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rss  Vol. XIX - Nº 324         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 02 de Abril de 2020
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O acolhedor café do amigo Tomᚠem Denver

No Zuri, os amigos em vez dos computadores!

Jules Nadeau

Texto e foto de Jules Nadeau

A cada uma das minhas expedições a Denver, desenvolvo os meus hábitos e incrusto-me num número crescente de pontos de referência. No bairro de Highland, a minha avenida preferida é a 32ª. O mesmo estilo, o mesmo ambiente que a rua Fleury (perto da avenida Christophe-Colomb) em Montréal, onde gosto de me descontrair e escrever – em especial no café Le Gourmet.

Na América, tinha-me habituado a ir escrever no computador portátil para o Common Ground, um local antigo de soalhos que rangem, de madeira gasta pelo tempo e onde apareciam uns amantes da cafeína que usavam um gorro de l㠖 mesmo em julho. Com o seu fecho inesperado, tive de emigrar umas quantas portas mais longe para o pequeno café Zuri. Cinco mesas apenas. Computadores completamente proibidos. O olho severo e penetrante do patrão, um quadragenário de cabeça rapada.

Mas o seu café é saboroso (como o do Gourmet). E, um valor acrescentado, como para adoçar o líquido escuro e escaldante, o New York Times e o Wall Street Journal são oferecidos gratuitamente à clientela do bairro. (Nada do Denver Post, único jornal local, sem qualquer interesse.) Particularidade: não se vai ao Zuri para escrever no Mac. O Zuri é antes de tudo o mais para os amigos!

Um Checo de Praga

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TomᚠVojtek, a esposa Marianne e a pequena Dominique recebem gente de todo o lado no pequeno café chamado «Zuri» (como Zurique, na Suíça). O café de Denver é super familiar e ultra cosmopolita.

Peguei no cartão-de-visita cor-de-laranja do proprietário. «Vojtek, o seu nome é eslavo? Europa de Leste?» O homem de t-shirt parece contente por quebrar o gelo com mais um cliente. «Sou checo. O meu nome é Tomᚠque se pronuncia tomache.» (Espera! Como em português.) «E você? Continuou o tipo de 47 anos e ar descontraído – cujo inglês denota poucos traços de sotaque europeu. Jules? É o nome do meu autor preferido Jules Verne. Vinte mil léguas submarinas».

À procura dum bom assunto para um artigo para o LusoPresse, tinha pensado na possibilidade de escrever sobre o ajuramento do governador do Colorado. Uma cerimónia muito oficial à americana para John Hickenlooper nas escadas do histórico Capitólio. Uma manhã glacial em que estávamos todos tapados como frascos de mel. Mas preferia mudar de assunto. «Gostava mais de fazer o seu retrato e falar da 32ª avenida. Os amadores portugueses de café não amargo vão-se identificar mais consigo que com um político. Mesmo se este geólogo de obediência democrática goza de uma boa reputação», confessei-lhe.

«A mulher de Hickenlooper vem aqui de tempos a tempos, diz imediatamente TomᚠVojtek, que se vem sentar à minha mesa (marcada pelo logo dum computador cortado por uma linha vermelha, como para a proibição de fumar). Duey Kratzer, o distribuidor do vinho Mondo Vino, assim como a sua irmã Lisa, veem também. Conheço bem Lois Harvey, a livreira de Westside Books... Antes, os clientes vinham aqui para se concentrarem no seu Mac, mas um dia decidi que eles iam entrar no Zuri para conversar. E isso mudou tudo!» diz ele a sorrir antes de me dar o exemplo seguinte.

«No outro dia, a minha vizinha, uma advogada, estava a limpar a neve da minha entrada. Entrou um polícia e pediu-me uma pá. Uma mulher duns quarenta anos que estava à separa da hora dum rendez-vous aqui perto perguntou-me o que é que se passava aqui? Como se se tratasse dum assunto de família», conta-me com orgulho o amigo Tomᚠque resume bem o estilo da 32ª e da rua Fleury.

