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rss  Vol. XIX - Nº 327         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 03 de Abril de 2020
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Sopram os ventos da Juventude nas margens Atlânticas

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

“Ficou-nos esta sina de permanecermos unidos. Porque somos irmãos. Continuamos por cá. Entre mar e céu, entre marés e montanhas. Divinos, quase. As coisas ou nós? Tudo. [...]Desde o «cagarro» de Santa Maria ao «manezinho» da Ilha. Vocês continuam por cá. E nós estamos aí.

(Daniel de Sá, 2008)

 

A afirmação «minha cidade de Florianópolis» já não é mais simples força de expressão de uma moradora tubaronense que há quarenta e cinco anos optou por aqui viver. Fato sacramentado pelo Vereador Afrânio Boppré (PSOL) e outorgado pela Câmara Municipal de Florianópolis. No dia 23 de março, data do aniversário de 289 anos de cidade, fui agraciada com o título de Cidadã Honorária, uma honra inegável e incontestável.

O aniversário de Florianópolis coincidiu com a comemoração dos 30 anos de criação do Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina. Tal celebração motivou a vinda dos representantes do Governo Regional dos Açores – Rodrigo Oliveira, Subsecretário Regional da Presidência para as Relações Externas e Paulo Teves, Diretor Regional das Comunidades.

Em atenção ao convite do Prefeito Municipal de Florianópolis, Cesar Sousa Júnior, estive presente por ocasião da visita do Subsecretário da Presidência, Rodrigo de Oliveira e do Diretor das Comunidades, Paulo Teves. Uma conversa mais produtiva e cordial, impossível. Tanto Rodrigo Oliveira como Cesar Sousa Júnior falaram cheios de entusiasmo dos Açores e de Florianópolis, reiterando o desejo de estreitar a parceria e proximidade institucionais com o aprofundamento das relações culturais, econômicas e turísticas.

O Subsecretário historiou os Açores de ontem e passeou com propriedade pelos Açores de hoje, onde vivem cerca de 250 mil habitantes, numa área de 2 333km2, ressaltando a privilegiada localização geográfica, o que lhe confere uma posição geopolítica e geoestratégica e um inevitável processo de interação com o exterior, expandindo-se em convivências sociais e globais. Não deixa de ser uma porta aberta para os irmãos catarinenses. É bom lembrar que os Açores de hoje vive um momento de mudanças quer no campo econômico, onde a agropecuária é uma das principais fontes de renda da região, em que se observa o visível crescimento do setor turístico; quer na produção científica e cultural, na educação das novas gerações e na promoção social da população.

Já o Prefeito de Florianópolis, não deixou por menos, ao falar sobre o crescimento sócio econômico, com destaque para os avanços no setor de serviços e no turismo. Sobretudo, ressaltou o desenvolvimento social do município (melhor IDH do País entre as capitais) e as conquistas no campo da educação. Tudo isso faz da capital dos catarinenses a cidade de melhor qualidade de vida do País.

Assisti a uma conversa animada entre dois jovens gestores que carregam no olhar a maturidade de quem faz uma trajetória profissional e pública respeitada. Incluo Paulo Teves, cujo trabalho dedicado às comunidades é uma referência desde a inigualável administração de Alzira Serpa Silva, a grande impulsionadora das relações entre Açores e Santa Catarina.

Cesar Sousa Júnior e Rodrigo Oliveira falaram de projetos futuros como a cessão de espaço no Mercado Público para Casa dos Açores (aliás, na administração Angela Amin foi cedido um espaço público para o mesmo fim, com o apoio do Governo dos Açores e que não teve a continuidade esperada); a presença dos Açores no futuro Museu da Cidade, em prédio edificado pelo açoriano Thomas Joaquim da Costa e da próxima visita do Prefeito de Florianópolis aos Açores. Olhando-os, percebi que, naquele instante, eu testemunhava o nascimento de uma nova era. Senti o forte soprar dos ventos da nova geração a oxigenar os laços estabelecidos ao longo da nossa história comum. Diante de mim desenhava-se a certeza de que o construído num passado, não tão distante, não estava fadado a desaparecer, muito menos de arrefecer a memória indelével dos afetos partilhados nas duas margens e consolidada por tantas ações de cooperação e tanto ir e vir pelos caminhos do mar. Sei que naquela sala eu representava o ontem, a página escrita que jamais será apagada.

Novos rumos se abrem. Novas vozes enriquecem o diálogo iniciado, em 1984, com a ida aos Açores dos Professores Ernani Bayer e Hamilton Savi, na época Reitor e Vice-Reitor da UFSC, que tiveram no professor George Agostinho Silva um grande incentivador dessa aproximação e com a vinda do Professor Antônio Machado Pires, então reitor da Universidade dos Açores.

