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rss  Vol. XIX - Nº 332         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020
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O Caleidoscópio Cultural de Onésimo em 45 Olhares

Por Lélia Pereira Nunes

 

Aceitei, sem pestanejar, apresentar Onésimo, Único e Multímodo (org. João Maurício Brás, Opera Omnia, 2015), na sessão de lançamento na «XVI Correntes d’Escritas,» na Póvoa de Varzim. O livro compreende uma coletânea de textos e um memorial fotográfico de Onésimo, um bem apanhado corisco nas mais diferentes fases da vida e nos mais diferentes lugares do mundo. Contei aos amigos escritores: os gaúchos Luis Antonio Assis Brasil, Luís Fernando Veríssimo, e o ilhéu catarinense, Sergio da Costa Ramos – vou à Póvoa de Varzim apresentar um livro sobre o Onésimo Teotónio Almeida. Por email, saudaram a pessoa Onésimo e a obra que acabara de sair ressaltando o seu inegável valor cultural e literário. «Como insular português, Onésimo é como o ilhéu madeirense Cristiano Ronaldo: um superlativo, um «must». Joga bem em todos os setores do campo: no ensaio, no conto, na crônica», escreve, em bom humor insular, Sergio da Costa Ramos.

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Ao identificar os autores percebi a «saia justa» que me metera. Apresentar um livro comemorativo aos 50 anos de vida literária e, sobretudo, que reunia um expressivo conjunto de textos sobre a pessoa, o professor, a obra literária e filosófica de Onésimo, dando a conhecer por intermédio de vozes e olhares da melhor «cepa». Enfim, quem sai na chuva é pra se molhar...

João Brás, na Introdução, enfatiza: «se a obra de O.T.A. apresenta uma totalidade indissociável, é a sua faceta menos conhecida – a de pensador e ensaísta – que é mais significativa e mesmo fundamental» (p. 10). É consenso entre os 45 autores que a sua obra constitui uma unidade temática visível sob diferentes gêneros e matizes.

O escritor João de Melo descortina essa singularidade – de «Único», ao mesmo tempo em que reconhece a dificuldade de pensar nele «como um só» porque vê escancarada a sua pluralidade «Multímoda» e, assim pensando, nomeia o título do seu texto, que acabou intitulando o livro: «Único e Multímodo».

O livro mostra o valor da obra de Onésimo Teotónio Almeida, aponta a importância de se conhecer, ler, estudar e, acima de tudo, promover o debate de suas ideias e propostas. Soma-se a tudo isso a sua incrível capacidade de contar anedotas, piadas e fatos corriqueiros que, na boca do Onésimo, viram acontecimentos dignos de uma salva de tiros. Aí é que reside a arte de narrar. Milagre? Não, dom divino e dos bons. E o Onésimo sabe bem contar e conta muito...

Pensando bem «Onésimo Único e Multímodo» daria um bom samba-enredo de Escola de Samba. Pego o gancho dessa metáfora para falar do conjunto de textos reunidos em quatro secções principais. Ou seriam «alas»? Deixo a bateria entrar no recuo enquanto desfila cada ala com harmonia, evolução e cadência. Sem dúvida, nota 10 em todos os quesitos!

A primeira secção, a Comissão de Frente, o carro Abre-Alas é «Onésimo de Vários Ângulos», o olhar derramado sobre a pessoa e universo de O.T.A. Temos à frente José Blanco «Apresentando Onésimo Almeida», segue George Monteiro, colega de muitas décadas na Brown University, que como um «mestre-sala» faz mesuras em «Toda gente conhece Onésimo.» Confessa que poderia espraiar-se sobre a amplitude e variedade da sua escrita, mas prefere lançar seu olhar para o humanismo de Onésimo. Manuel Assunção em «Onésimo: nunca sem espanto, sempre sem desânimo», esboça um retrato do nosso autor. Num texto saboroso, Manuel Assunção lembra a dimensão de humorista de Onésimo que é fenomenal, mas que não se pode separar da sua dimensão de filósofo. Gabriel Magalhães em «Os sete realismos de Onésimo» recorre à metáfora de uma rede de metropolitanos – as linhas identitárias, para melhor entender o tema do realismo «apaixonado» presente na obra e no seu pensamento. O açoriano Victor Rui Dores traça uma perspectiva da biografia e da obra em «Onésimo para principiantes». Eu escrevi «Onésimo, um Homem de Epifanias» e Álamo de Oliveira, em «Nunca é possível dizer tudo sobre»... conduz-nos pela temática dos Açores e da açorianidade. Isabel Aragão partilha «Apresentando um novo Doutor Honoris Causa» que fez na cerimónia de Doutoramento Honoris Causa atribuído a Onésimo Almeida, em 2013, na Universidade de Aveiro. O físico Manuel Paiva reverencia «Onésimo, o melhor das duas margens do Rio Atlântico.» Luís Diamantino Batista, em «Onésimo», Manuela Ribeiro com «Um Encontro e um Testemunho» e Maria da Conceição Nogueira em «A força das Correntes» reconhecem o grande amigo das Correntes d’Escritas promovida na Póvoa de Varzim pelo pelouro da Cultura.

Segue a secção «Do Aluno ao Professor» com passadas coreografadas na memória do professor e dos alunos. Depoimentos que louvam o «aluno invulgar» do antigo professor, Artur Goulart e o «magistral professor» de seus alunos. É a palavra cheia de gratidão diante do professor, sábio, ético, humano, amigo.