As minhas recordações de 1968

Tomᚠjá trabalhou como freelancer para a revista de motas intitulada Motoráj (na República Checa) e responde de bom grado a todas as minhas perguntas. Pessoalmente, tenho uma ligação política quase sentimental com os Checos e os Eslovacos. Em agosto de 1968 encontrava-me em Praga quando os Soviéticos asfixiaram brutalmente o «socialismo com rosto humano de Dubcek». Mais recentemente, contei nas páginas do LusoPresse o meu encontro caloroso com a ex-vedeta do hóquei Marian Stastny no seu clube de golfe em Lévis. O seu sobrinho jogava ainda há pouco tempo para o Avalanche de Denver.

«Quando os Russos chegaram a Praga, tinha apenas oito meses. Nasci em Radotin, agora fusionado com a capital. Em 1987, sob a influência do meu pai que tinha falhado a sua fuga do país, declarei às autoridades que ia de férias e não voltei senão em 1990. Depois da queda do comunismo. Era o sonho de ir ver do outro lado. O meu pai Ludvik quase me tinha feito uma lavagem ao cérebro falando-me do lado de fora da Cortina de Ferro: a Alemanha e sobretudo os Estados Unidos.

O jovem Tomᚠaprendeu o russo na escola durante doze anos. O alemão também. Assim, foi na Alemanha de Oeste (quatro anos antes da queda do muro de Berlim) que ele trabalhou numa fábrica para se aclimatar ao capitalismo. Depois o grande salto em 1991 para o país do Tio Sam. Primeiro brevemente em Nova Iorque e em São Francisco. Depois em Chicago onde compatriotas que deviam ter protegido o seu pai no outono de 1968 ajudaram o seu filho Tomáš. Durante três anos, foi o trabalho de pintor e de marceneiro que lhe assegurou o sustento. Um regime simples porque não nadava em dinheiro.

A solidariedade entre imigrantes? O homem da Boémia anima-se e entristece-se ao falar das suas experiências com os seus camaradas checos. Ciumentos, os antigos exploram os novos. «Não quero saber mais nada deles!» afirma-me sem nenhuma hesitação. Pergunto-me se se passa o mesmo em todas as outras comunidades.

Mais respeitado no Colorado

De Illinois, Tomᚠcomeçou uma correspondência íntima com uma pessoa do sexo oposto de Denver. Pouco depois, ele anuncia-lhe: «Vou a sério.» Resposta rápida: «Precisamos de falar», da jovem desejosa de tchecar os avanços amorosos.

O acolhimento foi mesmo assim caloroso. Na cidade do vento «um Checo é sinónimo de cheap labor. Eles são ao todo 60 000 a se fazerem a competição na grande comunidade checa dos USA. Aqui, ao contrário, quando digo de onde venho ficam admirados. Wow, Praga é cool!»

Avanço um pouco mais. E aqui a sua mulher Marianne? E a pequena Dominique de dois anos, que corre como pode no local de 500 pés quadrados? Como foi?

«Em Boulder, conhecia uma alemã amiga da família que me tinha pedido para fotografar a sua bela casa de tipo Bauhaus. Um belo dia, a sexagenária pediu-me para acolher uma suíça que vinha de férias. Adivinhe o seguimento. O Cupido pregou-nos uma partida e decidimos viver juntos. Marianne deixou o pai suíço, a mãe alemã, assim como o seu trabalho em Ravensburg para se instalar à sombra das Rochosas. A cegonha trouxe-nos um bebé em agosto de 2012. Eu falo à Dominique em checo e ela fala-lhe em alemão – no dialeto suábio.» Resumindo, já trilingue – sem a lei 101. Talvez mais tarde o espanhol para ser uma pequena Americana poliglota.

A especulação porta-se bem

Antes que a nossa curta entrevista nos leve a uma biografia completa, procuro uma comparação com a nossa rua de Ahuntsic. «A 32ª avenida arrisca-se a mudar rapidamente. Os promotores e os proprietários querem encher os bolsos num bairro atraente numa cidade em pleno crescimento. Exemplo, o popular Common Ground teve de mudar os penates porque lhe duplicaram a renda mensal de 5 000 para 10 000 dólares. O restaurante vizinho Heidi teve de fechar pelo mesmo motivo. Espero que a livreira Lois Harvey consiga aguentar. (Verificação feita, a nossa amiga não tem nada a recear do irmão que é o proprietário do local.)

