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rss  Vol. XIX - Nº 322         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 03 de Abril de 2020
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Nova fórmula de felicidade

Por Lélia Pereira Nunes

«Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte -- De repente nunca mais esperaremos… Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente.»

Fragmento de Poema de Natal, Vinicius de Moraes

O Natal já ficou para trás, o Ano Novo fez sua entrada triunfal com muita festa e fogos de artifício para marcar a sua chegada e, por último, celebramos o dia dos Santos Reis a 6 de janeiro – tradição secular que chegou com os portugueses e que não se perdeu pelos caminhos do passado. Um tempo que ainda é presente nas freguesias, bairros, cidades do litoral e da Capital dos catarinenses graças aos Ternos de Reis que, encerrando o Ciclo Natalino, saem às ruas e vão de porta em porta anunciando e louvando o nascimento do Menino Jesus, a presença da estrela Guia e a chegada dos Reis Magos com seus benditos, loas e «abrições de porta». Cantadores e músicos vão fazendo sua cantoria alegre, versos de «repente», improvisados, pedindo ao Deus Menino as bênçãos divinas, um próspero ano novo para a família visitada e no final há «comes e bebes». Uma tradição que a alma popular catarinense reconhece como parte de sua memória coletiva e marco da sua história cultural, numa convergência de religiosidade e arte popular, mantendo viva num contínuo revitalizar, os bens culturais intangíveis herdados dos povoadores deste chão abençoado por Santa Catarina que, atrás da terra prometida «que emana leite e mel», a 6 de janeiro de 1748 arpoaram a esperança, formaram famílias, escreveram a sua (e a nossa) história na terra que os acolheu.

Dia de Santos Reis, segundo a nossa tradição, é tempo de desmontar o pinheiro, o presépio, a decoração natalina da casa e guardar até o próximo Natal. É o que comecei a fazer nesta linda manhã ensolarada com temperaturas homéricas beirando os 35°C.

Por minutos, que me pareceram uma eternidade, fiquei silenciosa segurando nas mãos uma bola de Natal, rósea, brilho esmaecido, frágil com uma singela flor branca pintada à mão. Falei a viva voz – «esta bola há cinquenta e sete anos enfeita o pinheiro da família.» Ninguém me respondeu. Estou só no meio da sala com a missão de mais uma vez desmontar a nossa árvore que desde o primeiro dia de dezembro ocupa parte da sala. Custei muito a me decidir se ia erguê-la ou não. Na verdade, fiquei uns dez dias neste chove e não molha. Um vazio enorme e o sentimento sufocante do ato solitário não me deixavam avançar.

Estive a ponto de desistir de tudo... Não conseguia sentir o tal espírito de Natal que já estava nas ruas, praças e lojas desde o final de outubro esbanjando alegria e luz. O mesmo outubro que deixou-nos um rasto de dor, de desamparo e uma imensa tristeza.

Relanceio o olhar sobre as caixas espalhadas a minha volta com enfeites de Natal de todos os tamanhos e cores e reunidos ao longo dos anos. As lágrimas temperadas de dor e saudade teimam a lavar a cara. Como é difícil aceitar a partida da pessoa querida, que foi parte vital de sua vida! Nada será igual. Nem o meu estado civil é o mesmo.

Bem a propósito, o historiador Boris Fausto acaba de lançar seu novo livro «O Brilho do Bronze» (Cosac Naify, 2014) – um diário de luto onde o autor tenta aceitar a ideia do desaparecimento da pessoa que foi companheira de uma vida por 49 anos. E ainda recomeçar a vida sozinho. Não há mais «Nós», apenas «Eu». Como isso foi acontecer? Pergunta Boris em seu diário belo e comovente, que coincidentemente, fala da minha realidade presente. Aliás, é a mesma pergunta que me faço todos os dias, desde o anúncio cruel naquela noite de domingo – do passado 26 de outubro. Como conviver com um cotidiano que engoliu o «nosso dia»? Numa escrita escorreita, leve e humor inabalável, Boris Fausto vai do luto ao cotidiano concreto envolto pela marca da ausência da mulher. Também ele reconhece «como é duro aceitar que uma pessoa querida possa sumir de vez».

Pois, se é difícil aceitar a partida, infelizmente, também não é nada fácil superar a perda. Tudo isso me leva de volta a nossa sala com bolas e enfeites de Natal espalhados pelo chão, um pinheiro para desmontar e um velho presépio armado à moda açoriana. Sim, como manda a tradição, sem a figura do Menino Jesus que era entronizada na Noite Santa e os Reis Magos a seis de janeiro. Uma manifestação cultural, religiosa, cultuada no seio da família com orações e benditos em louvor ao Menino-Deus nascido, que no ventre de Maria nove meses andou escondido, consagrados pela tradição popular. A festa mesma só começava no Dia de Santos Reis, quando os «Ternos de Reis» ganhavam as ruas, cantando de casa em casa, a chegada do Menino Salvador do Mundo. Abro aqui um parêntese para registrar que a primeira notícia sobre a celebração do Natal e Ano Novo em Desterro foi publicada no Jornal «O Mercantil» na edição de 1° de janeiro de 1868 como uma grande novidade que chegava do Rio de Janeiro, a capital da corte brasileira.

Encho-me de coragem e parto para o pinheiro, aquela mesma árvore de 2m20cm de altura que comprei em 2009 na Loja do Gato Preto de Lisboa e que, carreguei, literalmente, às costas desde a loja até o ponto de táxi, situado em frente ao Armazém do Chiado. Recordei, deliciada, as peripécias que fiz para trazê-lo desde Lisboa até Florianópolis.

Cada bola ou enfeite guardado lembrava uma história, momentos vividos, indeléveis. As bolas antigas, de vidro, pertenceram à minha mãe. Alguns enfeites são os mesmos do nosso primeiro Natal, em 1971. Os mais bonitos por seu significado cultural e criação artística trouxemos das nossas viagens como as bolas pintadas à mão de Amsterdã e Heidelberger, a guirlanda austríaca, a pesanky de Budapeste ou a lapinha e o Menino Jesus de Ponta Delgada. Imagens que chegam à lembrança enquanto vou enfeitando a nossa árvore de Natal. Viajo... Vasculho reminiscências de outros natais. Sem me dar conta estava revisitando a nossa história de vida ao longo de quarenta e quatro anos. Uma espécie de memory revival trazendo intensas fatias da vida vivida, uma coleção de instantes, com um jeito muito terno e querido. Lembranças afáveis que a memória deixa fluir em visões do tempo. «O tempo é a substância do que sou feito,» ensina o poeta argentino Jorge Luís Borges.

Não é preciso acrescentar mais nada, apenas deixo sequestrar o meu coração acreditando que esta é uma nova fórmula de felicidade.

Devia, agora, botar um ponto final nesta crônica de Natal. Não fiz. O telefonema da amiga açoriana Maria Amélia desde Windsor, Canadá (a jovem da historia das cartas de amor perdidas por 52 anos) desejando «Boas Festas à Lélia e ao senhor Nunes» mudou meu rumo. Deixei o poetinha Vinicius falar por mim – «da morte, apenas Nascemos, imensamente».

 

Crónica
«Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte -- De repente nunca mais esperaremos… Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente.»
Uma nova forrmula de felicidade.doc
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O tempo no resto do mundo

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