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rss  Vol. XIX - Nº 331         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 25 de Fevereiro de 2020
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Machado Pires, Memórias e Reflexões

Por M. Patrão Neves

O convite para fazer a apresentação de Memórias e Reflexões chegou-me sob a forma de um telefonema que recebi primeiro com expectativa – qual o motivo deste contacto pouco habitual? –, de seguida com surpresa – perante o convite de apresentar publicamente esta obra –, e depois com um crescente sentimento de uma honra recebida à medida que interiorizava a distinção de me tornar a primeira leitora de uma obra do Prof. Machado Pires que o próprio acarinhava.

Por instantes, e enquanto o telefonema prosseguia, recuei a 16 de maio de 1984, data em que cheguei aos Açores, para ingressar no corpo docente da Universidade, por convite do saudoso Prof. Gustavo de Fraga. Este, no dia imediatamente a seguir, levou-me a apresentar cumprimentos ao Magnífico Reitor. Era o Prof. Machado Pires. Eu era apenas uma jovem assistente estagiária prestes a iniciar uma carreira universitária. Sentia-me apreensiva e intimidada perante a expectativa de conhecer pessoalmente o Reitor. Sentia-me mesmo algo receosa… Saberia dizer o que convinha no tempo certo…? A primeira impressão é sempre tão importante… Fui recebida com afabilidade e senti-me acolhida. O Reitor também me deu alguns conselhos que, na ocasião, me pareceram desproporcionados mas cuja justeza se foi impondo ao longo dos anos, transmitindo-os hoje eu própria a quem tem aspirações a uma carreira académica.

E o telefonema continuava… Sim, sim, Sr. Professor, é um privilégio poder apresentar a obra do meu Reitor – comecei a balbuciar ainda incrédula perante o convite mas determinada na sua aceitação.

E o meu pensamento persistia em divagar enquanto o telefonema prosseguia: seria eu capaz de ser uma leitora e apresentadora de uma obra de literatura, sem ter formação específica na área…? E ia ouvindo o autor: é uma obra despretensiosa, feita de memórias e reflexões. Uma obra intimista?! – pensei – mas então não me posso escudar em análises académicas…, é como «trabalhar sem rede». Sim Sr. Professor, fico na expectativa de receber a obra.

A expectativa durou pouco tempo. Alguns dias depois já tinha uma cópia do volume anterior à sua impressão final. Esperei pelo fim do dia para, no sossego da minha casa, me encontrar com o texto.

Tinha-me sido dito tratar-se de uma narrativa intimista, feita de memórias várias e de reflexões a propósito, mas não sabia bem o que esperar.

Comecei a ler ansiosa e também hesitante. Primeiro a contracapa, depois a introdução… e ambas falavam da geração, da geração a que cada um pertence, como «a maior e mais determinante realidade das nossas vidas». Interroguei-me em silêncio. É que sempre rejeitei a ideia de ficar cativa de um tempo, do «meu tempo» – como as pessoas mais velhas sempre invocam –, como se o «meu tempo» não fosse o presente de cada dia: todos os meus dias fazem parte do «meu tempo». Mas não era apenas a um tempo cronológico que Machado Pires se referia, mas principalmente ao histórico, ao social, ao existencial, a uma escola de vida e a um ponto de vista sobre o mundo. A nossa geração informa a nossa identidade pessoal e dá-nos uma perspetiva específica sobre o mundo.

Este é, sem dúvida, um introito excelente para um livro que invoca acontecimentos e vivências que, temporalmente situadas, suscitam reflexões perenemente atuais e significantes. Eis no que consiste Memórias e Reflexões. E é precisamente esta combinação feliz de uma narrativa de realidades vividas na primeira pessoa, e por isso historicamente circunscritas e subjetivas, com um pensamento que vai emergindo a par e passo com a profundidade e densidade que só a cultura e a maturidade concedem, projetando-se num horizonte de universalidade e intemporalidade, que tornam esta obra tão meritória e cativante. Li-a praticamente de um fôlego, pois quando tinha de interromper a leitura ficava na inquietude de a retomar para saber como ia prosseguir e a que novos pensamentos me iriam conduzir.