«Eu no 3718 West, ainda tenho três anos. Depois...? Duey Kratzer, ele, não tem nada a recear porque os Denveritas veem de todo o lado por causa dos seus álcoois topo de gama.» Donde os seus Portos portugueses. (Outra verificação: ele mostra-me uma meia garrafa de Kopke Colheita 1947 que vai vender a 275 dólares US.)

O animador social Tomᚠquer que toda a gente se conheça. Ao longo dos dias, apresenta-me aos velhos clientes. Um casal da 136ª avenida (na verdade nada perto) que se porta voluntário para vir guardar Dominique aos sábados e aos domingos. Carter, um Ianque puro açúcar, cujos antepassados vivem na América desde 1634 (muito antes do primeiro Nadeau ter chegado em 1660) faz-me muitas perguntas sobre o Quebeque e o que é que eu faço nos Estados Unidos. Outra vez é Karl, o Austríaco ou Jason cuja cara-metade estudou em Paris.

Todos em Praga no mesmo dia

O encontro mais inesperado aconteceu quando eu examinava (sozinho) o espesso passaporte americano bem cheio de um antiquário arménio de Denver. «Você viajou muito?» lançam-me familiarmente ao passar ao meu lado. Um dos benevolentes curiosos instala-se na mesa vizinha com uma excelente pastelaria (duma padaria francesa de Denver). De boné, Sean Ugrin, uns quarenta anos, revela-me o essencial sobre a sua família. «O meu pai Imre foi um heroico resistente da insurreição dos Húngaros contra os Soviéticos em outubro de 1956.» Não me posso impedir de lhe mencionar que passei brevemente por Budapeste durante o verão de 1968.

Entre dois golos de café, Sean Ugrin reage com uma certa animação. «1968? Estava lá?...» Algumas frases mais tarde, apercebemo-nos que ele e eu, encontrávamo-nos em Praga no mesmo dia, o 20 de agosto de 1968, no momento da invasão russa. Sean tinha então 14 meses. O seu pai magiar quase ia aí deixando a pele quando a polícia checa interrogou rudemente o «inimigo do povo» e ameaçou prendê-lo. «O seu passaporte neozelandês e a esposa desse país salvaram-lhe a vida», explica-me Sean que habita a duas ruas da casa da minha filha. Para ser mais preciso, de facto, Tomáš, Sean e eu, todos os três, encontrávamo-nos na cidade de Kafka, no mesmo dia, há quase meio século.

Por outro lado, visto que o homem da orgulhosa Boémia conhece toda a gente em Highland, pergunto-lhe se ele não conhece ao menos um Arménio ou um Português. Negativo no primeiro caso, mas positivo no segundo. «Sim, conheço um que vem aqui regularmente. Um verdadeiro Português que gosta de futebol. Hei de pedir-lhe para o contactar.» De facto, alguns dias mais tarde, recebi um mail dum certo Jason Almeida, originário de São Miguel. Exatamente o que procurávamos (o chef de redação Norberto Aguiar e eu) desde há alguns anos para tentar explicar quem são os organizadores de Festa do Espírito Santo em Denver.

Infelizmente, no momento de fazer traduzir estas linhas, o senhor Almeida nunca mais deu seguimento à minha primeira resposta eletrónica. Nem às mensagens no seu telemóvel. Moral da história: é mais fácil encontrar o filho dum Checo e o filho dum Húngaro no Colorado que se encontraram em Praga com um Quebequense há meio século atrás que um honesto Almeida dos arquipélagos.

(Última verificação feita, a advogada vizinha do Zuri e o seu marido, que trazem os dois jornais para o café todas as manhãs, são de ascendência quebequense – chamam-se Piché e Vincellette. E a cereja no cimo do bolo: a nova empregada que Tomᚠacaba de contratar, filha de um aviador americano, nasceu nos Açores. Um mundo pequeno?)

Reportagem
A cada uma das minhas expedições a Denver, desenvolvo os meus hábitos e incrusto-me num número crescente de pontos de referência. No bairro de Highland, a minha avenida preferida é a 32ª. O mesmo estilo, o mesmo ambiente que a rua Fleury (perto da avenida Christophe-Colomb) em Montréal, onde gosto de me descontrair e escrever – em especial no café Le Gourmet.
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