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rss  Vol. XIX - Nº 329         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 01 de Abril de 2020
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Pedra de Toque

Boas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres (Ele também está no Brasil!)

Por Lélia Pereira Nunes

«[...] No tempo da minha infância e juventude, a porta central

da igreja do Senhor Santo Cristo dos Milagres estava repleta de

pequeninos escritos, de grandes preces. A lápis ou esferográfica,

a fé, uma fé de mãos e de silêncio, fazia com que tudo se rogasse

ao Senhor Santo Cristo; a cura de um filho, a proteção para um

um marido ausente, uma boa nota no exame que se aproximava.

Às vezes a fé é assim. Às vezes até tem caligrafia.»

Emanuel Jorge Botelho, in: Crónicas, 2008.

Acompanhei, pela imprensa açoriana e pelas redes sociais, os preparativos para as Grandes Festas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres que se realizam até o próximo dia 14 de maio na cidade de Ponta Delgada. Fiquei sabendo que a egrégia Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres celebra 250 anos de fundação, história narrada com propriedade por José Andrade em Santo Cristo – Álbum de emoções e Roteiro de razões, livro editado pela Publiçor/Letras Lavadas, lançado recentemente no cenário sagrado da festa e, também, que o senhor Humberto Moniz, que há 56 anos coordena os trabalhos de ornamentação do Convento e o Santuário da Nossa Senhora da Esperança mobilizou cerca de uma centena de eletricistas, carpinteiros, pedreiros, voluntários que com dedicação deixaram 166 mil lâmpadas coloridas a iluminar com arte e feericamente todo o espaço da celebração. Inteirei-me dos detalhes preciosos da artística capa em seda vermelha, finamente bordada, doada pelo luso-canadiano, Mario Silva, emigrante de São Miguel.

Enquanto escrevo estas linhas neste friorento domingo de maio, dia das Mães, tudo isso está acontecendo de forma deslumbrante, num turbilhão de festas, bandeiras, mastros, luzes, fogos-de-artifício, promesseiros e promessas, círios enormes, filarmónicas e uma profusão de flores a se perder num mar de fiéis a ir e vir sem conta, dando voltas no campo de São Francisco agradecendo os milagres recebidos. Fico aqui a imaginar Ponta Delgada impregnada pelo clima de comovida religiosidade, de louvor e vestida da «festa ícone» que abraça, que envolve a cidade, seu povo, a Ilha, o arquipélago e ganha o mundo por caminhos da emigração – ela é a representação divinizada de um povo que já muito sofreu. Essa dor, contudo, sempre foi cercada pela esperança das flores da Primavera, no dizer do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil e bem espelha a alma do povo açoriano.

Senhor Santo Cristo dos Milagres, coroado de espinhos, sofrido, olhar triste a transbordar amor e bondade é arrebatador. Seu olhar pungente revela o sofrimento resignado, mas também redenção, salvação. Sob o tema «Fé: Confiança no Caminho da Salvação», as Festas de 2015 vêm, mais uma vez, corroborar a mística de que a fé move a esperança infinita. A multidão que acorre ao Santuário manifesta devoção e afeto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres – e nesta dimensão da fé – depositam todas as aflições, os sofrimentos, as perdas queridas, os desencontros. Os devotos buscam no Seu olhar complacente o sentido das suas existências, as respostas para suas vidas. No texto para o livro Peregrinos do Senhor Santo Cristo dos Milagres (2009) o saudoso escritor Daniel de Sá na sua escrita espiritualista afirma que é uma fé que não se esgota no respeito pela imagem. Que nem sequer se esgota em si mesma, porque é feita sobretudo tendo a esperança como pilar».