Os factos relatados são muitos, sob a forma de instantâneos ou fotografias que privilegiam momentos do fieri de uma existência singular, «flagrantes da vida» como o autor poeticamente se lhes refere: o seu nascimento, numa noite de blackout, em Angra, e alguns episódios dispersos da sua juventude na Terceira; a partida para Lisboa para estudar e algumas experiências universitárias, como aluno e como docente, antes e depois do 25 de Abril; encontros com grandes mestres da cultura portuguesa, e muito particularmente com Vitorino Nemésio de quem foi assistente (mas também com David Mourão-Ferreira, Jacinto Prado Coelho, Lindley Cintra, Maria de Lourdes Belchior, Delfim Santos, Orlando Ribeiro – entre outros por vezes apenas nomeados), ou com outras personalidades da vida pública portuguesa, como José Hermano Saraiva ou Jaime Gama, ou a convivência com personalidades que se notabilizaram primeiro nos Açores, como sejam Martins Garcia; e ainda o convite para regressar aos Açores, para integrar o então Instituto Universitário dos Açores, a tomada de posse como Reitor, o incêndio da Reitoria…, 13 anos de reitorado… É uma narrativa feita de muitos diferentes episódios ao longo de um tempo vivido pelo autor e que o leitor acompanha com uma curiosidade entusiástica e atenta, querendo sempre avançar, perguntando-se sempre «e depois…?» Os acontecimentos que fazem uma vida interessam-nos e o seu entrelaçar numa narrativa dão-nos a conhecer novas facetas do outro, transportando-nos simultaneamente nessa viagem em que nos descobrimos também um pouco, sobretudo quando cruzamos espaços ou tempos. Mas mesmo que a vida do leitor, porventura, não se cruze com a do autor, encontrará neste livro uma visão histórica e social que o conduzirá àquela época e o ajudará a compreendê-la como se, através do olhar do autor, a experienciasse também. Assim acontece com o modo de vida nos Açores, a sua inexorável insularidade (que já foi «embarcadiça» – nas palavras de Nemésio –, mas que hoje é «voadiça», nas palavras de Machado Pires), a realidade telúrica do arquipélago que precede a política no moldar da vida das gentes, o governo à distância da República antes da autonomia da região. Assim acontece também com a vida na ilha Terceira, como esta foi marcada pela II Guerra Mundial que, não obstante, «passou ao largo», o exercício da diplomacia e a prática da espionagem, a base das Lajes para onde «emigravam» os de S. Miguel e onde os terceirenses faziam compras acedendo a um mundo «quase mítico» para a maioria. Aponta-se: a «mentalidade de competição, de fechamento e de ignorância mútua» entre as ilhas, apanágio das «terras pequenas», e que não se restringe a ontem mas vai prevalecendo hoje ainda; sublinha-se as distâncias «dentro da ilha» (três horas de Angra à Praia; «e para ir ao Nordeste em São Miguel?») e a perceção das distâncias «fora da ilha»:

«Um praiense, em conversa com um emigrado em visita de saudade, diz-lhe, aí pelos primeiros anos da década de 50:

– Olha – se vires o João lá nas ruas da América, fala-lhe de mim e daquele dia dos toiros de Agualva.

As «ruas da América» – podia ser Boston, Fall River, Chicago…»

A perceção que se tem da realidade, mesmo quando equívoca, é também real para o próprio. Simultaneamente, essa sua perceção subjetiva é reveladora da realidade objetiva em que o próprio se insere, mesmo que totalmente desajustada da realidade a que se queria referir, como é o caso: a perceção de qualquer espaço é condicionada pelo espaço que cada um habita, pelo que, quem está confinado a uma ilha, não alcança a imensidão de um país que vai do Atlântico ao Pacífico…

Nos equívocos das distâncias medrava o messianismo com que o açoriano se relacionava com a América e também com o continente, polos onde se formaram duas mentalidades diferentes que se viriam a confrontar «quando os Açores constituem um governo autónomo na região, quando possuem uma universidade e quando entram no jogo democrático da vida moderna». Sempre houve dois modelos de desenvolvimento nos Açores cujo peso relativo a nossa integração europeia foi capaz de alterar de um pendor americano para um europeu, sem todavia suprimir o primeiro. E este prevalecimento de ambos pode contribuir para o enriquecimento da nossa sociedade, se soubermos adotar o norte-americano sem o importar acriticamente, se soubermos flexibilizar o europeu sem infringir as suas regras, principalmente, se soubermos em relação a ambos assumir uma postura de parceiro que dispõe igualmente de bens a partilhar e não apenas de vítima que reclama dos outros sem oferecer qualquer retorno.

