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rss  Vol. XIX - Nº 324         Montreal, QC, Canadá - domingo, 16 de Fevereiro de 2020
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Editorial

A demissão de Bolduc

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Quando veio a lume logo no início do mandato do novo governo liberal do Quebeque que o novo ministro da Educação, Yves Bolduc, tinha acumulado uma choruda compensação em salários, prémios e honorários durante o período em que esteve na oposição, tal notícia levou-nos a reclamar a sua demissão.

Era evidente que o homem se lançara em política mais interessado na sua situação financeira do que na dos seus eleitores.

Durante o período em que esteve na oposição, não só recebeu o salário de deputado, continuou a beneficiar dos honorários de médico e, como se não bastasse, conseguiu obter mais 215 mil dólares de subsídios por ter conseguido 1600 novos pacientes como médico de família, no espaço de alguns meses. É preciso ser-se muito ganancioso e trabalhar dia e noite, sem descanso, para obter um tal resultado. 1600 novos pacientes em tão pouco tempo, fazem-nos imaginar o consultório dele transformado em fábrica de salsichas…

Agora, como que para provar a sua sede desenfreada de abusar do sistema, assim que se demitiu, ei-lo que volta a dar razão a todos quantos reclamavam a sua saída, visto que não prescindiu do subsídio de transição de 155 mil dólares previsto na lei para os deputados que deixam a vida política.

É verdade que tudo isto foi tudo feito dentro da legalidade. Mas nem tudo o que é legal é moral...

O subsídio de transição previsto na lei é para ajudar os homens e as mulheres que deixam a vida política a encontrar uma nova orientação na vida civil. Ora o Dr. Yves Bolduc não está neste caso. Como médico tinha trabalho garantido logo no dia a seguir à sua demissão. O Dr. Bolduc voltou a abusar dos fundos públicos, sobretudo numa época de restrições e austeridade.

Mas, bem vistas as coisas, ele acabou por se demitir pelas más razões. Na verdade não havia nenhuma razão objetiva para se demitir só pelos ataques dos sindicatos e da oposição.

Segundo a presidente dos sindicatos do ensino CSQ, Louise Chabot, «Ele [o ministro] tinha uma visão que nos parecia muito fraca, para não dizer um desconhecimento e uma falta de julgamento importante em relação às preocupações em matéria de educação».

Isto bem espremido não quer dizer nada.

Olhemos com objetividade para duas das «suas faltas de julgamento» que vieram repetidamente na imprensa.

No verão do ano passado, a propósito dos cortes que certas comissões escolares fizeram na compra de novos livros para as bibliotecas, quando os jornalistas lhe perguntaram o que é que ele pensava, respondeu que nenhuma criança havia de morrer se não tivessem novos livros. A classe jornalística, os humoristas e a oposição daí a deduzirem que o ministro era contra a leitura!

O que se pode concluir é que o ministro, além de mau político, era um péssimo comunicador.

O que ele devia ter dito é que não sabia se a decisão tomada pelas comissões escolares tinha sido feita por necessidade do controlo orçamental deste ano ou se o tinham feito dentro da estratégia de guerrilha contra ele pour causa da redução do número de comissões escolares e dos respetivos orçamentos. O que ele podia ter acrescentado é que não é a falta de livros novos que impede os alunos de lerem, tanto mais que há livros que cheguem para quem quiser ler.

Depois veio aquele episódio da aluna de 15 anos, numa escola secundária da região de Quebeque, que andava a ser suspeita de vender droga na escola. Havia várias vezes já que a aluna era revistada mas sem resultado. Até que um dia a própria envia uma mensagem a outra aluna a perguntar se ela queria «erva». Para azar dela o telefone tinha sido confiscado e a professora que o tinha leu a mensagem.

A diretora da escola e a professora obrigaram a aluna a despir-se numa sala, por detrás de uma cortina, e revistaram-lhe as roupas todas.

A aluna foi queixar-se aos jornalistas do Jornal de Montreal que fizeram uma grande propaganda deste abuso de autoridade. Os pais entregaram o caso a um advogado.

A diretora da escola defendeu-se dizendo que tomou a iniciativa para não ter que chamar a polícia, o que podia resultar num cadastro para a aluna.

Quando os jornalistas lhe perguntaram o que pensava deste incidente, o Dr. Bolduc, como ministro da Educação, em vez de responder que o assunto devia ser analisado à luz dos regulamentos existentes, os quais se não fossem claros deviam obrigar o Ministério da Educação a debruçar-se sobre a matéria. Em vez disso, o bom Dr. Bolduc, pensando que o título de ministro lhe dava o direito de falar de cátedra, respondeu que o gesto era permitido «desde que fosse feito respeitosamente».

Uma vez mais este incidente, que nada tem a ver com a sua gestão como ministro, tomou proporções gigantescas com repercussões na imprensa estrangeira.

Dito isto, o ministro Bolduc devia realmente ter saído da política, mas pelas boas razões. Não pela guerrilha das palavras em que o mundo político se compraz incansavelmente.

Editorial
Quando veio a lume logo no início do mandato do novo governo liberal do Quebeque que o novo ministro da Educação, Yves Bolduc, tinha acumulado uma choruda compensação em salários, prémios e honorários durante o período em que esteve na oposição, tal notícia levou-nos a reclamar a sua demissão.
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