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rss  Vol. XIX - Nº 329         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 25 de Fevereiro de 2020
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No Centro Canadiano de Arquitetura

Em exposição o processo SAAL

Reportagem de Nuno Cansado, estagiário

O Centro Canadiano de Arquitetura abriu ao público no passado dia 12 de maio, com uma exposição sobre o processo SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) e a sua relação com a Revolução de Abril de 1974 em Portugal. A exposição estará exposta até ao dia 4 de outubro.

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Este projeto, com o cunho do arquiteto Nuno Portas, secretário de Estado da Habitação na altura da revolução, está representado numa exposição comissariada pelo curador independente Delfim Sardo, diretor artístico da Trienal de Arquitetura de Lisboa e professor na Universidade de Coimbra, e organizada pelo Museu de Serralves em colaboração com o «Canadian Center for Arquitetura of Montreal», que traz até ao CCA esta mostra explicativa do movimento social que surgiu em Portugal e que conjugou a arquitetura com a Revolução dos Cravos.

Não será difícil entender as motivações que estão na origem do surgimento deste projeto, como explicou Delfim Sardo, aquando da abertura da exposição no CCA (Centro Canadiano de Arquitetura). O processo SAAL foi criado logo após o 25 de abril de 1974 e durante o mandato em que o arquiteto Nuno Portas era secretário de Estado da Habitação, visava as necessidades das populações mais desfavorecidas de Portugal no que diz respeito precisamente à habitação. Este projeto pioneiro na Europa levou a cabo um dos processos de arquitetura mais significativos do século XX.

Foram constituídas brigadas técnicas lideradas por arquitetos que, em colaboração com as populações, tinham por objetivo enfrentar as urgentes necessidades habitacionais de comunidades desfavorecidas em todo o país. Do levantamento das condições em que viviam as populações ao apoio para formação de comissões de moradores, dos projetos arquitetónicos ao acompanhamento de expropriação dos terrenos, as brigadas que foram formadas reinventaram a prática da arquitetura, projetando juntamente com os moradores e não para eles.

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Giovanna Borasi, curadora do Centro Canadiano de Arquitetura quando falava para a LusaQ TV.

Estendida por seis salas, a exposição no CCA (Centre Canadien d’Architecture) mostra-nos 10 projetos exemplares do SAAL através de maquetas, cartazes, fotografias históricas, reproduções sonoras, documentários e filmes. André Cepeda, José Pedro Cortes e Daniel Malhão, são os artistas que através da fotografia e num contexto de reflexão contemporânea sobre as repercussões do SAAL, apresentam alguns destes projetos emblemáticos que se podem encontrar nos dias de hoje.

Ativo até outubro de 1976, o SAAL concluiu nos seus vinte e seis meses de existência cerca de 170 projetos que envolveram mais de 40 000 famílias de Norte a Sul, incluindo os distritos de Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Faro, Lisboa, Santarém, Setúbal e Porto. Quarenta anos depois sobre o início do SAAL, a sua marca continua a definir a malha espacial e social das cidades e dos bairros que foram alvo de intervenções. Nos dias de hoje, facilmente convida à reflexão sobre processos coletivos geradores de transformação social. Depois de ficar nas mãos das autarquias, o processo SAAL foi apagado pelas medidas dos poderes políticos capitalistas que estariam mais preocupados com o valor dos solos do que propriamente com algum projeto social...

O jornal LusoPresse falou com Delfim Sardo, professor de História e Teoria de Arte na Universidade de Coimbra.

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Nuno Portas, arquiteto e antigo secretário de Estado da Habitação ao ser entrevistado para a LusaQ TV, por Norberto Aguiar.
Foto Nuno Cansado - LusoPresse

«A situação na altura em Portugal aquando do 25 de Abril era uma situação muito precária e complexa. Havia muita gente a viver em barracas e em casas muito degradadas. O SAAL promoveu a possibilidade para que as comunidades se organizassem em associações e se dirigissem aos serviços de política de habitação a pedirem a ajuda de uma brigada constituída por arquitetos, juristas, assistentes sociais, que pudessem projetar uma recuperação da zona degradada onde viviam».

«Um projeto muito interessante que durou muito pouco tempo. Passou depois para a tutela das autarquias que tinham mais interesse no valor dos solos do que propriamente com essas questões sociais. É um projeto que foi possível na grande agitação que foi o período que se seguiu à revolução».

«Por questões políticas e valorização de algumas zonas, os projetos que estavam no meio das cidades, em zonas históricas, no Algarve, ou seja, no meio das zonas turisticamente apetecíveis foram encontrando alguns obstáculos. Houve projetos que acabaram por sofrer com a pressão imobiliária».

«Eu fiz uma escolha de 10 projetos. Porque penso que estes 10 se dirigem às situações mais graves, 40 anos depois são aqueles que apresentam situações exemplares talvez mais interessantes para serem vistas. Foram feitos 170 projetos, envolvendo mais ou menos 40 000 famílias. Com a nossa dimensão é uma coisa extraordinária».

«A exposição é composta por documentação desse período, desenhos de arquitetura, filmes documentais da época, filmes mais recentes que nos mostram como os bairros estão agora, maquetas que muito facilmente podem perceber as dimensões das intervenções. Fotografias atuais por fotógrafos portugueses que foram convidados para isso que nos mostram como estes bairros estão hoje em dia».

