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Onésimo, Um Homem de Epifanias

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

«Açorianidade é a açorianidade de quem a diz: a sua visão

sobre o seu modo de estar-se no mundo açoriano e do

que se lhe deverá seguir, ou, para os de fora, a sua visão

da mundividência, do ser e do dever ser dos Açores.

Açorianidade é aquilo que são e querem ser os açorianos.»

Onésimo Teotónio Almeida, Açores, Açorianos, Açorianidade.

Onesimo capa de livro.jpg

Passou a fazer parte do cenário matinal a leitura diária dos emails e das «notas bárbaras» do Onésimo Teotónio Almeida. Mensagens despachadas dos mais diferentes e inimagináveis lugares. Notas ilustradas por imagens maravilhosas, clicadas por ele e compartilhadas em tempo real com seus muitos amigos espalhados por distantes geografias. Mas felizmente que existe a Internet para no longe estarmos com os amigos e em dias assim é sem dúvida uma bênção «(OTA, por email, 19/12/2005). Costumo dizer que o Onésimo não está no facebook porque ele sozinho já é uma rede social.

Como falar sobre o Onésimo, um homem de epifanias, que vive à conversa com meio mundo, que manuseia com mestria as palavras, ditas ou escritas, que instiga a descoberta de novas ideias e que gosta de socializar o que aprende?

Os anos de amizade, e já são alguns, permitem afirmar com a maior convicção de que é um ser humano admirável no seu jeito generoso de se comunicar com toda gente e na sua vontade de querer entender o mundo, a sociedade, as pessoas.

Descobri, por acaso, na década de oitenta, o seu Açores, Açorianos, Açorianidade (Ponta Delgada: Signo, 1989) catalogado na letra «N» de Nemésio, na biblioteca de uma instituição cultural local. Nunca esquecerei o meu assombro ao mergulhar na sua leitura e refletir sobre a questão da açorianidade e o nosso jeito de ser e estar açoriano, importante legado da transnacionalidade cultural a partir da emigração açoriana do Século XVIII.

Encontrei Onésimo pela primeira vez, ao vivo e a cores, há dezanove anos na cidade da Horta, na Ilha do Faial. Primeiro conheci a sua verve de impagável espírito gozador «sempre de plantão», numa passagem hilária, bastante conhecida, que já rendeu muito pano para mangas e que aqui reproduzo em poucas palavras. Encerrava a minha intervenção num evento que pretendia como uma frutuosa reflexão coletiva sobre açorianidade, afirmando solene que eu também era açoriana, mas uma açoriana de duzentos e cinquenta anos. Foi o que bastou para Onésimo, lá do fundo da sala, retrucar no ato com a conhecida sagacidade de captar um instante e não deixar passar uma boa história. – Olha que está muito bem conservada! Começava uma grande amizade e o episódio está registado no «Prosema a Santa Catarina» em Onze Prosemas (e um Final Merencório), 2004 p.45, que são cadinhos de deliciosa e lírica prosa-poema que, mesmo sem pontuação, resplandecem no bailado de frases livres, emotivas, espontâneas e com imensa graça.

Desde então, comecei a andar em «dobadoira» (termo que tomo emprestado do de Eduíno de Jesus) pelo universo cultural açoriano e não mais parei… investigando, escrevendo sobre as tradições culturais açorianas (de cá e de lá), descobrindo o papel da literatura açoriana na formação da identidade, partilhando da amizade de uma «malta de escritores» que o tempo tratou de multiplicar e fortalecer e me apaixonando por este mundo de ilhas –. que a geografia batiza de Arquipélago.

Todo este longo preâmbulo vem a propósito do convite que recebi de João Maurício Brás para participar de um projeto literário sobre o pensamento e a obra de Onésimo.

O pedido de colaboração obteve da minha parte adesão imediata e incondicional. Não pensei duas vezes ao aceitar e manifestar a satisfação de ter o nome incluído no meritório projeto. Até porque, anos a fio, tenho guardado em pastas e «nuvens», recortes de jornais, papelinhos rabiscados, ensaios, artigos e entrevistas publicadas por algures, «notas bárbaras» e uma infinidade de emails trocados com Onésimo a partir de 2002, corroborando a fama de missivista contumaz. Trocas substanciais sobre os mais diferentes temas, memórias culturais, respostas aos incontáveis questionamentos e pedidos de orientação que se somam aos saborosos e vibrantes relatos de viagens. Tudo isso constitui um dossier robusto, rotulado de Onesimiano.

