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rss  Vol. XIX - Nº 323         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 14 de Julho de 2020
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Editorial

Portugal esvazia-se

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

A grande maioria dos septuagenários, e eles são hoje legião, nasceram durante os dias sombrios da Segunda Grande Guerra que incendiou o mundo inteiro.

Salazar, apesar de ter provado ser um exímio diplomata para manter Portugal fora do conflito, não conseguiu evitar as consequências do mesmo com os seus racionamentos, os seus refugiados, mas sobretudo com a angústia permanente duma invasão possível tanto das tropas do Eixo como dos Aliados e até mesmo da sua vizinha Espanha.

E não obstante, os pais e as mães daqueles anos fatídicos de 1939 a 1945, apesar do mundo viver a ferro e a fogo, com milhões de vítimas em todos os continentes, continuaram a manter a sua esperança num futuro melhor. Sabiam que a guerra um dia ou outro haveria de acabar. Acreditavam que depois da tempestade viria a bonança e assim não hesitaram em por filhos no mundo.

O crescimento da população portuguesa, apesar da guerra, e da crise económica que se lhe seguiu depois do terem conhecido o seu Klondike do volfrâmio, continuou sempre num crescendo, lento mas seguro. De 7,6 milhões em 1940 os portugueses já eram 9 milhões em 1963.

Uma nova guerra rebentou entretanto em Portugal nos anos sessenta. A guerra colonial. Com este conflito, embora longínquo e nebuloso – não havia imprensa livre em Portugal – mas que tocou de perto praticamente todas as famílias, levou a que o crescimento demográfico parasse e começasse mesmo a retroceder. Com a baixa fecundidade das famílias – quem é que quereria gerar filhos naqueles anos? Carne para canhões? –, com a emigração maciça da juventude que fugia à tropa, o número de portugueses começou a baixar. O censo de 1970 contava com uma população de apenas 8,6 milhões de almas.

Felizmente aconteceu o 25 de Abril. A esperança num futuro melhor levou as famílias a fazer mais filhos. A emigração parou e mesmo alguns milhares de emigrados voltaram à terra-mãe. A este surto demográfico veio juntar-se a imigração de novos trabalhadores que procuravam em Portugal o futuro radioso que o país prometia. Em 1999, a população portuguesa já ultrapassava, pela primeira vez na sua história, a marca dos 10 milhões.

Depois veio a crise. O crescimento populacional começou a baixar. Em 2007 havia apenas 10,6 milhões de portugueses. Com o aumento da crise, a baixa da população começou a acentuar-se. Em 2013 Portugal contava já só com 10,46 milhões.

Esta baixa ficou a dever-se a três fatores. Menor fecundidade das mulheres portuguesas, a paragem da imigração estrangeira e a nova vaga de emigrantes jovens, sobretudo entre os mais escolarizados.

Se a baixa populacional não ficou mais agravada deve-se sobretudo ao facto de a longevidade dos portugueses se ter substancialmente melhorado. De 1975 para cá a esperança de vida média, homens e mulheres, passou de 67,1 para 80 anos.

Quer isto dizer que Portugal é já hoje o sexto país mais envelhecido do mundo. Em 2012 houve mais 17 mil funerais que partos. Para 90 026 bebés que nasceram, morreram 107 287 pessoas. Em 2013 nasceram apenas 75 mil bebés. A fecundidade das portuguesas passou de 48% em 1990 para 36% em 2012.

Com o aumento da emigração, e agora com a razia que grassa entre os idosos nos hospitais portugueses, começa a criar-se uma tendência para o despovoamento do país. De tal modo que a agência de notação americana Moody’s há algumas semanas publicou um estudo no qual considerava que – se as tendências se mantiverem – a população portuguesa em 2060, não será senão de 6 milhões de habitantes, quase metade do que é hoje.

Parece ser uma estimativa muito alarmista. Mas mesmo as projeções do próprio Instituto Nacional de Estatísticas de março de 2014 revelavam que «a população residente em Portugal tenderá a diminuir até 2060» e, num cenário central, reduzir-se-á «de 10,5 milhões de pessoas, em 2012, para 8,6 milhões de pessoas, em 2060?. O fenómeno será acompanhado de um «continuado e forte envelhecimento demográfico». Entre 2012 e 2060, «o índice de envelhecimento aumenta de 131 para 307 idosos por cada 100 jovens».

Claro que todas estas projeções se baseiam nas tendências atuais. É já um facto constatado geralmente que Portugal está a envelhecer e se está a esvaziar. A questão é de saber quem e como se vai parar a hemorragia.

Ninguém tem uma bola de cristal para prever o futuro. Mas as nações como os indivíduos são capazes, quando acossados a um beco sem saída, de saltar, de reagir, de fazer mentir as tendências e os prognósticos. Não nos esqueçamos que Portugal quando se lançou na sua homérica aventura das Descobertas pouco mais tinha que 2 milhões de habitantes, e no entanto foi capaz de ir buscar novos mundos, de criar novas sociedades, de fazer do pequeno retângulo à beira-mar plantado, um dos maiores centros marítimos do mundo, invejados mesmo pelas grandes potências europeias.

Será que já nasceu ou está para nascer o novo infante D. Henrique capaz de impulsionar a juventude portuguesa a embarcar numa nova epopeia, não marítima desta vez, nem com as naus de quinhentos, mas uma epopeia científica, tecnológica, ecológica, avançando nos novos continentes do saber.

Herdeiros dum pequeno país sem recursos naturais para além do seu clima e das suas paisagens, os portugueses estão condenados à excelência ou a perecer. De outro modo os Moody’s deste mundo terão razão das suas sinistras previsões.

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