E os retratos da sociedade sucedem-se. Um quotidiano português e sobretudo universitário, tanto antes como depois do 25 de Abril como se verifica com a «caça às bruxas» tanto no Estado Novo como no PREC. Um retrato ainda das exigências do ensino universitário, como por exemplo as virtualidades da aprendizagem do latim, ou o papel formativo da universidade que «não é uma fábrica de diplomas», mas «um lugar de aperfeiçoamento do saber», com professores cuja exemplaridade era a sua força principal:

«Uma vez [numa aula de História da Cultura Clássica do Padre Manuel Antunes] atrevi-me a fazer-lhe uma pergunta, relacionando mito e psicanálise freudiana. Ele respondeu-me:

– Olhe – não sei bem. Só estudo Freud há seis anos…

[…] Seis anos? Era mais do que eu iria precisar para tirar todo o curso! Para um jovem de 18 anos, o tempo tem outra fundura…»

A carreira universitária não é só feita de inteligência, mas também de resiliência e de persistência: selecionando um problema, um tema, circunscrevendo-o, focalizando-o, aprofundando-o, relacionando-o, contextualizando-o, ampliando-o, recriando-o, transmitindo-o no curso de um tempo que se vai desenrolando, e ganhando fundura...

Em Memórias e Reflexões encontramos também retratos da emergência das autonomias regionais, sempre ao abrigo de um discurso sobre a construção da democracia portuguesa e a estruturação da Universidade dos Açores «criada por decreto mesmo antes de haver autonomia consagrada num governo oficial da Região» – processos que foram progredindo paralelamente.

E são as reflexões que esta panóplia de memórias suscitam que mais nos fazem querer ler este livro. Reflexões cuja lição permanece por aprender cabalmente. Sobre estes dois últimos temas, em particular – a democracia e a Universidade dos Açores –, a reflexão é ampla e profunda, retomando as origens de cada um e projetando-se para uma dimensão intemporal de que nos urge beneficiar no presente. Nas memórias de um passado vivido por Machado Pires multiplicam-se reflexões para o presente que todos nós partilhamos.

E entre estes dois temas de destaque, permitam-me que retome primeiramente as palavras de Machado Pires sobre a Universidade porque é a razão de ser do autor estar aqui entre nós, de muitos de nós estarmos aqui também, é um dos mais fortes impulsos do desenvolvimento social e económico dos Açores e que atravessa atualmente uma situação de crise.

«Senhor Reitor, para quando uma Universidade ao serviço da Região? [Foi sempre uma pergunta insistente da comunicação social, por reflexo da sociedade açoriana].

Basta a existência de uma universidade para já estar a ser prestado um serviço. […] Mas nem todos estavam preparados para compreender o papel conceptual de uma universidade das ilhas [e estarão hoje? – pergunto eu] Com o tempo logo vem a elevação do nível intelectual. E o nível intelectual faz tudo: eleva as conversas, promove curiosidades científicas e filosóficas, atrai congressos, promove eventos […].»

Mas que Universidade é esta a que se refere Machado Pires?

Não certamente «uma fábrica de diplomas», nem tão pouco uma «empresa do saber aplicado» a que governos as reduziram ao obrigá-las a «lutar pelo financiamento», ao obrigá-las a sair «da velha torre de marfim para a competição de feira, onde, no entanto, sobrevivem pela força da massa cinzenta. Negócio – etimologicamente nec-otium: a negação do ócio. Não há lugar para «ócios», de reflexão estética e filosófica. O que era nobre da Universidade tornou-se um subproduto, uma coisa tolerada, o sublime na gaveta, um clube de esotéricos.»