A terceira parte «Sobre o Escritor e Criativo» refere-se ao seu universo literário. Da magia do imaginário e do brilho da criação. Será muita ousadia dizer que esta secção poderia ser comparada à «ala das baianas»? Na visão de Otília Pires Martins, «Onésimo, o homem poliédrico, leitor omnívoro e viageiro incansável.» Descreve o «andarilho insaciável» e suas errâncias e deambulações em que tudo se transforma em matéria literária [...]» (p. 165). Fica-se com um querer mergulhar nessa «geografia (senti)mental onesimiana». Ana Bernardo, faz o «Relato de uma Leitora» encantada por suas humoradas crônicas e admiradora da pungente obra. No criativo «Onésimo Teotónio Almeida, Trajectória, Estória e Stilus», o escritor galego, Carlos Quiroga, compara o volume da obra de Onésimo à abundância de um Amazonas, após a confluência das águas frias e barrentas do Rio Solimões com as águas quentes e pretas do Rio Negro, que se agiganta e corre poderoso. Assim é, «a trajetória onesimiana.» Vou além com a metáfora... basta somar a obra vultosa, velocidade da trajetória, estilo único e o espírito «viramundo» e temos o Onésimo – comparável ao próprio «fenômeno da Pororoca» que é o encontro estrondoso do Riomar com o Atlântico. As singularidades do «homem e do cronista» foram dimensionadas por Eugénio Lisboa em «Onésimo: a eterna surpresa». Leva-nos a perceber que tanto o humorista como o filósofo «são ambos, afinal, membros chegados da mesma paróquia» (p. 194).

Abordam o universo criativo e memorável de Onésimo os vigorosos ensaios: «(Sapa)teia Americana: (a)ventura do português pelo mundo repartido» de Teresa Martins Marques; «Para fixar esses bocados de vida real… Aventuras do Nabogador & outras estórias-em-sanduíche» de Erik van Achter; «Um diacronista» de Ernesto Rodrigues; «Onésimo, a busca de uma Teoria do tudo ou o grão da voz?» de Annabela Rita, e «Um Onésimo pode esconder outro» de Teolinda Gersão. Em todos, identifica-se o respeito ao talento criativo do escritor.

A última ala «Sobre o Ensaísta e Pensador» aborda as várias dimensões dessa vertente fundamental da obra de O.T.A. como o debate sobre a questão da Identidade, uma das principais linhas de sua investigação. Assim sendo, temos Ana Paula Coutinho com «As hifenações de Onésimo Teotónio Almeida e no âmbito da Filosofia e das Ciências Sociais, José Cândido de Oliveira Martins oferece-nos «A matriz da insularidade e problematização da identidade cultural no ensaísmo de Onésimo Teotónio Almeida.» Já o escritor açoriano, Vamberto Freitas, apresenta um panorama global da obra e a contribuição de Onésimo para toda sua geração quanto aos estudos açorianos, no ensaio «Onésimo Teotónio Almeida e os Açores na modernidade». A questão cultural em Onésimo está no «Onésimo ou a nossa consciência crítica» do historiador José Eduardo Franco. O escritor Miguel Real em «A arqueologia onesimiana da Mensagem de Fernando Pessoa» lança o seu olhar arguto na análise explicativa estruturada de Onésimo sobre Mensagem (1934) de Fernando Pessoa. A questão das «mundividências» é tratada pelo investigador João Maurício Brás em «A importância de ler De Marx a Darwin – A Desconfiança das Ideologias – Um Esquecimento Inaceitável», ressaltando a importância dessa obra que abraça o pensamento ético-social e político. No «A Ética na obra de Onésimo Teotónio Almeida», José Henrique Silveira de Brito, discute sobre uma temática transversal aos eixos do seu pensamento, como o relativismo ético e cultural. «Lies we live by – Notas sobre Pessoa, Portugal e o Futuro» é fruto de reflexão de Paulo Alexandre Pereira sobre «a multímoda personalidade» em prefácio crítico a Pessoa, Portugal e o Futuro. Encerra este livro o ensaio «Onésimo (historiador da ciência) em contexto» de Francisco Contente Domingues.

Ao cabo desse grande enredo «Onésimo Único e Multímodo» gostava de dizer que os autores estão de parabéns. Excederam em qualidade e informação. No entanto, «no apito final» entrega o João Brás – «estamos longe de esgotar o universo onesimiano».

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Crónica
Aceitei, sem pestanejar, apresentar Onésimo, Único e Multímodo (org. João Maurício Brás, Opera Omnia, 2015), na sessão de lançamento na «XVI Correntes d’Escritas,» na Póvoa de Varzim. O livro compreende uma coletânea de textos e um memorial fotográfico de Onésimo, um bem apanhado corisco nas mais diferentes fases da vida e nos mais diferentes lugares do mundo. Contei aos amigos escritores: os gaúchos Luis Antonio Assis Brasil, Luís Fernando Veríssimo, e o ilhéu catarinense, Sergio da Costa Ramos – vou à Póvoa de Varzim apresentar um livro sobre o Onésimo Teotónio Almeida. Por email, saudaram a pessoa Onésimo e a obra que acabara de sair ressaltando o seu inegável valor cultural e literário. «Como insular português, Onésimo é como o ilhéu madeirense Cristiano Ronaldo: um superlativo, um «must». Joga bem em todos os setores do campo: no ensaio, no conto, na crônica», escreve, em bom humor insular, Sergio da Costa Ramos.
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