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rss  Vol. XIX - Nº 328         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 11 de Agosto de 2020
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Editorial

O elefante invisível

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Costuma-se dizer que não há pior cego do que aquele que não quer ver. Isto aplica-se perfeitamente ao Parti Québécois (PQ) que vai de olhos fechados eleger para o dirigir aquele que ficará na história como o coveiro do partido de René Lévesque.

Pierre Karl Péladeau, PKP tout court, não tem nada do que se espera dum líder. Sobretudo dum líder dum partido que aspira a fazer do Quebeque um país independente. Dum líder de quem se espera altruísmo, abnegação, força de caráter, constância nas ideias, gestão responsável, transparência, empatia e lealdade para com os adversários.

PKP nasceu com uma colher de prata na boca, como dizem os franceses. Foi o pai dele quem criou a Québecor. Ele recebeu a empresa em herança. Em jovem, era até comunista. Depois, quando se viu à frente da empresa familiar, virou capitalista. E dos mais assanhados. Capitalista e federalista.

Segundo os registos do Diretor das Eleições do Quebeque, entre 2005 e 2008 fez vários dons ao Partido Liberal do Quebeque e ao antigo partido Action Démocratique, num total de 8 000$, e 1 500$ ao Partido Conservador do Canadá. Nunca fez nenhum dom para o partido independentista Bloc Québécois. A primeira contribuição que fez para o PQ foi em 2010, no valor de 3 000$. O ano passado só fez um dom de 200$ para o partido que agora quer dirigir.

Isto quanto à constância das suas opiniões e da sua ideologia.

Em 1998 resolveu investir quase mil milhões de dólares nos órgãos de comunicação ingleses do resto do Canadá, adquirindo a cadeia Sun Media que contava com 75 jornais, ente os quais o Toronto Sun, conhecido pela linha editorial antinacionalista quebequense. Em 2007 investiu mais de meio milhão de dólares na criação duma cadeia de televisão ultra conservadora, à imagem da Fox News americana, cujo moto de predileção era o Québec Bashing.

O ano passado, quando se decidiu pela política nacionalista quebequense, resolveu vender os jornais e a televisão fora do Quebeque por 316 milhões. Ou seja por menos dum quinto do que lhe custou.

Em 2008, a tipografia fundada pelo seu pai onde eram impressos todas as publicações do grupo, Québecor World, foi à falência.

Isto quanto à sua capacidade de gestor financeiro.

Na noite final da campanha eleitoral em abril do ano passado, que levou o PQ a morder a poeira, enquanto a líder derrotada, Pauline Marois, não chegava ao palco para agradecer o trabalho dos militantes, PKP veio tentar levantar os ânimos da assistência que se ia esvaziando da sala gritando palavras de ordem como «comunidade» e «solidariedade» – isto da boca de um homem que tinha feito 16 lock-outs durante a sua gerência de Québecor e fechado um infantário na sede da companhia para fazer diminuir as despesas com o pessoal.

Isto quanto à sua noção de altruísmo.

No ano 2000, com o apoio do governo do Parti Québécois, sob a direção de Lucien Bouchard, que abriu as mãos largas à Caisse de Dépôt, PKP compra a Videotron e a rede de televisão TVA, criando deste modo o maior empório mediático do Canadá. Nesta transação a Caisse ainda hoje tem muitos anos à frente até poder recuperar os 3,2 mil milhões de dólares que investiu nesta compra cujos lucros só beneficia à família Péladeau. Sim, PKP é um multimilionário mas graças ao dinheiro dos contribuintes de todo o Quebeque.

Isto quanto à sua noção de solidariedade.

Até ao momento de entrar na política, PKP tudo fez para deitar abaixo a Radio-Canada utilizando os seus próprios mídia para denunciar o que ele considerava uma concorrência desleal da emissora nacional do Canadá. Foi mesmo ao ponto de pedir a exclusividade a vários artistas e de por na lista negra todos aqueles que trabalhassem para a concorrência.

Agora, quando foram anunciados os cortes nos orçamentos da R-C, veio a terreiro a defender a R-C como um bem comum imprescindível para a cultura francesa.

Isto quanto aos verdadeiros interesses que o animam.

Durante a corrente campanha para a direção do PQ, não tem olhado a meios para arredar os adversários. O mais recente incidente de que tanto se tem falado deu-se no domingo no debate em Rimouski, durante o qual não hesitou em puxar pelos colarinhos do seu adversário Pierre Céré e de o apostrofar – «Toi, mon tabarnak, je vais t’acheter. Combien tu coûtes?»

Esta saída intempestiva não é única como bem sublinhou o jornalista do Maclean’s Pierre Patriquin. Antes pelo contrário. Faz parte da sua atitude normal quando o contrariam, como foi o exemplo que aquele jornalista relata no seu artigo «Citizen Péladeau: What will the PQ do with their Péladeau moment?». Durante um encontro para recolha de fundos para um museu de Montreal, onde se encontravam também Jean Chrétien, Lucien Bouchard e Bernard Landry, um dirigente da companhia rival Astral, Pierre Rodrigue, estendeu-lhe a mão para o cumprimentar. Também neste caso, PKP puxou pela camisa do outro e gritou-lhe à face «Tens muitos tomates para me vires cumprimentar. Que ninguém da Bell ou da Astral se atreva a vir dar-me os bons dias»...

Isto pela empatia e lealdade para com os adversários.

Com a compra de Videotron e TVA assim como os demais jornais e revistas que se lhe seguiram, 44 porcento de toda a informação que se faz no Quebeque é feita por jornalistas que trabalham para a Québecor, e que mais cedo ou mais tarde terão de responder por qualquer crítica que façam ao «patrão».

No passado domingo, durante o programa «Tout le monde en parle» a questão da independência dos jornalistas da Québecor veio à baila quando chegou a vez de falarem do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A jornalista veterana Chantal Hébert não hesitou a dizer bem alto o que pensa quando o animador perguntou: se «PKP pode continuar a controlar o império Québecor e ser ao mesmo tempo líder do PQ e provavelmente primeiro-ministro, quem sabe?»

« Y’a pas de réponse autre que de se départir d’un empire médiatique quand on devient chef de parti ou premier ministre. Pas besoin de passer un test de personnalité pour savoir si on est fin ou pas fin. Moi, je suis journaliste politique et je n’écrirais pas pour une entreprise de presse sur la politique dont le propriétaire est le chef d’un parti. C’est même pas le jour où il est premier ministre. C’est une situation impossible dans un environnement où c’est déjà difficile pour les journalistes de durer – parce qu’on est dans un marché précaire – l’idée que quelqu’un va se sentir libre d’écrire sur quelqu’un qui est chef d’un parti qui est aussi le propriétaire de son entreprise et donc, son boss, moi, je crois pas à ça.»

O único jornalista da Québecor ali presente evitou a questão e limitou-se a dizer que era uma boa questão.

Logicamente, no dia seguinte, a jornalista do Jornal de Montreal que se ocupa de fazer o resumo desta emissão, falou de tudo menos do que se disse sobre PKP.

Isto quanto à transparência.

E é neste homem, com tão poucas qualidades, que os nacionalistas independentistas veem o salvador, o messias que lhes vai trazer a terra prometida!

Mas, como se diz na nossa terra, a esta hora ainda a procissão vai no adro…

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