«A exposição tem a informação tratada de uma maneira que não é certamente uma exposição só para especialistas. É uma exposição que nós tentamos que seja de divulgação de um momento da arquitetura portuguesa, de que muito me orgulho do meu país. Ter a oportunidade de a partilhar aqui no Centro Canadiano de Arquitetura é extraordinário».

Delfim Sardo

É professor na Universidade de Coimbra, trabalha também em arquitetura e é curador independente. «Neste momento estou com esta exposição aqui no Centro Canadiano de Arquitetura, que já esteve em Serralves. É uma instituição que eu conhecia, de consultar na internet há muitos anos. É um centro de referência no mundo inteiro. É provavelmente o centro de arquitetura mais importante do mundo, para mim ter este projeto aqui tem um significado muito particular. É um reconhecimento à escala mundial da importância deste processo português que tem 40 anos.»

«Gostava muito que viessem ver a exposição. Provavelmente haverá pessoas na comunidade portuguesa que se lembram deste processo, outras não, e será a primeira vez que o vão conhecer. Mas gostava muito que pudessem partilhar este pedaço da história do nosso país que é sempre motivo de orgulho.»

Giovana Borassi, diretora do CCA

«Foi um fenómeno incrível que durou somente dois anos. Aqui no Centro fazemos exposições que partem de um exemplo passado e que possam vir a ser importantes, num olhar com sentido autocrítico, em determinados contextos, como no caso do Canadá. Podemos aprender muitas coisas com este projeto»

«Estamos a trabalhar numa colaboração com o Museu Serralves porque o arquiteto Álvaro Siza Vieira resolveu doar parte do seu arquivo ao nosso Centro e uma outra parte ao Museu Serralves e Fundação Gulbenkian, em Portugal. No âmbito desta colaboração com o Museu Serralves decidimos começar aqui o primeiro projeto.»

«De certeza que vamos continuar com esta colaboração com o Museu Serralves. O grande projeto é o arquivo de Álvaro Sisa Vieira, porque no final a intenção é que haja um arquivo que qualquer pessoa no mundo possa aceder e fazer a sua pesquisa deste tipo de informação para compreendê-la. Isso é um novo modelo, mesmo na aquisição dos arquivos. Uma primeira parte está toda preparada e deverá estar exposta aqui no Centro Canadiano de Arquitetura já no próximo outono».

«A exposição estará aberta ao público até ao dia 4 de outubro. O horário de funcionamento é de quarta a domingo, das 11h00 às 17h00 e há desconto para estudantes e pessoas com mais de 65 anos. Às quintas-feiras a entrada é gratuita para todos».

Nuno Portas

«Fui secretário de Estado nessa altura mas já estava a pensar fazer isso há mais tempo».

«Dez anos antes houve um grande debate sobre a habitação. Como arquiteto e como funcionário do Centro de Engenharia Civil, em Lisboa, viajei muito para comparar modelos por diversos países».

«Muitas das coisas que se implementaram já tinham sido discutidas na altura».

«Mudaram as pessoas, mudaram os critérios, veio a Constituição. Os problemas passaram para os municípios e eu nessa altura já lá não estava».

«Não atacavam à cabeça os problemas da habitação com a colaboração das famílias. Fizemos experiências que pudessem ser aplicadas maciçamente, mas não aconteceu assim».

«O meu papel desde o princípio na arquitetura, juntamente com o arquiteto António Pereira, foi desenvolvido nos primeiros edifícios, nos grandes bairros de Lisboa; depois no Laboratório Nacional de Engenharia Civil onde estudamos os problemas dos bairros; depois a seguir veio a oportunidade do SAAL, e ainda depois disso vieram os urbanismos. Entre Itália e França fui acertando as ideias e comparando as coisas e continuamos a estudar toda a área do norte de Braga até ao Porto».

«Isso era uma experiência típica de mudança de políticas. Que fossem experiências para as próprias pessoas que pudessem ganhar com isso. Os grupos de intervenção eram formados por pessoas dos bairros e essas pessoas podiam também reclamar como se fossem ricos. Vamos dar o luxo aos pobres e dar-lhes a possibilidade de escolher. Tive pena que depois de dois anos este projeto tenha morrido porque simplesmente tinham mudado as pessoas».

«Estou muito velho, já fiz 80 anos e já não posso esperar fazer grandes invenções. Estou a trabalhar sempre nas escolas onde ensinei, agora como orientador de teses e estamos a estudar coisas que ainda não estavam estudadas. Agora estudamos a região do Vale do Ave e do Douro, zonas com grande atividade e que teve uma crise grande no têxtil. Neste momento estão a mudar as coisas porque mais selecionadas. Há novas estradas, grandes demais, talvez».

Depois de percorridas as seis salas por onde se estende esta exposição com identidade bem portuguesa, e dos testemunhos obtidos junto da diretora do Centro Canadiano de Arquitetura Giovana Borassi, do arquiteto Nuno Portas, e do professor universitário Delfim Sardo, aqui deixamos o relato da nossa visita.

Destaque
O Centro Canadiano de Arquitetura abriu ao público no passado dia 12 de maio, com uma exposição sobre o processo SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) e a sua relação com a Revolução de Abril de 1974 em Portugal. A exposição estará exposta até ao dia 4 de outubro.
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