Um caleidoscópio de imagens, lembranças e cores me transportam no tempo fazendo recordar das primeiras caras açorianas que chegaram por cá e dos catarinenses por aí, cheios de curiosidades para desvendar a sua história. Governantes, reitores, professores, investigadores, escritores, poetas, cineastas, músicos, artesãos, artistas plásticos, fotógrafos, jornalistas, empresários, estudantes. Vozes que romperam séculos de história cultural por canadas de sua escrita, da sua arte. Por artérias da convergência o mundo das nossas Ilhas se aproximou de forma tímida numa iniciativa do IHGSC e da UFSC. Seguiram as assinaturas de protocolos com o Governo Regional dos Açores durante as visitas oficiais dos Presidentes João Bosco Mota Amaral, Alberto António Madruga da Costa e Carlos Manuel Martins do Vale César em cujo governo multiplicaram-se as ações e apoios a projetos culturais sempre visando fortalecer os laços identitários e promover o conhecimento da comunidade diaspórica.

Sorrio, deliciada, ao lembrar a passagem meteórica dos músicos Zeca Medeiros e de Luís Alberto Bettencourt; da apresentação da peça «Os sonhos do Infante» de Álamo Oliveira pelo Grupo Alpendre; a aventura das Filarmônicas União Praiense e União e Progresso Madalense da Ilha do Pico a desfilarem desde Florianópolis até São Joaquim e da emoção do Padre Marcos Martinho na coroação à moda do Pico na Festa do Divino de Santo Antônio de Lisboa; da alegria da nossa gente ao receberem as Coroas do Espírito Santo doadas pelo Governo dos Açores e, também, pela Associação de Municípios Ilha do Pico; da vinda de colegas professores da Universidade dos Açores e dos saberes partilhados; do encantamento dos jornalistas da RTP Açores, Isabel Gomes e João Simas com a Ilha de cá e a participação de Alzira Serpa Silva na secular Procissão do Senhor dos Passos, logo na sua primeira visita, escancarando a porta açoriana, de lés a lés, para o vento benfazejo das ações concretas, educativas, formadoras, num crescente intercâmbio de ideias, experiências, projetos literários e artísticos. A edição do Caminhos do Mar, Antologia Poética: Açores – Santa Catarina (orgs. Bettencourt,U/Junkes,L.) e o «Encontro Travessias», realizado em outubro de 2005 em Florianópolis e Porto Alegre, reuniu os escritores açorianos Álamo Oliveira, Eduíno de Jesus, Ivo Machado, Joel Neto, Vamberto e Adelaide Freitas e escritores e jornalistas catarinenses, renascendo o diálogo plural, desde a Ilha de Santa Catarina até o «Porto dos Casaes», embalado pela travessia empreitada ou pelo movimento incessante das marés.

Inesquecível a minha emoção ao pisar a Ilha de São Miguel a 2 de novembro de 1986. Sem dúvida amor à primeira vista. Fui precedida por Walter Piazza, Celestino Sachet e Osvaldo Ferreira de Melo – agraciado com a Comenda Infante Dom Henrique em 1989, outorga do Presidente Mario Soares. De lá para cá, muita água rolou por este «Rio Atlântico» -- do Onésimo Teotónio Almeida e que aqui esteve a palestrar, em julho de 2002.

Muito se fez nestes anos todos e muito há pra se fazer. A necessidade premente de incentivar as relações institucionais entre cidades-irmãs, valorizando as afinidades e desenvolvendo as potencialidades econômicas e sociais e cito, à guisa de exemplo, a geminação de Florianópolis com as cidades de Angra do Heroísmo em 1995 e Ponta Delgada desde junho de 2003, por ocasião da visita oficial da Prefeita Angela Amin (retribuída anos mais tarde por Berta Cabral).

Quem sabe se, na visita que o prefeito de Florianópolis pretende fazer aos Açores, não possa incluir um encontro às cidades-irmãs? Que tal vir para as Grandes Festas do Espírito Santo do Concelho de Ponta Delgada em julho? Fica aí a sugestão.

Esse é o momento da nova geração, o futuro. Chegou a sua vez de colocar na vitrina as «nossas» potencialidades e avançar por avenidas de mar e de se encontrar na esquina das Ilhas.

Afinal, sopram os ventos da Juventude...

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Comunidades
“Ficou-nos esta sina de permanecermos unidos. Porque somos irmãos. Continuamos por cá. Entre mar e céu, entre marés e montanhas. Divinos, quase. As coisas ou nós? Tudo. [...] Desde o «cagarro» de Santa Maria ao «manezinho» da Ilha. Vocês continuam por cá. E nós estamos aí.”
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