Domingo, 10 de maio é o dia maior da festa. O ponto culminante e tão ansiado ocorre quando as irmãs da Congregação de Maria Imaculada – as fiéis guardiãs – entregam a «Vara» ao Provedor da Irmandade confiando-lhe a rica Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Um ritual simbólico que se repete ano após ano com profundo fervor e respeito à centenária tradição. A veneranda Imagem, sob a proteção dos Irmãos, deixa o Santuário e ganha as ruas de Ponta Delgada numa grandiosa procissão que, por mais de quatro horas, percorre as artérias da baixa da cidade levando no Seu olhar compungido, humano, derramado de amor, as esperanças que a cada Primavera se renova, num verdadeiro testemunho da imperecível fé dos açorianos.

A procissão do Senhor Santo Cristo faz parte da História dos Açores, guardada na memória coletiva dos antepassados, transmitidas aos seus descendentes e contadas às gerações do futuro. É patrimônio das Ilhas, componente da identidade cultural açoriana. Surpreende a sua expansão às outras ilhas do arquipélago e às comunidades da diáspora açoriana.

Há dez anos, maio de 2005, assisti à Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres e guardo na memória a emoção sentida no meio daquele povo. Junto ao Santuário da Esperança, abrigada do vento forte, da chuva fina e do frio, vi passar homens e mulheres, corporizando os tormentos d’alma e as lágrimas de gratidão. Retornei às Festas do Senhor Santo Cristo em abril de 2008, revivi a comoção coletiva que perpassa naqueles dias de profunda fé e de reverência à tradição secular que há muito ultrapassou as fronteiras do arquipélago e seguiu na bagagem dos afetos dos emigrantes «por mundo repartidos», como bem retrata o emblemático quadro «Os Emigrantes" de Domingos Rebelo, um indelével símbolo identitário.

Sempre intrigou-me a pouca expressão do culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres nas devoções do Brasil. Em artigos publicados, aqui e acolá, tenho questionado esta ausência. Por que razão o Senhor Santo Cristo não fez os caminhos do mar? Por que o povoador açoriano não trouxe na bagagem, como fizeram os emigrantes levando-O para a América do Norte e Canadá? Não sei a resposta. Continuo no «achismo». Acho que a explicação está no facto de que a maciça maioria dos emigrantes que aportaram em Santa Catarina, no Século XVIII, era oriunda das ilhas Terceira, Graciosa, Faial, Pico e São Jorge.

A nossa festa ícone é a Procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos, um dos símbolos de Florianópolis, que se realiza há 249 anos, sob a organização da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos, instituída a 1º de janeiro de 1765. Os açorianos Tomás Francisco da Costa, Manuel de Sousa da Silva, Manuel de Medeiros e Sousa, Manuel Vieira Maciel e o madeirense Padre Marcelino de Sousa e Abreu ficaram para a história como fundadores da Irmandade. Nos dias atuais a Irmandade, de caráter filantrópico, desempenha um relevante papel na vida de Florianópolis, administrando o Imperial Hospital de Caridade, construído em terreno doado pelo açoriano, da Ilha do Faial, André Vieira da Rosa em 1789.

Resolvi investigar... Pesquisei na Internet e «emailando» descobri o Senhor Santo Cristo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na grande São Paulo, na Chácara Santa Etelvina existe a Paróquia Senhor Santo Cristo dos Milagres, criada a 15 de novembro de 1985. Já no estado do Rio de Janeiro localizei no Rio de Janeiro e Niterói. Na cidade maravilhosa, no bairro Santo Cristo, a Paróquia Santo Cristo dos Milagres, criada a 15 de agosto de 1901 no mesmo local onde, há 165 anos, imigrantes açorianos da Ilha Terceira trouxeram a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, ergueram uma capelinha e instituíram a sua Irmandade. Em Niterói, no bairro Fonseca, na Rua Santo Cristo localiza-se a Igreja do Senhor Santo Cristo dos Milagres, erigida em 1896, em terreno doado pelo açoriano António Ribeiro. A imagem veio de Portugal no ano de 1900.

Senhor Santo Cristo dos Milagres? Sim, ele também está aqui.

Louvado seja!

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