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rss  Vol. XIX - Nº 328         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020
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Isabel dos Santos:

«Os bancos representam a presença portuguesa em Montreal»

Entrevista de Nuno Cansado, estagiário

Com o evento Metropolis bleu a decorrer e no âmbito das actividades realizadas no dia do livro e dos direitos de autor, o jornal LusoPresse entrevistou Isabel dos Santos, mentora do projecto que levou à construção dos bancos ao longo do Boulevard Saint-Laurent, que nos revelou alguns detalhes da elaboração e concretização deste projecto aquando da sua passagem como vareadora na Câmara Municipal de Montreal.

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Isabel dos Santos num dos bancos no boulevard Saint-Laurent

 

Estão distribuídos ao longo de um quilómetro do Boulevard Saint-Laurent, entre o 2855 e o Parque de Portugal, e são 12. Foram inaugurados a 25 de abril de 2010, dia em que se comemorou 35 anos da Revolução dos Cravos. Cada um dos bancos tem gravado em si uma citação escrita em português, traduzida também em francês. Dom Dinis, Gil Vicente, Luís de Camões, Padre António Vieira, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Natália Correia, José Saramago e António Lobo Antunes, são alguns dos mestres da literatura portuguesa e do mundo, que estão ali representados.


O projeto.

«É um projeto intelectual, artístico, profundamente demográfico (arte+cidade), acessível a todos»

Este projeto teve como mentora a atriz natural de Faro e a viver no Canadá desde os anos 90 Isabel dos Santos, juntamente com dois grupos de consultação que representaram o bairro português. Naquela data, Isabel dos Santos tinha a seu cargo o posto de vereadora da Câmara Municipal de Montreal, presidida por Gérald Tremblay.

Segundo Isabel, «o projeto nasceu como forma de assinalar o contributo e a presença da emigração portuguesa nesta cidade. – O bairro chinês está assinalado, o italiano também. Porque não o português!?»

«Na altura faziam-se obras na Saint-Laurent e não fazia sentido não fazer nada que vincasse a nossa presença, já que para além do contributo português na construção desta cidade, foi ali que os primeiros emigrantes portugueses se instalaram quando chegaram aqui ao Canadá».

Para uma representação portuguesa mais justa na hora de decidir e para que fosse uma voz que soasse mais alto, foi formado um grupo de consultação representado pelas seguintes pessoas: Maria de Andrade, Luís de Moura Sobral, Carlos Ferreira, Frederico Fonseca, Emanuel Linhares, Francisca Marques, Manuel Moura, Miguel Rebelo, Márcia Ribeiro, Leonardo Soares, Carolina Oliveira Soulié e Arlindo Vieira.

«Surgiu a ideia de fazer-se uma frase por século. A opção dos azulejos foi para tornar mais artístico e fugir um pouco ao comercial».

Depois de surgir a ideia de se gravar as citações nos bancos, também foi elaborado um grupo para a pesquisa das frases. Luís Aguilar, Joaquim Eusébio, Clementina Santos e Carolina Oliveira Soulié foram os escolhidos para pesquisarem sobre as frases a citar e os seus respetivos autores que estão representados por ordem cronológica.

Joseph Branco foi quem tomou as rédeas do projeto que teve como objetivo a produção e decoração de azulejos que iriam decorar os bancos, não esquecendo a sintonia com as citações já escolhidas. Foram tomadas algumas precauções, visto que os azulejos teriam que resistir às baixas temperaturas a que estariam sujeitos mas, os artistas, portugueses e luso-descendentes, cada um teve «carta-branca» para conjugar o «dêcor» com a frase.

«É um projeto acessível a todos que transforma a nossa presença em arte pública. Enquanto o projeto Itália, por exemplo, é fechado, o português abre-se aos outros».

Para Isabel dos Santos o bairro pertence a todos. «Não é um projeto original, há muitos bancos por aí. Queríamos encontrar algo que estivesse ao alcance das verbas disponibilizadas e respeitasse a opinião de todos. Algo que comunicasse com todas as pessoas, independentemente da sua origem».

Manutenção dos bancos.

«A única coisa que tenho pena é de não ter lutado para que fosse considerado arte pública».

Embora os bancos fossem idealizados por pessoas ligadas ao mundo das artes, decoradas por artistas e representando artistas, portugueses e do mundo, não são reconhecidos como arte pública. São consideradas apenas mais umas peças de mobiliário urbano, o que não beneficia a sua preservação e o seu devido reconhecimento. Como parte integrante de uma das artérias que mais marca a cidade de Montreal, é triste que não estejam sinalizados nem com referência aos seus autores. Se fossem considerados arte pública, como realmente são, haveria meios disponíveis para a sua preservação e assim podíamos garantir que não caíssem no esquecimento…

«Eles vão encontrar os defensores deles pelo aquilo que são.»

Mestres das críticas.

«Os projetos diferentes tendem a levar tempo a serem aceites. Com o tempo a oposição aos bancos irá diminuir e a compreensão vai fazer com que sejam aceites.»

Desde a sua construção que tem havido quem daqui e dali opine em relação ao desempenho dos artistas e do grupo de consultação responsável. – Que a tradução não está boa; Que a imagem não diz com a frase; Que parece um caixão; Que devia ter sido este em vez daquele; Ou pior: – que a forma dos bancos tem semelhanças ao logótipo do Banco Nacional Canadiano, etc. – É preciso ser-se criativo.

Segundo a atriz, os bancos não ganhavam nada de novo se ela voltar a defendê-los, têm que vir outros. Dá o exemplo dos engenheiros que constroem as pontes não são quem faz a manutenção. «É preciso cortar o cordão umbilical.»

Todas as 12 citações gravadas nos 12 bancos foram as citações escolhidas de 12 escritores portugueses. Dos 12, só já cá está um entre nós. Por isso, foi a citação escolhida e que transcrevemos aqui:

«Um Povo que lê nunca será um povo de escravos», António Lobo Antunes.

……

Projetos no futuro.

Aqui no Canadá a atriz está a trabalhar numa peça intitulada «Si les oiseaux» que será exibida no teatro Prospero em outubro deste ano. A peça fala da violência que vivem as mulheres durante as guerras.

Juntamente com a ATA (Associação de Teatro do Algarve) e num projeto de Michael Mckinsey, a adaptação da sopa de pedra em francês como fábula intercultural, será levada até ao Algarve em Portugal.

«No fundo o que interessa é o futuro dos bancos independentemente de onde vem a ajuda», Isabel dos Santos.

Comunidade
Com o evento Metropolis bleu a decorrer e no âmbito das actividades realizadas no dia do livro e dos direitos de autor, o jornal LusoPresse entrevistou Isabel dos Santos, mentora do projecto que levou à construção dos bancos ao longo do Boulevard Saint-Laurent, que nos revelou alguns detalhes da elaboração e concretização deste projecto aquando da sua passagem como vareadora na Câmara Municipal de Montreal.
Isabel dos Santos.doc
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