Aqui estou, pois, a escrever sobre um grande amigo que respeito e admiro muito. Vou buscar nas «pontes entre as ilhas do mar e as ilhas da terra de ambas as margens do oceano, agora cada vez mais Rio Atlântico» de que fala no O Peso do Hífen. Ensaios sobre a Experiência Luso-Americana (2010:207), o que me encanta na sua escrita e no jeito de ser onesimiano, que aprendi a conhecer em sucessivos encontros a partir do ano de 1995 na cidade da Horta. E depois, em muitos outros, por Ponta Delgada, Lisboa, Funchal, Horta, São Roque do Pico, Florianópolis, não necessariamente nesta ordem, mas sempre em dose dupla. Depois, nos contactos, via Internet, que nos tornaram «vizinhos».

Da sua escrita? Gosto de tudo que escreve nos géneros, ensaio, crónica e ficção. Textos com um humor inesgotável, inteligentes, ricos na informação e refinados no trato da linguagem clara, cadente, ágil no fluir, dando movimento à sua escrita escorreita e leve. As suas «dia-crónicas», por exemplo, falam de histórias narradas com sensibilidade, factos corriqueiros que poderiam passar despercebidos, mas que ele realça em sua prosa contagiante, retratos de mundivivências por espaços da L(USA)lândia, a décima Ilha ou nos Açores, a terra natal – Ilhas de bruma fincadas no meio do Atlântico Norte. No seu estilo inigualável, alonga o olhar para além do «Rio Atlântico» e abraça outros povos e mundos, palcos de novas histórias de enredos fascinantes tiradas da cartola mágica de Onésimo.

Não há como não se apaixonar por sua irreverência, marca iniludível da sua sabedoria, vivacidade e prosa humorada. Tudo a seu jeito e ele se reconhece: «Desde que me recordo, o humor fez parte dos meus afetos. Sempre me pelei por uma história engraçada – de ouvir e contar – uma anedota, um dito, uma saída oportuna, alguma tirada com verve (...). Descontrai-me a mim e aos ouvintes» (entrevista a José Ferreira, por email, 2007).

Os livros de Onésimo me fazem muito bem e não só a mim. A propósito, cito o escritor Eugénio Lisboa: «O bem que os livros de Onésimo me têm feito – não sei como pagá-lo.» (Onésimo Português sem Filtro, Uma Antologia (2011:391) Da sua profícua produção literária tem-se a notícia que mais um livro seu foi publicado para o gáudio de seus leitores. Intitulado Minima Azorica (2014), o novo livro apresenta uma coletânea de ensaios sobre os Açores, presença constante na sua literatura.

Cabe uma referência às «Notas Bárbaras,» milhares delas que, diariamente, atravessam o horizonte cibernético, repletas de entusiasmo por si e pelos amigos, alunos e até conhecidos de viagem, quase sempre acompanhadas de lindas imagens, fotografadas também por Onésimo. Estas notas despertam a curiosidade de quem as recebe e revelam o homem curioso que sabe brincar com as palavras, vesti-las, dominá-las e deixá-las seguir o seu destino. Ao ler as suas «notas bárbaras» sente-se o seu sorriso maroto, o olhar perspicaz a «inticar», a provocar descobertas, a aplaudir. Puro efeito Onésimo.

Vitorino Nemésio, em Sob os Signos de Agora, cuja primeira edição é de 1932, ensina: «Só o homem curioso de tudo pode preencher dignamente o lugar que a vida lhe deu».

Onésimo Teotónio Almeida é esse intelectual brilhante, o pensador independente, o professor, o filósofo, o escritor, o observador da realidade social, detentor de uma genética criativa e conversa culta, cheio de ideias e que adora «cavaquear» com seus amigos e os que ele vai granjeando mundo a fora. Na condição de incansável viajante, passa a vida a correr e a contar histórias. Até o amigo João Ubaldo Ribeiro, escritor brasileiro que recentemente nos deixou, dizia que o Onésimo a contar histórias é «imparável.»

Não posso concordar por inteiro com a afirmativa. Porque para atender um amigo ou botar a palavra no momento certo, o Onésimo é «parável». Pronto para ajudar e ser «útil» tal qual o significado do seu nome.

Daí a homenagem espontânea a quem não pede, mas merece os confetes do reconhecimento.

Crónica
«Açorianidade é a açorianidade de quem a diz: a sua visão
Onesimo Um homem de Epifanias.doc
no
O tempo no resto do mundo

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