lugar», a identidade cultural local, portadora de um estilo de vida singular e firmado no sentimento de açorianidade, de «consciência de ilhéu» de que falava Vitorino Nemésio – o nosso modo de afirmação no mundo, a alma que sentimos, na forma do corpo que levamos (Açorianidade, in: Insula, jul-ago. 1932). É preciso compreender o modo de ver, sentir o mundo e a íntima relação com o estar neste espaço. E «estar é muito mais verbo para ilhéu do que viver», escreveu Nemésio. Não sei o quanto Janga conhece da obra de Vitorino Nemésio. Mas, sem dúvida, Janga é «o cara». Ao seu lado, a artista plástica Jandira Lorenz e o fotógrafo Campolino Alves, companheiros da proposta inovadora e de reconhecimento dos valores culturais próprios da Ilha. Corajoso, sensível, crítico, ousou e fez a íntima ligação entre o homem e o espaço, um link revolucionário para mostrar a sensibilidade do homem nascido no mar, maresia impregnada na pele, o imaginário insular, o jeito de ser e estar, e a sua mundividência, onde se assenta toda a criação cultural, celebrativa, alegre, solar, única.

O casarão construído há mais de 200 anos, sede do Centro Cultural Casa Açoriana Artes & Tramóias, transformou-se num polo catalizador e de irradiação da arte genuína. Espaço pioneiro e de maior efervescência cultural da Ilha de Santa Catarina, onde cerca de noventa artistas, artesãos tradicionais, artistas contemporâneos com linguagem vanguardista realizam oficinas, cursos, e expõem com dignidade a cultura popular no patamar que merece.

No decorrer destes trinta anos, a Casa Açoriana, deu vez e voz a quem tinha algo a dizer na pluralidade e na diversidade de sua arte, como a renda de bilro cravada na louça de barro da ceramista Índia Brasil em «Rendas e Tramóias», a crônica em Arte Naif do pintor Neri de Andrade na «Festa da Vila» ou na Art Brut de Saulo Falcão. A comunhão da insularidade na essência da criação, a representação estética da identidade do Ilhéu – da açorianidade herdada e nossa brasilidade.

Com certeza, a compreensão do verdadeiro sentido de pertença é a resposta para desvendar a alma do lugar.

1

Crónica
Quando da passagem do músico, cantor e realizador Zeca Medeiros por Florianópolis para a exibição do seu filme «O Livreiro de Santiago» e do documentário «Partilha – O Império de João do Bom», do produtor Tiago Rosas nesta breve digressão por terras do Chile e Brasil, uma observação do carismático e talentoso artista dita lá no «Rancho Açoriano», Ribeirão da Ilha, deixou-me encasquetada – «Lélia, será que os açorianos fazem ideia do que significa a tal herança açoriana na Ilha de Santa Catarina? Do seu passado ao seu presente?»
Alma do Lugar.doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020