«Uma universidade é um «fermento», não um supermercado de soluções imediatas de progresso», «é um lugar de aperfeiçoamento do saber». E prossigo citando: «Para ser Universidade, por detrás da eficiência do planeamento e da adequação dos financiamentos, tem de estar a adâmica pergunta, inquietante, construtiva – mas «que é a verdade?» E respondo recorrendo mais uma vez às palavras do autor: essa verdade que a Universidade procura constitui a sua própria alma ou, como escreveu uma vez o autor «»uma universidade é um estado de espírito». Também precisa de dinheiro. Não funciona sem este. Mas também não funciona sem aquele… Não é só de legislação e de reformas no papel que as universidades precisam. Nem é só de dinheiro. É de uma alma própria e de muito bom senso.» – e esta lição do sempre Reitor Machado Pires precisa de ser urgentemente aprendida para que a aurora que a Universidade dos Açores constitui desde 1976 e deveria constituir, permanentemente, e hoje também, não veja o seu crepúsculo. «Sicut Aurora, Scientia Lucet», «Assim como uma aurora, a ciência brilha» – é a divisa da Universidade dos Açores. Não apaguemos esta «aurora».

Sobre a democracia destaco, como mote da reflexão de Machado Pires, a afirmação de que esta «deve existir para criar igualdade de oportunidades para todos ou para o maior número possível. Mas o esforço e o mérito têm de fazer o resto.» É verdade – prossegue – o «»elitismo» é a defesa exacerbada e arrogante de elites na sociedade e no poder, mas a ausência de elites ou de seleção dos melhores é a queda na vulgaridade, na mediocridade. E da mediocridade só se pode esperar mais mediocridade.»

E o raciocínio prossegue: «[...] A vulgaridade, a promoção da mediocridade são efeitos perversos da liberdade democrática. […] Continuo a pensar que os dois maiores erros da democracia contemporânea são o pensar que «todos sabem ou podem fazer tudo» e o «ter medo de dizer que há diferenças». Há que ter a coragem de promover os melhores, de dizer que há sempre elites.» E remata, inspirando-se em Herculano, «a igualdade à força é a pior das tiranias.»

À coragem destas palavras acrescenta-se a de que «quanto mais pequena é uma sociedade, mais difícil é o exercício da democracia: a teia de conhecimentos e interesses, constrangendo a livre expressão de doutrinas, leva a inibições, a pressões, a jogos de influência, a chantagens morais, à defesa de interesses instalados.» E prossegue: «as sociedades pequenas tendem a endeusar ou a ostracizar com demasiada facilidade.» Esta é uma visão bipolar particularmente comum dos poderes políticos em relação a todos os demais cidadãos – acrescento eu – que forja imagens manipuladamente deturpadas das pessoas e distorce a realidade social sobre a qual importava agir, transformar, melhorar.

E Machado Pires sintetiza a sua crítica ao exercício mais comum e menos nobre da democracia invocando um mestre da nossa literatura: «»Em terra de cegos, quem tem um olho é rei» não! Como ensina Jorge de Sena: «em terra de cegos, quem tem um olho…tira-se-lho, e rapidamente, antes que ele incomode muito!» Ficam todos democraticamente cegos.»

Não prosseguirei! Reconheceram já como Memórias e Reflexões, que aqui apresento, me envolveu; mas, sobretudo, descobriram já certamente como esta obra vos inspirará também na recuperação de um passado vivenciado, por alguns, e histórico para todos, bem como na projeção de um passado que nos compete construir beneficiando do passado e do presente. Toda a obra vale pelo que nos dá a conhecer, mas também pelo que nos faz descobrir.

Em síntese, Memórias e Reflexões de Machado Pires oferece-nos um «flagrante» da açorianidade». E termino com as palavras do autor: «A Açorianidade […] exprime a identidade do ser açoriano, dentro ou fora dos Açores.»

Bem-haja!

M. Patrão Neves

www.mpatraoneves.pt

Ponta Delgada, 18 de maio de 2015

Crónica
O convite para fazer a apresentação de Memórias e Reflexões chegou-me sob a forma de um telefonema que recebi primeiro com expectativa – qual o motivo deste contacto pouco habitual? –, de seguida com surpresa – perante o convite de apresentar publicamente esta obra –, e depois com um crescente sentimento de uma honra recebida à medida que interiorizava a distinção de me tornar a primeira leitora de uma obra do Prof. Machado Pires que o próprio acarinhava.
2015 Apres Machado Pires.doc
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