logo
rss  Vol. XIX - Nº 331         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 09 de Julho de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

BY HEART – DE COR de Tiago Rodrigues

Luís Aguilar

Por Luís Aguilar

Tiago Rodrigues trouxe a Montreal o seu espetáculo, «By Heart» (De Cor), integrado no Festival Transameriques, festival de grande prestígio mundial e o mais importante do Quebeque.

Tiago Rodrigues, «one man show», dramaturgo (talvez, neste caso, se aplique melhor o termo dramaturgista), ator (talvez o termo comunicador cole melhor), encenador (talvez a palavra animador seja mais apropriada), cenógrafo (aplicar-se-á melhor a expressão decorador de interiores), contador de histórias...

A peça já teria começado mesmo antes do seu início. O intérprete, despido em cena, enquanto os espetadores, lentamente, começaram a entrar dez minutos antes da hora oficial para o início do espetáculo. Despido de artefactos, de silêncios teatrais, de esgares, de autenticidades falsas, nu de qualquer espécie de artefactos ou vestimentas teatrais. O Tiago estava (melhor seria dizer era) ali, em cena, como se estivesse na casa da avó. Era na casa da avó que estava, verdadeiramente, trazendo-lhe caixotes cheios de livros. Realmente (e não realisticamente). No programa anunciava-se que o espetáculo contava apenas com um ator. O que tem ele para nos dizer, de que forma atuará, que história nos vai contar e tantas e tantas outras questões, que afinal, se dissiparam.

tiagorodriguesluisaguilar2.JPG
Tiago Rodrigues, à direita, em amena conversa com o nosso colaborador Luís Aguilar

Tiago anuncia (melhor, ameaça): o espetáculo só começa quando houver dez espetadores voluntários sentados nas dez cadeiras aqui instaladas no palco. Em poucos minutos, dez espetadores ocuparam as cadeiras, uns escolheram as mais atraentes, outros evitaram as mais horrorosas (e havia umas de bradar à terra). Desconfia-se. Ali deve haver um ou dois atores no meio daqueles outros voluntários. Tentamos descobri-los. Missão impossível, tão impossível como encontrar um gato preto, virado de costas, num quarto escuro. Mais difícil encontrá-lo, sobretudo, quando o gato não está lá. Não estavam lá atores para animar os ousados espetadores aventureiros sempre prontos a participar em sessões do tipo «ligue d’impro», tão popular em Montreal. Disto, porventura, (ou por ventura) o Tiago não sabia. Todos estavam no mesmo barco, leia-se, na mesma cena, na mesma situação. Todos no mesmo diapasão, ou quase.

Durante o espetáculo, vamos aprender de cor, aqui e agora, um soneto de Shakespeare, diz Tiago Rodrigues. Estava lançado o desafio.

Começa por citar o teórico de literatura George Steiner numa entrevista ao programa de televisão Beleza e Consolação: «Assim que dez pessoas souberem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviverá».

byheart.jpg

Uma série de histórias foram-se entrecruzando durante todo o espetáculo, sem que o ator perdesse o fio à meada, sem que o espetador se dispersasse. E, foram desfilando autores, livros, considerações filosóficas, textos, citações (uns lidos outros ditos de cor, porque do coração), numa espécie de caos difícil de apanhar o sentido, mas que, afinal, se ia descobrindo pouco a pouco e, no final, toda essa trama holística se organizava, subitamente, numa espécie de cascata que dava uma direção pujante ao denso conteúdo dos textos e, sobretudo, à ligação que mantinham entre si. Os atores-espetadores-voluntários ficavam suspensos, entregues à sua sorte. Sorte, também, de ali estarem «suspendurados»! E o poema que tinham que aprender de cor até ao fim do espetáculo, com duração prevista de pouco mais de uma hora, prosseguia.

«En attendant», Tiago equilibra-se entre a corda bamba das suas memórias passadas e a corda imagética das memórias atuais e futuras e, tal como a cascata, as águas tumultuosas do caos organizam-se, plena de significações. Tudo isto com uma economia de meios impressionantes e com um impressionável rigor.

Nunca pensámos que uma fórmula, a de aprendizagem de cor, que utilizamos nas nossas aulas de língua portuguesa e que havíamos experienciado em várias sessões de formação de atores dirigidas por Peter Brook para treino da memória pudesse inspirar um espetáculo, pudesse ser uma peça, verdadeiramente, de teatro interativo.

Na curta conversa que tivemos com Tiago Rodrigues no fim do espetáculo, apercebemo-nos que ele rejeita a designação de teatro interativo. No entanto, nada há de mais interativo que esta criação, dissemos-lhe. Aceita, mas só depois de se certificar que o excluímos de produtos de fraca qualidade e da mais que duvidosa interação com o público, porque artificial, pouco espontânea e nenhuma autenticidade e que, muitas vezes, o termo interativo carrega.

Voltando à vaca fria (esta devia constar no momento do espetáculo em que se propunham expressões populares portuguesas ou adivinhas que o público tentava decifrar).

De retorno ao coração do poema: os 10 espetadores-atores dizem de cor o soneto 30 de Shakespeare e lê-se nos seus rostos o orgulho de o terem conseguido. De cor. Do coração também. «Par coeur, by heart». Aqui as expressões equivalem-se. Mas dizer o poema de cor e com ele decorar interiormente a pessoa é que não há aproximação do português ao inglês e ao francês, pois as preposições impedem o jogo de palavras. De cor, de coração e decoração. Matéria-prima para entrar no jogo de palavras, ficando o francês «hors jeu» e o inglês «offside».

Tiago Rodrigues diz de cor o poema da sua língua de coração, o português, e a decoração interior que o alberga brota para o exterior. Chega aos espetadores francófonos. Sentem-no os espetadores francófonos. Dois deles comentavam: – Não sabíamos que a língua portuguesa era, simultaneamente, tão forte e tão próxima do francês. Compreendemos todas as palavras do poema. Pois. Gostámos de ouvir.

Ah, a meada. Vamos lá encontrar o fio que nos conduz, agora ao fim, sem que antes não aterremos na casa da avó do Tiago. Os atores são convidados a comer o poema que acabam de dizer de cor. Comem-no. Verdadeiramente. É feito de algo parecido com uma hóstia. «Hostie» diz Tiago Rodrigues despudoradamente. Talvez já tenha descoberto que no francês quebequense «hostie» é um palavrão. «Hostie», repete. Silêncio gordo! Há diferenças entre o francês falado no Quebeque e em França. (Tiago tem um imaculado sotaque parisiense).

Pensamos que a forma de aprendizagem de cor do poema poderia ter sido levada às últimas consequências, sem que, por isso, perdesse necessariamente a espontaneidade ou quebrasse o ritmo do espetáculo ou fugisse à forma de autenticidade proposta pelo comunicador.

O espetáculo funciona bem e constitui uma lufada de ar fresco na forma de comunicar com o público, como, aliás, a imprensa francófona refere destacadamente: »L’exceptionnel Tiago Rodrigues, passeur de culture plein de charme et d’humour, aura conjugué avec brio philosophie, histoire et pédagogie dans son extraordinaire By Heart, leçon de mémorisation shakespearienne pour dix volontaires». In Le Devoir de 6 de junho de 2015.

Espetáculos
Tiago Rodrigues trouxe a Montreal o seu espetáculo, «By Heart» (De Cor), integrado no Festival Transameriques, festival de grande prestígio mundial e o mais importante do Quebeque.
LUSOPRESSE BY HEART.doc
yes
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020